25/07/2014
Ano 18 - Número 901


 

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ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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Ana Luiza Libânio



A caverna dos pirilampos

Ana Luiza - CooJornal

Descobri uma caverna metáfora da sociedade.

Em Waikato, Nova Zelândia, está o sistema de cavernas Waitomo, hoje considerado um dos principais pontos turísticos do país. Os passeios vão desde uma simples visita a escaladas e caminhadas mais radicais. Aparentemente, desde o início do século passado, a pequena vila é visitada por turistas e hoje é explorada por várias empresas que levam, por dia, centenas de curiosos e aventureiros ao local.

Além dos esportes radicais que a natureza oferece, os visitantes podem curtir a beleza das estalactites e das estalagmites — em cavernas, formações rochosas que “escorrem” do teto para o chão e “levantam-se” do chão para o teto, respectivamente.

Mas o ponto alto da visita é oferecido pelos “glowworms” (Arachnocampa luminosa), espécie de vaga-lume, ou pirilampo, por isso o apelido de “Caverna dos vaga-lumes”. A caverna foi formada em uma falha causada por terremoto, o que resulta em grande infiltração de água e, portanto, na formação das maravilhosas estalactites e estalagmites. Segundo consta, talvez esta seja a maior ocorrência no mundo dessas formações rochosas — deixo aqui espaço para espeleólogos contestarem, já que temos aqui no Brasil a Gruta de Maquiné. Os subterrâneos da caverna só podem ser visitados em barcos, e foi assim que foram descobertos.

Dois exploradores da região construíram uma balsa e seguiram a correnteza caverna adentro. A escuridão, obviamente, era total. No entanto, observaram que havia alguns pontos luminosos no teto e que esses pontos eram refletidos na água. Conseguiram encostar a balsa e descer para explorar o espaço. Foi aí que se maravilharam com a decoração que a natureza oferecia: do teto pendiam milhares de pirilampos. Após várias visitas, descobriram um acesso mais fácil e desde então turistas se encantam com a luz oferecida pelas larvas luminosas.

O grupo de turistas que, sobre uma balsa, entra na caverna, a princípio se vê — ou melhor, não vê muito — em um local extremamente escuro, em situação vulnerável que, em muitos casos, gera medo; precisam inclusive tatear para saber onde estão. Até que em certo momento, pouco a pouco, luzes se acendem no teto e começam a refletir na água. Dezenas, centenas, milhares de pirilampos, cada um com sua ínfima luz, transformam a escuridão em dia ou, se preferir, em uma belíssima noite estrelada, mas tão estrelada que aqueles que antes não enxergavam um palmo à frente do nariz, podem fazer anotações em seu caderno para jamais esquecer o fenômeno, se é que fenômeno como esse seria possível esquecer.

Sem ter visitado esse local, impressionei-me com o fenômeno.

Desejo que sejamos como pirilampos em uma caverna; que acendamos, cada um, sua ínfima luz para que todos, juntos e organizados, possamos iluminar a escuridão, seja ela qual for. Desejo que cada um de nós tenha a nítida visão de que, ainda que não seja tão óbvio, tão explícito, o pouco que podemos doar de nós faz uma grande diferença no resultado final. E mais, é imprescindível que saibamos, nossa luz reflete-se no outro e se multiplica.

 

Para Hannah, meu pirilampo — não foi à toa que te dei esse apelido.




(25 de julho/2014)
CooJornal nº 901



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
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