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10/03/2007
Ano 10 - Número 519

ARQUIVO
ANDERSON FABIANO |
Anderson Fabiano
Meninos, eu vi!
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Para facilitar a vida de um casal de amigos que convidei para passar o
carnaval em minha casa, combinei de encontrá-los em frente a uma padaria
famosa, no centro da cidade. E, como o caos se instala por aqui, nesses
dias de reinado momesco, tratei de chegar cedo para evitar
desencontros.
A primeira dificuldade foi encontrar uma vaga entre tantos Chevettes,
Brasílias, Opalas e outras quinquilharias automotivas. Carro estacionado,
planejei um chope básico enquanto esperasse as tais amigos... quer dizer,
fiquei no plano, já que o balcão estava, literalmente, tomado por hunos,
visigodos e toda sorte de bárbaros alienígenas que, aos berros, contavam
suas mentiras, bravatas, piadas de mau gosto e distribuíam, generosos,
suas escandalosas gargalhadas. Diante daquela óbvia impossibilidade
de manter um mínimo equilíbrio espiritual, concluí que seria heresia tomar
um chope naquelas condições e optei por ficar em pé na porta,
exposto apenas, aos esbarrões da horda de "duristas" que disputava
aos bofetões os indefectíveis frangos de televisão de cachorro,
bisnagas e refrigerantes pet.
Sinceramente, não sei se é coisa combinada, mas, é impressionante a
capacidade dessa gente de conceber nomes estrangeiros para seus filhos e
criancinhas com narizes que escorrem. (Aqui, cabe uma confissão: Diante da
descontrolada capacidade desses infantes de esbarrar em tudo que existe
pela frente, chego a pensar que fomos um pouco precipitados no julgamento
de Herodes).
Mas, nem tudo se perdeu naquela manhã. Afinal, conheci Mirtes. Ou melhor,
Mírti que, tão logo desceu do carro, lembrou-me Falabela. Primeiro, pelo
gemido de alívio que veio da suspensão do Caravan e depois, porque creio
seraquilo que ele chamava de varizenta. Enfiada num maiô preto, cujos
elásticos já haviam perdido qualquer serventia, enrolada numa canga de
motivos tropicais, com um enorme tucano desbotado, com seu belo bico
esmagado entre as nádegas grandes e suadas (preferi achar que aquele
aguaceiro era suor). Mírti irrompeu na padaria seguida de seus quatro
filhos menores e ninguém, mas ninguém mesmo pode ignorar sua chegada.
Sobrava peito pra tudo quantoélado, banhas em profusão e uma voz poderosa
que deixaria qualquer Callas calada.
Falei do carro? Não? Bem, aquele Caravan é o que se pode chamar de
carro-herói! Apesar de sua aparência de umbral do Inferno: pedaços
lanternados, sem pintura; arames retorcidos fazendo às vezes de
maçanetasdaporta do carona; adesivos em toda parte (inclusive, aquele "Eu
amo minha esposa") e, o que imagino, fosse uma homenagem a Camões (faltava
um farol), a resistência daquele veículo era digna do Guiness: desceram
exatas doze pessoas de seu interior: Mírti, a opulenta; seu marido, Pai
(pelo menos era assim que ela chamava o cara, o tempo todo); Bêem (marido
ou coisa parecida) de uma moça que deve ter roubado a bunda de umas três
mulheres (no mínimo!);um casal que entrou mudo e saiu calado e que, pelo
tanto que bebeu de cerveja baixa renda (e em tão pouco tempo) devia estar
desidratado pela viagem ou pela reclusão, e seis, isso mesmo, seis
crianças e adolescentes, que se apinhavam onde deveria ser o bagageiro.
Os dois meninos mais velhos exibiam seus modelitos básicos, típicos
daquela tribo: bermuda cofrinho (meia bunda de fora); havaianas, que pelo
estado e tamanho, deviam freqüentar aqueles pezinhos em crescimento, há
pelo menos, uns cinco anos e aqueles terríveis cabelinhos tipo
mico-leão-dourado, com os quais tentavam negar suas óbvias negritudes. Ou
seja, eram adolescentesprotegidos pelo IBAMA.
Mas, ninguém dominava melhor a cena, que Mírti, uma legítima descendente
de Átila. Dava ordens o tempo todo, apontando seus robustos braços de
cortininha, em todas as direções, num tom que estremecia a padaria e a
auto-estima dos clientes: "Jônata, pega as bisnaga! São 20, viu garoto!
Pega as maió qui é pra rendê!"; "Uélito, vai pra fila dos frango, pra
marca a vez!"; "Maicom Alexander, pega us guaraná! Vê si tem paquera qui é
mais barato! E nada de guaraná de grife!; JÊNIFÊ, TIRA JÁ AS MÃO DESSAS
BALA QUI NUM VOU COMPRAR PORCARIA!"; "Pai, ainda tá cedo pra bebê, meu
velho! Largadessa cerveja e vai pega os frango. Uélito tá na fila. Fica de
olho nos saquinho de farofa, qui tem uns qui num dá nem pra saída!";
"É um pra cada frango, viu, Pai!"
Compras feitas, conta paga com cartão de crédito (?) e lá se foi a família
de volta pra dentro do Caravan, pondo fim a mais agitada e caótica de
minhas manhãs carnavalescas.
Não conseguia tirar os olhos daquilo. Vi a manobra feita sem o menor
cuidado com o trânsito (quase bateram no pejôzinho do meu amigo), a saída
ruidosa daquela gente sem medo de ser feliz e gravei na retina uma última
imagem daqueles veranistas: os rostos e corpos das crianças comprimidos
contra os vidros traseiros e um gatinho branco, de plástico, que balançava
a cabeça e acendia os olhinhos, toda vez que Pai pisava no freio.
(10 de março/2007)
CooJornal no 519
Anderson Fabiano,
escritor, Publicitário, jornalista
andersonfabiano137@hotmail.com
RJ
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