25/04/2014
Ano 18 - Número 889


 

ARQUIVO
ANA LUIZA LIBÂNIO




 

 

Ana Luiza Libânio



O povo brasileiro
3º ato

Ana Luiza - CooJornal


Nossa! Mas eu que sou pobre tenho mais de dois lençóis
e uns quatro travesseiros na cama…


Você tem razão, mas não espalha por aí não! Sou pobre nada. Hoje tenho muita coisa que nunca podia pensar que um dia teria. Eu passei fome. De rocha! Num é brincadeira, nem maneira de dizer. Eu tinha uns doze anos e meu tio trouxe a gente da roça aqui pra Contagem. Na verdade é ali, pra lá do bairro Industrial. Tinha nada. Mas a promessa era boa: minha mãe ia trabalhar em casa de família e a gente ia ter uma vida melhor.

A dona pra quem ela trabalhava dava um sacão de biscoito quebra-quebra por semana e de vez em quando, mandava uns pratos de comida pra mim, minha irmã e meu irmão. Mas eu fazia assim: no dia do pagamento ia lá na — como chamam aquelas lojinhas mesmo? Sabe? Quando a gente comprava as coisas no peso?

Isso, eu ia lá na venda ou como se diz, “Secos e molhados”, e comprava do arroz e do feijão mais baratos. É que tinha o bom, o mais ou menos, e o ruim que é o resto do mais ou menos todo quebrado. Daí vem aqueles grãos assim pela metade, sabe? Uai! Quinze quilos desse arroz era mais barato que os cinco quilos do mais ou menos. Mas não durava o mês todo, por isso eu comprava fubá, porque daí quando arroz e feijão acabava, a gente comia fubá.

Bem… Mas eu disse que meu tio trouxe nós pra cá, né? Pois é, a gente ficou lá na casa de vó, mas ela dava nossa comida pros meus primos tudo e eu acabei tendo que falar com minha mãe que era preciso a gente mudar de lá. Não dava mais. Por fim, chegava o pacote de biscoito… Ah! porque minha mãe saía pra trabalhar na segunda cedo e voltava no sábado de manhã, aí olha só procê ver: A vó falava que dava biscoito pra gente e dava nada. Era revoltante. Até hoje sou meio assim com minha primas.

Eu tinha doze anos e tinha que cuidar de minha irmã, meu irmão e da casa. Fui pra escola não. Hoje sei fazer conta, mas ler mesmo… Nada.

Teve uma noite que percebi meu irmão gemia o tempo todo. Era um tal de hum… hum… hum… a noite inteira. Ele tinha uns cinco anos. Eu cuidava dele de dia. Tinha nada. Chegava de noite: hum… hum… hum… Passou uns dias nessa gemeção, eu levei ele na casa da vizinha.

Sabe? Se não fosse essa mulher — o nome dela era Marli também, coincidência, né? — mas se não fosse ela, nem sei, acho que eu num estava aqui não. De vez em quando ela me chamava para passar umas roupas pra ela e me dava comida em troca.

Como disse, nós passamos foi fome, viu? Porque depois que saímos da casa de vó, ficou só nós quatro.

Não. Nunca nem tive notícia de meu pai. Ficou por lá.

A roça era no Espírito Santo. Nasci lá.

Então era mãe, eu, minha irmã e meu irmão. O que acontecia era que, como falei, mãe saía pra trabalhar, dormia na casa da família, voltava só no sábado e eu cuidava de tudo. Quando a comida acabava eu fazia uns bicos pra conseguir mais comida. Pois é, acabava que tinha que fazer bico o dia todo. Daí o problema que te fale da escola. Só deu para os dois estudarem.

Mas então, eu ia contando da gemeção de Danilo. Ele gemia que gemia e era só de noite. Levei ele lá na casa da tal Marli. Muito boa prá nós.

Ela mexeu nos cabelos dele e disse que parecia que tinha um caroço no cocuruto de Danilo. Mas não entendi aquilo, porque eu cuidava muito bem dele. Só que, menina, eu é que não tinha visto nada. Era muito garota, né? Daí ela olhou aquele caroço, depois achou outro e mais outro e quando menos esperava notou que a cabeça estava era tomada por uma casca grossa. Parecia assim… Sabe quando a gente faz machucado de ralado e aí forma aquela casca?

Isso mesmo. Danilo estava que era puro berne na cabeça. Imagina se dá nele uma gangrena ou coisa assim? Hoje eu não tinha irmão e a culpa, iam dizer era minha. Ainda bem, graças a Deus por aquela vizinha que ajudava a gente. Ela logo ligou pro marido pedindo uns remédios. Com muita dedicação, curou meu irmão. Tratou dele por mais de semana. Eu ia lá todo dia levar Danilo e ela olhava direitinho. Fazia curativo e tudo mais.

Ai! “Crendeuspai!” É difícil até lembrar da cena. Ela puxou a tal da casca e… Não! Nem dá pra contar…

Quando deu o dia de mãe voltar pra casa, quase caiu dura de ver o menino com o cabelo raspado. Depois foi lá agradecer a Marli.

Daí que eu te falo. Eu passei fome, vivi de fazer bico desde os doze anos até arrumar emprego fixo, nem pude estudar, mas hoje tenho comida, tenho minha casa e quando olho tudo o que consegui, fico até emocionada.

Eu sou é rica. Sou pobre não, você tem razão! E o que me faz ser rica não é ter lençol, travesseiro e essas coisas assim que a gente pega não. Minha riqueza está aqui dentro, ó. E essa ninguém toma de mim não. Eu conquistei e levo pra sempre comigo. São as experiências e minha inteligência de gente vivida que não tem medo de batalhar. Tá tudo aqui ó: nesta cachola, neste peito aqui. Meu tesouro tá aqui na alma.

Marli é mulher, brasileira


(25 de abril/2014)
CooJornal nº 889



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizalibanio.com
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