15/12/2013
Ano 17 - Número 870


 

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ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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Ana Luiza Libânio



Desculpe-me, estamos fora do ar

Ana Luiza - CooJornal

Escritora, tradutora, roteirista, dramaturga, gerente, auxiliar de serviços gerais…

Opa! Espere. Como é que é?

Isso mesmo. Além do trabalho intelectual, esta escritora faz serviço de correio, banco, receita federal e prefeitura, cuida da família, da casa e da saúde.

Ufa! Ainda bem que o serviço público está pronto, eficiente e disposto a nos ajudar.

Nossa PBH — Prefeitura de Belo Horizonte — criou uma unidade muito inteligente: BH Resolve. No centro da cidade, dentro de um único prédio, o cidadão resolve tudo o que diz respeito à cidade. Pode encontrar emprego, solucionar questões que envolvem o IPTU, ISS e tantas outras coisas. Prático.

Para o cuidado da saúde, um sistema de “Prontuário Eletrônico” foi implantado de forma a garantir aos pacientes rapidez e eficiência no atendimento, mas, sobretudo, no diagnóstico e tratamento de doenças, já que um único sistema é capaz de agendar consultas, exames e fornecer medicamento.

Mas será que todo esse trabalho das autoridades resolve mesmo?

Bem… Há controvérsias.

Sentada em uma fila para pegar senha e entrar em outra fila, comecei a imaginar o que seria desse país sem suas infindáveis filas. Acho que seria mais ou menos assim:

Depois de preencher um simples formulário e enviá-lo por email para a central de soluções de sua cidade, Ana Luiza Libânio, feliz microempreendedora individual, começou a digitar o texto para a coluna onde, semanalmente, publica crônicas. O tempo de digitação foi mais que suficiente para a eficiente prefeitura de sua cidade fazer seu cadastro. Tratava-se de um nome de acesso e uma senha para acessar o novo sistema que permite ao cidadão empresário emitir notas fiscais. Esses dados são gerados automaticamente e enviados ao solicitante, quinze minutos após o envio do formulário.

Texto enviado, cadastro confirmado, ainda houve tempo para preparar almoço. E como seu trabalho estava todo em dia, Ana resolveu tirar a tarde para ir ao posto de saúde, precisava atualizar as vacinas da filha e pegar um remédio que o doutor a receitara, no dia anterior.

Depois da sobremesa, mãe e filha seguiram para o posto. Já na entrada, após um simpático sorriso, o atendente entregou uma senha para as duas. Aquele número impresso no papel logo apareceu no placar pendurado acima da recepção, local onde cinco simpáticos atendentes sentavam-se atrás de computadores bem posicionados permitindo a funcionários e cidadãos interagir de forma privativa, segura e confortável.

Após a digitação rápida e sem interrupções, a funcionária foi delicada e indicou o caminho para a sala de vacina e para a farmácia. Mãe e filha então se separaram para, alguns minutos depois, encontrarem-se na mesma portaria por onde entraram. Ana segurava seu pacote de remédios e a filha, um algodão no local da vacina.

Antes de sair, tomaram um copo d’água, em um dos bebedouros ao lado do simpático porteiro do local — com as altas temperaturas do verão, nada como um copo de água fresca para manter a hidratação.

Depois de solucionadas as pendências de cidadã e de cuidar da saúde, Ana voltou para casa feliz; teria ainda algumas horas antes do jantar para dedicar-se ao trabalho, ou descansar, já que tudo estava em dia.

Que vida sem graça! Que bom, nada acontece assim. Imagine o tédio? Fazer tudo em um dia e ainda sobrar tempo para se cuidar, para cozinhar, para descansar? Não!

Por sorte, no posto de saúde, Ana e filha passaram a tarde toda batendo papo, em pé, em uma infindável fila onde senhores, senhoras e alguns jovens esperavam por remédio e vacina. O sucesso foi apenas da filha que saiu com a mão abanando o buraco por onde entrou a vacina que, por coincidência, havia chegado no dia anterior, depois de tantos distante das geladeiras municipais. Abanando também, estavam as mãos de algumas senhoras que, depois de horas debaixo do teto de zinco, descobriram não poder agendar exames solicitados por médicos. Precisavam colocar o nome na fila de espera — mais espera diante da suspeita de uma doença.

No dia seguinte, disposta a resolver suas questões de cidadã microeempreendedora, Ana Luiza Libânio, de posse de duas vias de alguns documentos, passou pelo cartório, reconheceu firma e seguiu para o BH Resolve.

— Tenho uma má notícia — disse o atendente — o sistema está fora do ar.

— Qual a previsão?

— Sem previsão. A senhora pode esperar, mas eu não posso garantir o atendimento.

Depois de aguardar por quase duas horas, só lhe restou voltar no dia seguinte, escrever uma crônica e uma carta para o Papai Noel.
 

Querido Papai Noel,

Sei que o senhor não existe, mas eu precisava escrever para alguém.

Estou cansada de “tuitar”, postar no Facebook, ligar pra “SACs”, processar, solicitar…

Se o senhor puder, peço que entregue a cada uma de nossas autoridades um pouco de compaixão. Estou cansada de ver o povo sofrer em filas, dormir nas ruas, perder casa enquanto nossos governantes esbanjam riqueza por aí.

Não é possível continuarmos todos apertados nos metrôs, trens e ônibus, para chegarmos ao trabalho, para voltarmos para casa, para irmos ao médico enquanto nossos governantes juram que estamos preparados para receber turistas, torcedores, visitantes.

Impossível aceitar o fato de que pagamos caro por serviços que não nos atendem. Pior, é revoltante sermos enganados pelas empresas que levam nossos difíceis Reais e, quando reclamamos, somos ainda punidos por termos reclamado.

Há pessoas, querido Papai Noel, com suspeita de doença grave e sem conseguir marcar o exame necessário para um rápido diagnóstico e tratamento eficiente. Há pessoas que trabalham por outras, que lutam dia após dia para oferecer educação, limpeza e outros serviços aos cidadãos, mesmo sem ter treinamento, mesmo com a promessa de um ínfimo salário que mal paga o aluguel.

Papai Noel, precisamos de justiça, equidade, condições de vida humana.

Tenho andado triste, porque aqui neste país não é só o sistema da prefeitura que fica fora do ar. As pessoas estão “fora do ar”.

Por isso, Papai Noel, se em algum lugar houver alguém como o senhor, ou talvez uma velha senhora chamada Esperança, quero pedir o maior dos presentes: um sinal de que nem tudo está perdido. Quero um sinal de que o sistema funciona e está no ar.



(15 de dezembro/2013)
CooJornal nº 870



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizadantas.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
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