01/11/2014
Ano 18 - Número 913


 

ARQUIVO
ANA LUIZA LIBÂNIO




 

Seja um
"Amigo da Cultura"


 

Venha nos
visitar no Facebook


Ana Luiza Libânio


DANIEL: UM CORAÇÃO
 

Ana Luiza - CooJornal


Boa tarde, moça.

— Boa tarde. Tudo bem com você?

— Tudo. Obrigado pela recepção! — sorrisos — Você conhece meu trabalho?

— Não! Eu nem conheço você!

Risadas sintonizadas.

Olha só: pego esses papeis aqui ó, que o povo põe nos carro e acaba enfeitando a cidade, as ruas, do jeito mais errado possível — careta — daí eu pego e faço uma coisa melhor. Sabe o quê? O-ri-ga-mi. Conhece origami?

— Conheço.

— Sabe fazer?

— Não…

— Vou fazer um procê, posso?

— Uai! Pode!

— Daí, ó, vou te dizer: Entrei naquele Palácio das Artes e vi um quadro de trinta mil reais. Era um risco. Só um risco mesmo. E eu pensei: Arte é vender esse negócio. Eu aqui quero é sua bênção e o que a moça puder me dar. Não vou cobrar nada.

— Olha, bênção eu já estou dando desde o momento em que parou aqui. Agora, dinheiro vai ser difícil. Não tenho… Até fiquei com dó de um cara ali no metrô , eu não tinha nada pra dar pra ele e ele estava morrendo de fome. Ainda bem que uma moça tinha uma daquelas barras de cereal, sabe? Estou só com o cartão BHBus e mesmo assim, só tem o valor pra voltar pra casa.

— Mas posso fazer um origami procê?

— Claro!

— Porque a moça pode não ter hoje, mas vai que amanhã, ou outro dia, tem, né?

— E nesse caso, eu te dou uma grana. — sorrisos, silêncio — Nossa! Você é rápido. Onde aprendeu?

— Na… — respiração, suspiro, sorriso — prisão.

— Sei.

— É que eu cometi um erro, mas já paguei.

— Quem nunca errou, né? O importante é reconhecer e assumir as consequências.

— Isto é um coração com uma flor. — sorrisos — É o seu coração.

— Está ficando lindo!

Movimentos. Dobra aqui, dobra acolá. Sorrisos.

— Aqui ó.

— Lindo. Obrigada. Agora… Posso perguntar?

— Pode.

— Por que você foi preso?

— 121. Sabe o que é?

— Sei.

Então… Sorriso sem graça.

Mas você já reconheceu seu erro e pagou, certo?

— Isso. Fiquei lá nove anos. Saí em condicional. Agora estou livre.

— Você mora por aqui?

— Em Sabará.

— Putz! E vem a BH todo dia?

— Sim…

— Trabalha?

— Ah… Sou eletricista, mas está difícil. Vou te falar: Eu estudei, então sei o que estou fazendo. Você me dá um projeto eu executo. Daí, quando vou trabalhar com gente que acha que eu sou nada, dá problema. Eu tento falar, eles não me escutam. Olha, moça, eu vivi nove anos da minha vida preso, hoje o que mais dou valor é pra minha liberdade. Não dá para ficar preso nem às pessoas.

— E por que você foi preso?

— Matei meu padrasto.

Silêncio.

Mas o que houve?

— Ele estava bebendo muito. Aí um dia cheguei em casa, minha mãe estava com o rosto todo roxo. Falou que caiu e tal. Sempre que aparecia machucada falava isso. Você acha que ela vivia caindo? Não. Claro que não! Daí fui conversar com ele. Numa boa. Ele meteu uma coronhada na minha cabeça. Foram nove pontos aqui e sete no queixo, porque a gente ainda brigou mais. Meus tios eram tudo da polícia e tinha um que dava arma pro meu padrasto. Daí, na briga, eu perdi a cabeça e… Bem, você é inteligente e já sabe o que aconteceu. Não preciso contar os detalhes da história que o bom entendedor entende é com o mínimo mesmo. Mas hoje, graças a Deus, já paguei os nove anos. Saí em condicional, já disse isso, né? Não devo nada a ninguém. E agora vou indo, tá?

— Mas espera. Como é seu nome?

— Daniel. — sorrisão — E você fica com Deus, moça. E muito obrigado.

— Uai! Obrigada você, Daniel. Foi um prazer. E fique bem! A gente se vê por aí.

— A gente se vê!


(01 de novembro/2014)
CooJornal nº 913



Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
analuizalibanio@gmail.com
www.analuizalibanio.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
Conheça um pouco mais de Ana Luiza Libânio

Direitos Reservados