25/03/2014
Ano 18 - Número 885


 

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ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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Ana Luiza Libânio



Angústia

Ana Luiza - CooJornal

 

“Oh, meu deus! Onde está o carro? Estranho… tenho certeza que estacionei bem aqui.”

Olho para um lado, olho para o outro. Nada. Na esperança de estar mesmo gagá, dou uma segunda chance à sorte e ando mais alguns metros.

“Opa! Ali. Deve ser o meu.”

Aproximo um pouco mais e forço a visão para tentar identificar algo familiar no veículo. Mas a única coisa que me saltou aos olhos foi a cor.

“O vermelho, sem dúvida, é da minha ‘Ferrari’!”

Enfrento uma pequena, mas numerosa, quantidade de pedestres que andam na direção contrária. Já não é dia, mas a noite ainda está a caminho. Assim como eu, ela anda em direção a um destino. O dela é certo. O meu…

Está com a porta amassada.

“Que merda é essa? Primeiro que o carro estava ali; segundo não tinha esse amassado na porta. Parece que alguém arrombou. Droga. E agora? Preciso ligar pra Carla, não sei se nesse caso vou precisar de boletim de ocorrência. Ai, não sei o que é pior, esperar para fazer BO, ou ter tido o carro arrombado. Caramba! O porta-malas também?”

Peguei o celular no bolso. Tentei disfarçar, não queria ser vítima de arrombamento pessoal. Escondi o aparelho na palma da mão. Procurei uma loja onde eu pudesse entrar, só havia botequins — e uma pequena, mas numerosa, quantidade de pessoas que tomavam cerveja, riam alto e comiam sei lá o quê.

Até mesmo na pequena feira de bairro, lá estavam elas: a quantidade pequena, mas numerosa, de gente e uma senhora distinta; ela comprava melancia. Com algum esforço da visão, consegui reconhecê-la: era a mãe da Carla.

“Olhem só! Depois de ter o carro arrombado, o destino resolve facilitar as coisas para mim?”

Guardei o celular. Andei até a feira.

— Olá! Que coincidência. Eu estava justamente tentando ligar para Carla.

Conversamos um pouco sobre a neta — dela, é óbvio! — falamos de alguns produtos daquela banca e sobre a segurança do bairro — ou melhor, a falta de.
Foi então que o telefone tocou.

— Carla? Que bom que ligou. Precisava mesmo falar com você. Adivinha quem encontrei… Isso, na feira. Exatamente: sua mãe. Uai! Como você sa… deixa pra lá. Eu preciso saber se… Isso. Você acha que devo chamar a polícia? Não devem ter levado muita coisa. Sim, o porta-malas também. Mas só tinha livros. E nesse caso, tudo bem se levaram. Há que se ler, amiga! … Pois é, esse é o problema: amassaram a porta… Tudo bem. Vou então pra casa e de lá peço para fazerem o famigerado BO. Obrigada.

Demorou pouco, mas uma quantidade numerosa de horas, para chegar em casa e conseguir, finalmente, descansar. O que aconteceu no caminho talvez nem faça sentido nessa história. Um sobe e desce de ladeira. Um parar e andar danado — ora interrompida por pedestres, sempre em número considerável, ora interrompida pelo sinal vermelho das encruzilhadas.

Dormi.

Já era alta noite quando acordei assustada com um barulho. Eu estava sozinha, não havia gente, apenas gatas. Temi ter o destino arrombado, invadido, levado. Olhei para o corredor escuro. Não vi coisa. Com certa dificuldade, encontrei o foco da visão. Mirei o escuro: total falta de luz. Tive medo.

“Não adianta ligar para Carla, nem fazer BO, vou ter que conferir se levaram alguma coisa… Parece que a porta não está amassada, os livros… intactos. As ‘Obras Completas de Machado de Assis’… onde está o primeiro volume? Eu deixei aqui! A, B, C, D. Drummond. Estão todos aqui. Espere. Falta um. Levaram ‘Alguma Poesia’.”

Segui o alfabeto. Na letra M, vi que tomaram de mim os “Cem anos de solidão”.

Por certo eu não estava sozinha.

A primeira edição de “Grande Sertão:Veredas” havia partido, sabe lá no lombo de quem.

O tempo passou rápido entre livros, angústia e medo.

Acordei novamente com um barulho.

Era o vento que batia na porta. O céu estava um misto de cor-de-rosa e azul. As gatas ao meu pé, na cama.

Lá fora os pássaros musicavam o diálogo entre galo e cachorro; eles revezavam bem o silêncio.

Em mim, de tudo ficou um pouco.

Abri o vidro de loção e abafei o “insuportável mau cheiro da memória” e fui tomar café.

Os livros estavam intactos. Todas as primeiras, segundas, terceiras edições estavam na estante.

Vivi o dia com Clarice, Hannah e Virginia.

E uma pequena, mas numerosa, quantidade de pessoas.



(25 de março/2014)
CooJornal nº 885



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizadantas.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
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