10/05/2014
Ano 18 - Número 891


 

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ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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"Amigo da Cultura"


 

Ana Luiza Libânio



Primeiras e última: Um texto cheio de começos, mas com apenas um fim*

Ana Luiza - CooJornal

“Muita gente pergunta porque me dedico à terapia de vidas passadas.” “Eh bien, mon prince.” Como deixar de estudar, por exemplo, o fato de que “Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o cap. Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé”? Sem falar que “A fortuna crítica e o reconhecimento da obra de Hannah Arendt (1908-1975) vêm crescendo continuamente.” Há que se pesquisar.

Independente disso: “Comecemos com algumas propostas de definição.”

“O termo “Política”, em qualquer de seus usos, na linguagem comum ou na linguagem dos especialistas e profissionais, refere-se ao exercício de alguma forma de poder e, naturalmente, às múltiplas consequências desse exercício.” “Num alio genere Furiarum declamatores inquietantut, qui clamant: ‘Haec uulnera pro libertate publica excepi, hunc oculum pro uobis impendi; date mihi ducem qui me ducat ad liberos meos, nam succisi poplites membra non sustinent?” Mas talvez falar das feridas que recebi em favor da liberdade pública, ou de meu olho dedicado a vocês seja algo banal. Simplesmente porque “Tudo aconteceu em menos de um minuto.” “Na origem, nada tinha forma no universo.” E isso é muito mais importante.

“Nonada.”

As estantes estavam cheias de livros.

Minha página estava em branco.

Resolvi rabiscá-las. Comecei:

“Uma discussão violenta rompera em nossa mesa na pequena pensão da Riviera em que eu morava, dez anos antes da Guerra, e ameaçava acabar em uma briga raivosa, até o ódio e as ofensas.” “O prédio fora construído em 1898, em terreno argiloso, e já havia cedido um pouco de um lado, de forma que a água escorreu por cima da soleira da porta, no lado das dobradiças.” “A escuridão pairava no quarto, como que relutando em desfazer-se.” Dormi mais um pouco.

Até que “O despertador tocou pontualmente às oito da manhã.”

“Manhã de sol.” “A pequena MedNave saiu do ultravoo.” e “O disco amarelo iluminou-se.” A história começou.

“Norman Bates ouviu o som e estremeceu.” “Ia dizer ‘Instituto Cultural Norte-Americano, boa tarde!’, mas não deu tempo.” Principalmente porque ainda era manhã, mas também porque as palavras, como borboletas a romper o casulo, invadiram o quarto:

“— Um ditado indiano diz que: quanto mais se ama alguém, mais a gente quer matá-lo — declarou minha funcionária.” “Faz muito tempo que não penso em Iris nem no verão em que ela morreu.”

“— Quem esse cara pensa que é?”, Norman olhou para a cadeira de balanço ao lado de sua cama.

— “Lolita, luz de minha vida, fogo de meus flancos.” Mais palavras invadiram o ambiente.  Recitadas. — “Para Sherlock Holmes, ela é sempre a mulher.” Mas para você, Norman Bates, o que é essa figura?

— A “Woman?”

— Você não entende! Olhe para o espelho veja quem é.

— Ah! “Às vezes eu penso que gostaria de ser uma moeda de uma libra esterlina em vez de uma menina africana.” Está difícil viver assim. “Daddy, I’m tired, the little girl in the red pants and the green blouse said fretfully.”

Isso não faz sentido.

E foi aí que “Finalmente, acordei para valer; o sol queimava minhas pálpebras — eu as abria com dificuldade.”

“Eis aqui tudo de novo.”

As estantes estavam cheias de livros.

Minha página estava em branco.

Resolvi rabiscá-las. Comecei:

“Era uma vez um rei, cuja esposa tinha os cabelos dourados e era tão bela que não se encontraria em toda a face da Terra uma que se lhe comparasse.”

— “A notícia sobre o Amâncio me pegou de surpresa.”

— O quê? Pare de me interromper.

— “Matos e Vilela se encontram na porta da penitenciária.”

— Para visitar Amâncio?

— “Nanci Ribeiro não pretendia ir ao Rio de Janeiro naquele fim de ano.”

Não dá. Tento escrever uma história e essas vozes insistem em me incomodar. “Morar sozinho é o meu consolo.” Do contrário, seriam ainda mais palavras desconexas e eu preciso continuar. “A ideia de que eu deveria escrever um relato de como encontrei o corpo foi do padre Martin.”

“You, Doctor Martin, walk.” Walk away. Salve-se! “Esperei muito tempo por você.” “Imagine que você precisa quebrar o braço de alguém.” Pois é. E como “A arte inglesa não me atraía muito no começo, é preciso acostumar-se a ela,” mas não acostumei, resolvi quebrar o braço daquela menina, porque “A peça — para a qual Briony havia desenhado os cartazes, os programas e os ingressos, construído a bilheteria, a partir de um biombo dobrável detido de lado, e forrado com papel crepom vermelho a caixa para guardar dinheiro — fora escrita por ela num furor criativo que durara dois dias e que a levara a perder um café da manhã e um almoço.” Achei uma falta de respeito danada com o processo criativo. Afinal, “How does a writer begin?”

Sei lá. Mas aqui vai um belo começo:

“Silêncio e solidão, o rio penetra mar adentro no oceano sem limites sob o céu despejado, o fim e o começo.”

Mas aqui já é o fim. Não é?

“‘Stupid,’ John said, ‘this isn’t the end. This is only the beginning’.”

*Numa agradável tarde de produção literária, esta escritora parou tudo. Jogou o rascunho na lixeira, porque não gostou do que tinha, e encarou sua biblioteca — literatura, eterna fonte de inspiração. Resolveu brincar: Com a filha, sorteou livros, anotou as primeiras frases de cada um e, no quadragésimo terceiro, decidiu inovar e anotou a última frase. Abaixo segue a lista das quarenta e três fontes em ordem de aparecimento na cena real, não no texto.

Será que você consegue ligar fonte à citação?

1.     ZWEIG, Stefan. 24 horas na vida de uma mulher.

2.     ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas.

3.     CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos.

4.     LAFER, Celso. Reflexões de um antigo aluno de Hannah Arendt sobre o conteúdo, a recepção e o legado de sua obra, no 25o aniversário de sua morte.

5.     LAURIE, Hugh. O vendedor de armas.

6.     NESBO, Jo. A estrela do diabo.

7.     VELOSO, Caetano. Letra só.

8.     KING, Stephen. Firestarter.

9.     FONSECA, Rubem. O caso Morel.

10.   PETRÔNIO, Satyricon

11.   POTOCKI, Jan. História do demoníaco Pacheco.

12.   VAN GOGH. Cartas a Théo.

13.   PIMENTA, Paula. Fazendo meu filme 4.

14.   GRIMM, Jacob& Wilhelm. Bicho peludo.

15.   McEWAN, Ian. Reparação.

16.   SEXTON, Anne. The complete poems

17.   HILL, Toni. O verão das bonecas mortas.

18.   AMADO, Jorge. Tieta do agreste.

19.   SOARES, Luiz Eduardo, et alli. Elite da tropa.

20.   VERISSIMO, Erico. Um certo capitão Rodrigo.

21.   LANDI, Ana Claudia e BELO, Eduardo. Apenas uma garotinha.

22.   SAFIER. David. Uma família feliz.

23.   CLEAVE, Chris. Pequena Abelha.

24.   RIBEIRO, João Ubaldo. Política.

25.   TOLSTÓI, Liev. Guerra e paz.

26.   BEAUVOIR, Simone. The Second Sex.

27.   POUZADOUX, Claude. Contos e lendas da mitologia grega.

28.   BETTO, Frei. Treze contos diabólicos e um angélico.

29.   MORAIS, Fernando. Olga.

30.   SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira.

31.   LEINSTER, Murray. Planeta proibido.

32.   MONTEIRO, José Maviael. Os barcos de papel.

33.   BLOCH, Robert. Psicose.

34.   McSILL, James. Interlúdio.

35.   ALVES, Ademiro (Sacolinha). Adversário Íntimo.

36.   COLE, Gerald. Sid & Nancy.

37.   BRIGGS, Julia. Virginia Woolf, an inner life.

38.   DOYLE, Arthur Conan. As aventuras de Sherlock Holmes

39.   JAMES, P. D. Morte no seminário.

40.   NABOKOV, Vladimir. Lolita.

41.   SCLIAR, Moacyr. A mulher que escreveu a Bíblia.

42.   FREIRE, Roberto. Cleo e Daniel.

43.   TAYLOR, Valerie. Whisper Their Love.




(10 de maio/2014)
CooJornal nº 891



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizalibanio.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
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