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24/02/2007
Ano 10 - Número 517

ARQUIVO
ANDERSON FABIANO |
Anderson Fabiano
O pum do boi
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Nesses tempos de efeito estufa e tratados de Kioto (e outros tantos), que
valem pra todo mundo, menos, é claro, para os louros meninos do norte que,
sob a republicana batuta de George “Wayne” Bush, preferem discutir quantos
bilhões são necessários para mandar mais negros, hispânicos e toda sorte
de pobres para o Iraque, meu amigo Almeida, ecologista de quatro costados,
anda que é um estresse só. Explico: Almeida é um amigo de infância que
tocava pratos na banda do colégio... bem, isso é uma outra história.
Almeida ganhou, tempos atrás, um prêmio na Mega-sena. Não foi assim uma
Brastemp, mas deu para trocar o Chevette 76, comprar umas roupinhas, umas
terrinhas (detesto esses diminutivos de pobre) e meia dúzia de
lembrancinhas para familiares e amigos mais próximos, numa loja de um e
noventa e nove.
Nas tais terrinhas (Não entendo esse pessoal do agro-negócio. Terrinha pra
mim, é aquele negócio que suja a sala da gente, quando a gente pisa na
lama e esquece de limpar os sapatos, no capacho), bem, como dizia, Almeida
comprou umas cabeças de gado (acho que ele falou num tal de nelore), coisa
pouca, mas o suficiente para meu amigo trocar as delícias do subúrbio
carioca pelos verdes campos das Gerais.
A vida ia muito bem até que o Fantástico, que tem acordos internacionais
com os mais desconhecidos e desocupados cientistas da face da Terra,
resolveu mandar para ao ar, uma matéria sobre emissão de gases carbônicos.
Aqui, um parêntese: Se bem conheço o Almeida, em seu sepulcral e
permanente silêncio, gás carbônico devia ser, até aquele fatídico domingo,
peido de quem comeu papel de fazer cópias.
O locutor ia preenchendo o domingo da turma que não tem turma.
Estatísticas para todo lado, imagens digitalizadas, jogando cubinhos cinza
pra cima e nosso herói lá, com os olhinhos cravados na telinha,
horrorizado com a capacidade dos ditos humanos, em ferrar com nossas
maravilhosas vidas de salários mínimos, que não podem ser aumentados por
causa dos aposentados, quando, de repente, a bomba: o pum do boi contribui
para o aumento do buraco da camada de ozônio, em níveis bem maiores que os
engarrafamentos da marginal do Tietê. (As expressões pum, buraco de ozônio
e marginal são de uso corriqueiro e não estão interligadas,
necessariamente, em suas traduções chulas).
Almeida dá um pulo do sofá! Mete o dedo no botão do volume e divide a
notícia com toda vizinhança. No galinheiro foi um alvoroço. Suas poedeiras
berraram tanto, que acordaram até o urubu-malandro. Meu amigo, ecologista
invertebrado, ambientalista pré-PV e tanguinhas de fibra de maconha,
acabara de descobrir que seus mansíssimos bois estavam destruindo o
saudabilíssimo ar que respiramos, com uma pontualidade britânica, ao
peidarem, em uníssono, todas as tarde, ali pela hora do chá.
Apavorado, passou a mão no telefone e ligou pra mim. Contou-me tudo, aos
berros. Estressadíssimo, perguntou como proceder para reverter aquela
terrível e involuntária situação.
Ainda sob os efeitos do chope e do steinhagen da tarde, balbuciei, o que
me pareceu ser uma resposta: “Amigo, liga pro Bush e negocia uma
substancial redução na produção da turma lá de Detroit. Ou então, abre uma
churrascaria na principal avenida da sua cidade e, se neguinho reclamar do
cheiro, bota a culpa nos ônibus”.
(24 de fevereiro/2007)
CooJornal no 517
Anderson Fabiano,
escritor, Publicitário, jornalista
andersonfabiano137@hotmail.com
RJ
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