15/10/2014
Ano 18 - Nmero 911


 

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ANA LUIZA LIBNIO




 

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Ana Luiza Libnio


O SETOR R.A.P.
 

Ana Luiza - CooJornal


Quero fazer um protesto. Quero ajudar o povo. Quero fazer uma revoluo.

Por gentileza, queira se dirigir ao outro setor:

 

O Setor R.A.P.

 

Ol. Eu sou Ana Luiza Libnio. Sou escritora e tradutora. Moro em Belo Horizonte. Formei-me em letras, tenho mestrado em literatura Mas minha vida poderia ter sido bem diferente. Eu poderia ter nascido em um bairro da periferia desta capital e como metade dos jovens desta nao, eu poderia no ter completado meu caminho at o ensino mdio e, nesse caso, muito menos at a universidade. E se essa fosse minha realidade, e se fssemos sentar para conversar, talvez eu te contasse isto:

 

Revoluo, Ataque e Protesto, esse nosso nome. Somos cinco integrantes. Juntos h oito meses, a gente leva a favela nas palavras, pra onde a gente vai.

 

Revoluo

Mudar o mundo a partir da realidade. Abrir os olhos e perceber o que de fato acontece e crescer nessa verdade. No podemos nos calar diante da mdia que insiste em mostrar somente um lado da moeda e sempre mostra o pior deles. Nossa comunidade muito mais do que as pessoas ouvem por a. Ento queremos revoluo. Queremos mudar a conscincia do nosso povo para que valorizem mais o que tem valor mesmo: a verdade. E sabe qual a verdade? que somos todos seres humanos com direito de sermos tratados como humanos.

 

Ataque

Nossa arma a verdade, a palavra, a poesia. Atacamos sem violncia, porque falamos pela msica. Isso quer dizer ao. Atacamos o preconceito que muitas vezes comea aqui dentro, na favela. Quem mora aqui e tem vergonha alimenta esse sentimento negativo em relao a esta gente. Eu tenho orgulho. Meus amigos tm orgulho de ter nascido aqui e a gente fala disso. Somos favelados, porque favelado quem nasce na favela. No temos medo dessa palavra, porque ela ruim s para quem acredita que isso tudo aqui ruim. E no . O preconceito existe na boca, no corao dos outros. Quero dizer, preconceito construdo, ele no existe sozinho.

 

Protesto

A gente bota o dedo na ferida. Queremos mostrar que a imagem inventada do sujeito que ganha a vida na facilidade falsa. Voc pode querer ter o que quiser, mas voc precisa batalhar para conseguir. No adianta estar a fim de ter alguma coisa e ir l no lugar e meter fita, quer dizer, roubar. O que vem fcil, vai fcil. Quem sobe fcil, cai fcil. Isso lei. Ento a gente usa o RAP para falar contra esses sentimentos negativos. Somos contra a ostentao e a apologia ao sexo. Isso no vai fazer a pessoa vencer na vida.

As pessoas no podem parar diante de qualquer obstculo, o povo precisa se unir e batalhar, ou seja, a gente precisa fazer uma ao de protesto e causar uma revoluo. Assim vamos construir um mundo mais justo para todos, e a no vai ter diviso.

A vida no fcil, cabulosa e querer no poder. Cada um tem que fazer sua parte.

***

Esta crnica surgiu a partir de uma conversa descontrada, divertida e aberta com Gabriela, uma das integrantes da banda Setor R.A.P; seus companheiros de msica so: Mateus, Alan, Sandro e Frediel. Este trabalho dedico a eles, jovens de dezoito anos, moradores do Taquaril, bairro da zona leste de Belo Horizonte, fundado em 1986 por ocupao de terras doadas a, aproximadamente, cinco mil pessoas. Hoje considerada a maior periferia da capital mineira, com mais de trinta mil habitantes, o Taquaril dividido em quatorze setores, sendo que apenas um tem os imveis registrados. Vinte e oito anos aps a fundao, ainda faltam saneamento, gua e asfalto. No entanto, esse bairro, ainda que aos trancos e barrancos, produz cultura e se manifesta no RAP, no grafite e na produo de instrumentos musicais, alm de oferecer eventos em um cenrio maravilhoso rodeado pela Serra do Curral. O pr do sol um dos shows que o local proporciona.

Em junho de 2014, a equipe do projeto Papo Reto, A voz e a vez do jovem organizou uma oficina de comunicao comunitria com o apoio da comunidade do Taquaril. Desse trabalho surgiu o filme de curta-metragem que voc pode ver a partir do link abaixo.

Eu assinei o roteiro, a idealizao e produo executiva foi de Hugo Pirez a produo ficou por conta da 7 Filmes. Mas esse trabalho no teria sido realizado sem a ajuda do raper e lder comunitrio W2 e os adolescentes que se empenharam nas entrevistas e no papo reto que tivemos.

 

https://www.youtube.com/watch?v=innQD2sRzwE

 


(15 de outubro/2014)
CooJornal n 911



Ana Luiza Libnio escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizalibanio.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
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