15/09/2014
Ano 18 - Número 907


 

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ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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Ana Luiza Libânio


O tempo e o…
                                banco
 

Ana Luiza - CooJornal

“Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo.”
No caminho de Swann —Proust


Prometi a ela que não faria qualquer reflexão “facebookiana” acerca do tempo. Mais especificamente, prometi que não contaria que ela está com vinte e seis e que a conheci há dez. Então não falarei disso, sobretudo, nas redes sociais. Evitarei pensar no tempo, em sua passagem e em como todos pensamos já termos perdido uma grande porção dele. Evitarei esforçar-me para falar de coisa inefável. Principalmente, escusar-me-ei de escrever sobre o que não existe.

Ontem.

Amanhã.


Depois de suar para conseguir entrar em uma vaga bastante mal projetada, na porta do banco, esbarrei em um Passat que estava na, também mal projetada, vaga ao lado da minha. Rapidamente, como quem tem culpa no cartório — eu tinha — olhei para os lados, olhei para o para-choque do carro vitimado, avistei o segurança em pé, do lado de dentro da agência, com os olhos a mirar esta barbeira.
O Passat estava bem, muito bem, obrigada. Eu, com vergonha.

De cabeça meio baixa, ao entrar na agência, evitei fazer contato visual com aquele que, provavelmente, seria meu delator.

Abri minha bolsa, tirei celular e chaves para colocar naquela caixa ao lado da irritante porta-giratória-com-detector-de-metal para, ainda assim, ouvir a voz metálica de uma mulher a me dizer que tenho algo de metal na bolsa — que ironia: voz metálica que vem de uma porta com detector de… metal.

Suspiro.

Aliás, nunca consegui entender o que a mulher fala, mas como ela não me deixa passar, suponho que diga algo como “queira por gentileza voltar e esvaziar essa sua bolsa porque aqui, com esse tanto de metal, você não entra”.

E quando a gente vai e volta e ela continua a nos travar, deve dizer algo como “está pensando que sou besta, sô? — se for banco mineiro — Volta lá e tira tudo.”

E a gente obedece. Tira isso, aquilo e aquilo outro. E ela continua a nos barrar, só que da terceira vez fala em tom de raiva “eu disse: Tudo! Se tem dificuldades auditivas, por gentileza acene para o segurança.”

“Mas como acenar para o segurança se eu acabei de esbarrar em um Passat e estou morrendo de vergonha? Ajuda, moça!”

Tirei tudo.

Tudo, tudo, tudo.

Esvaziei a bolsa e meus objetos povoaram a “caixinha” de acrílico ao lado da porta-giratória-com-detector-de-metal:
— agora, leitores pensarão que descreverei uma bolsa a se abrir e a revelar uma infinidade de objetos jogados aleatoriamente em uma mistura de maquiagem com calculadora, caneta, chaves, moedas, notas amassadas, contas, caderneta, drops, chicletes, aquele CD que estava perdido, papel de barra de cereal, escova de cabelo, escova de dentes… —
      Um tubo de moedas;
      Uma lata de charutos;
      Uma carteira de couro.

CENA EM CÂMERA LENTA
A cliente anda da caixa de acrílico até a porta giratória. Ela coça a cabeça, olha para os pés, respira fundo, olha para a porta, olha para o teto, olha para o lado, evita fazer contato visual com o segurança, olha para a porta e entra. A porta gira.

Ela gira.

A cliente está dentro do banco. Ela pega seus objetos dentro da caixa de acrílico e guarda, um a um, na bolsa.


Ufa…

“Ai, meu Deus! Ele olhou para mim. Agora está vindo em minha direção. Tem um senhor ao lado dele. Deve ser o dono do Passat. Mas não estragou! Peço desculpas. O que podemos fazer?”

—Boa tarde, senhora.

—Boa tarde…

—A senhora pode fazer um favor para este senhor?

“Putz! Eu sabia. Vai pedir para eu ir lá fora, verificar o carro, depois dessa luta para entrar, vai dizer que tenho que pagar, eu estou sem dinheiro, endividada, não preciso de mais essa despesa, estou f@#$*%!”

—Claro! — a cliente sorri sem mostrar os dentes. — Se eu puder…

—Ele precisa sacar dinheiro.

—É que minha esposa recebe por essa conta — o senhor interveio, mostrando o cartão magnético — e ela está adoentada, de cama, não pôde vir ao banco, então eu vim, tenho até um atestado médico.

“Ai, ai… Ok. Ele não é o dono do Passat, mas é um senhor que vai me aplicar um golpe. Pedirá que eu saque dinheiro de minha conta, prometerá que tem dinheiro nessa conta do cartão, mas o cartão está bloqueado, ele me dá o cartão, a senha, o código, etc., etc., e tal e depois que eu der meu dinheiro, que eu nem tenho, ele vai embora, e me deixa a ver navios.”

—É… Hum…

—A senhora pode ajudá-lo? Ali ó. Caixa preferencial. Vai lá. — apressou o segurança.

“E o pior é que ele tem cobertura. Segurança e velhinho mancomunados! Estou mesmo f@#$*%!”

Atrás de outro senhor, a cliente e o velhinho-supostamente-trambiqueiro esperaram uma senhora terminar sua transação.

—Veio sacar também — o senhor da fila se virou.

—Eu costumo sacar na cidade, mas minha senhora está adoentada, ela sempre vai comigo, é a primeira vez que venho a essa agência.

—É a minha primeira vez também. Ah! Mas está de doer, né? Tem que saber fazer o negócio… Eles abrem, mas ainda não tão preparados. Dá nisso.
Enquanto os senhores debatiam sobre saque de aposentadoria e serviços bancários, a cliente, pouco a pouco, voltou a respirar. O ar entrava, saía e ela até sorria. Trocou os óculos escuros pelos multifocais. Relaxou os ombros e riu com o velhinho-já-não-mais-supostamente-trambiqueiro. Conheceu o nome dele, forneceu o seu. Ouviu a história sobre a doença da esposa e a falta que os filhos fazem. Aconselhou que ele se cuidasse ao sair do banco, porque “hoje em dia, o senhor sabe, não dá para confiar em todo mundo…”. Sacou os novecentos reais que ele pediu. Entregou-lhe cartão e dinheiro com um reforço ao primeiro conselho: “Guarde bem isso aí!”

—Muito obrigado! Que Deus continue te abençoando e te dando muita sorte e alegria na vida para você sempre ter esse lindo sorriso no rosto e continuar ajudando esses moços de mais de oitenta assim que nem eu. E me desculpe se fiz você perder tempo.


É. O tempo… Ele passa para todo o mundo.

Mas eu prometi não fazer reflexão sobre isso.

O Passat? Ele ficou bem. No final das contas, ninguém sabe quem é o dono. Até hoje está lá, mal estacionado, em uma vaga mal projetada e, a cada semana, mais mal tratado.

Até para ele o tempo passa.

Para Giselle Faria


(15 de setembro/2014)
CooJornal nº 907



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizalibanio.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
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