01/09/2014
Ano 18 - Número 905


 

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ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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Ana Luiza Libânio


Suco de pimenta é refresco

Ana Luiza - CooJornal


“Pode arrumar as malas, dê o fora, que eu arrumo outra.
Suco de pimenta!”
O rádio divide com a estrada minha atenção. Não que a música seja boa. Muito pelo contrário.
(…)
Gargalhadas!
(…)
E então, certa voz estridente canta “a felicidade é fácil, como diz o ditado, ser feliz é se entregar”.
À frente as curvas são iluminadas pelo farol da van.
Pista sinuosa. Esburacada.
Estamos na BR-381.
“Vinte e um anos nesta estrada, 39 na estrada da vida. Incontáveis curvas, desvios e alguns acidentes. Nada que me tirasse do caminho que escolhi. Minha filha já tem dezenove anos.”
(…)
Gargalhadas!
(…)
“Não! Não é fruto do trabalho na estrada, não! Caminhoneiro não é quiném marinheiro. Acho que já foi, mas não peguei essa época. É que às vezes a gente carrega muito dinheiro. Ou então a carga é valiosa e dá medo de ser assaltado. Deixar qualquer pessoa entrar na cabine é meio loucura. Sabe lá…”
Dois caminhões e um carro. E as curvas insistem em nos impor movimentos bruscos.
Mas os brutos dos buracos é que são bravos.
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É… Não sei o que teria sido desta crônica naquele dia. Entreguei-me aos brutos, bruscos, bramosos buracos.
Não conseguia escrever e seguir os altos e baixos do asfalto de má qualidade que cobre nossa rodovia. Forcei-me ao sono — na verdade, sem fazer muita força — e adormeci.
Nele tomei outra estrada:
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Era uma viagem a trabalho. Convidaram-me para lecionar: oficina de dramaturgia. Eu. Escritora. Sonhadora. Amante da arte. Da arte marginal. Da arte marginal daqueles que buscam espaço — que não seja marginal, ou que talvez seja, afinal o importante mesmo é ter espaço — para que sua voz seja ouvida, aos quatro ventos, ainda que sem vento, e na secura do deserto inabitado, estabelecer um diálogo com quem tiver coragem de aparecer, ainda que no vão do sal, da areia, do nada — da padronização que se fez construir no universo outrora diverso de um deus que ama.
Era uma viagem a trabalho. Eu não precisava refletir sobre a vida. Não era necessário pensar nas similitudes daqueles que seguem no vácuo os que primeiro tomam a estrada e fazem os insuportáveis buracos que nos jogam de cá para lá. Mas eu não consigo evitar.
Era uma viagem a trabalho. Acabou por se tornar um passeio de descobertas. Descobri, mais uma vez, que o amor está no que faço: nas letras, nas palavras, nas frases. Bem pensadas, bem ditas, bem escritas. Até mesmo nas “mal-dizidas”.
O que sou e o que amo está em nós: universo e eu.
Era uma viagem a trabalho. Mas aí, acordei.
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Foi uma viagem de prazer(es).
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Do Suco de Pimenta, tomamos meu amigo Maurílio, o motorista e eu.
(…)
Gargalhamos!
(…)
“Ó! Não quer que mude a rádio? Gostaram, né?” — ele gargalhou.
(…)
Gargalhamos!
(…)
“Isso é uma tal de banda de forró… É lá da Bahia.”
Deixei para terminar o texto depois da viagem.
Parece que a viagem ficou no texto!

para André Luiz Dias
 

(01 de setembro/2014)
CooJornal nº 905



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
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