01/03/2015
Ano 18 - Número 926


 

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ANA LUIZA LIBÂNIO




 

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Ana Luiza Libânio


D. Cleuza

 

Ana Luiza - CooJornal



— Atravessa eu? — perguntou-me um sorriso banguela, nos seus oitenta anos, de pés no chão.

Da primeira vez, não entendi a pergunta. Da segunda, também não.

Então o sorriso virou gargalhada.

— Atravessa eu, vai? A rua. Que você acabou de atravessar.

Ela segurou minha mão, parecia ser minha mãe a me levar para passear.

Perguntou sobre meus lençóis. Se eram novos ou velhos, se estavam limpos ou sujos. Queria saber se sobrava algum do qual eu pudesse me desfazer. Disse a ela que me mudei recentemente. Se antes eu tinha quatro conjuntos para cama, hoje tenho dois, o suficiente para forrar a cama enquanto o outro é lavado.

Quis saber onde moro.

Eu disse: “Aqui na redondeza.”

Ela me respondeu com um suspiro e devolvi a pergunta.

Ela olhou para seus pés.

Fiz o mesmo.

De perto, eles estavam mais doentes do que à primeira vista me pareceram.

— A mulher que mora perto de mim, faz chinelo para vender, mas não tenho dinheiro. Custa dois. Dois você tem para me dar?

Não foi fácil entender tudo o que ela disse. Mas eu tinha dois.

— Depois que a gente atravessar, você me dá. Sua mãe usa vestido?

Mamãe usa vestido de festa. No dia a dia, calça. Vovó usava só vestido, meias 3/4, e trazia uma chave presa ao sutiã por um alfinete de fralda.

— O vestido de sua avó deve me servir.

Serviria. Mas vovó já não usa mais vestidos há muitos anos. Talvez uns quase quinze anos?

— Ó então não. Cruz credo. Crê Deus pai. Sua avó já morreu? Então não quero roupa dela não.

No meio da rua, sobre a faixa de pedestres, foi preciso solicitar a um motorista mal humorado que não nos atropelasse. Contrariado, ele nos atendeu.

— Você é muito bonita. Casou?

Respondi que não e ela duvidou, então me corrigi. Não é que já fui casada?

— E por que não é mais?

Depois de descobrir que ela se chamava Cleuza, segui meu caminho a pensar em casamento, roupas, lençóis, vida, morte e tantas outras coisas.

Pensei muito em Cleuza. Não entendi.

Suspeito que ela não era apenas uma senhora de pés no chão pedindo ajuda para atravessar a rua.

Mas a gente entende os mistérios da vida?


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analuizalibanio@gmail.com

(1º e março, 2015)
CooJornal nº 926


Ana Luiza Libânio é escritora e tradutora
MG
www.analuizalibanio.com
www.facebook.com/AnaLuizaLibanioDantas
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