24/03/2007
Ano 10 - Número 521



ARQUIVO
ANDERSON FABIANO

 

Anderson Fabiano


 

O convidado
 

Sei que muita gente vai querer me denunciar ao Comando de Caça aos Comunistas ou clamar pela volta da famigerada TFP ou pior, por não entender o sentido da coisa, vai querer que o IBAMA dê uma batida na minha casa. Mas, quando naquela manhã de sábado, meu sabiá não apareceu para cantar no jardim, um prenúncio de tempestade particular se desenhou no horizonte. Seguinte: Há umas duas semanas atrás, recebi um convite, enviado por uma tal  de Host Eventos, convidando-me para uma festa na casa de uma Dª Maria Eduarda Não Sei das Quantas que, a julgar pela quantidade de sobrenomes,  deveria pertencer a uma pretensa e decadente família nobre qualquer de  plantão. Convite bonitinho, com RSVP e tudo.

Como não tinha nada melhor para fazer senão assistir pela enésima vez aquele filminho meia boca, "inédito", que passaria na mesma emissora, tratei de dar uma aparadinha no cavanhaque e lá fui eu, mesmo tendo quase certeza  de que minha inclusão na relação de convidados era fruto de uma daquelas soluções para movimentar festas de novos ricos, que compram livros a metro, na base do "bota um pouco de azul desse lado e vermelhos, só lá em cima". Ou seja, como a festa deveria ter tantos jogadores de futebol, tantos cantores de pagodes e tantos intelectuais, devo haver sido convidado, depois que uns dez ou quinze escritores de prestígio, disseram não. Mas, como não se recusa  um convite 0800, quando as coisas andam pretas pro nosso lado, aceitei  correr os riscos.

Como previra, endereço nobre, casa bonita, seguranças para tudo quanto é lado e um corredor polonês de belíssimas recepcionistas que sorriam para qualquer coisa que passasse, mas que nem me notaram (que pena!).

Fui recebido à porta, por uma senhora muito falante, com tanto ouro corpo a fora, que mais parecia uma vitrine do H. Stern. Era Maria Eduarda. Agradeceu minha presença com tanta efusão que não deu tempo nem de perguntar o porquê de eu estar ali. E o pior, é que a danada sabia até de minhas preferências etílicas: "Seu Logan já está esperando". E, com um discretíssimo estalar de dedos, colocou-me frente a frente com uma bandeja de prata, encimada pela dose exata daquele velho companheiro que, lépido, saltou para minha mão esquerda. Comecei a gostar de Maria Eduarda.

Mal sabia que, com meia hora de festa já estaria louco para ir embora. Primeiro, foi uma jovem senhora, com um decote pleno de rugas e sardas, me confundindo com um certo Dr. Steinberg, que teria operado sua amiga Tati: "Inacreditável! Pensar que foram essas mãos que produziram aquele verdadeiro milagre no rosto de Tati Albuquerque". Depois, me apareceu um senhor, de fala empolada, que me ajudou com umas fatias de salmão defumado, e me deu a maior canseira, pensando que eu era Olavinho Freire, o arquiteto: "Suas construções desafiam o ponderável e emprestam uma sensibilidade diferenciada a atmosfera que cerca sua obra". Houve uma outra, ainda, linda por sinal, com dois olhões azuis de tirar o fôlego, que conversou comigo um tempão, pensando que eu era o Affonso Romano:
- A Marina não veio?
- ?!... Não... sabe como é... aos 80 anos, algumas pessoas preferem ficar em casa, ver uma novelinha... essas coisas...
- 80 anos? Marina tem tudo isso? Com aquela carinha de garota?
- Como assim "cara de garota"?
- Sua mulher não parece nem um pouco ter 80 anos!
- Que mulher, minha senhora! Tô falando da minha mãe!

Ah! Aquele sabiá me paga.

Não foi difícil concluir que escritores, principalmente, os desconhecidos, não estavam dando IBOPE naquela festa. Resolvi, então, botar dez merréis no veado e cantar para subir. Tirei uma reta da porta de saída e quando começava a sonhar com o resgate de minha tão sonhada e anônima liberdade, ouvi aquela voz, já então, velha conhecida, tentando furar meu tímpano direito: "Nananinanão! Onde você pensa que vai?" - era a anfitriã que, fazendo gênero engraçadinha e com reluzente agilidade, segurou meu braço com a mão esquerda enquanto, com a direita, repetia aquele mágico estalido que transformava nada em uísque: "Aonde você vai? A festa está só começando".
- Não, a festa está ótima. É que tenho um compromisso profissional esta noite...
- Vocês ensaiam até nos sábados à noite? - perguntou, surpresa.
- Que ensaio, minha senhora? Acho que a senhora, também, não sabe quem sou eu. Acho melhor dar o fora, antes que me expulsem como penetra.
- Ah, você! O bom humor de sempre... o sarcasmo... como é mesmo que você diz: perco o amigo, mas não perco a piada. Não é assim? - pior que tenho mesmo o hábito de dizer aquilo.
- Não me leve a mal. Mas, a senhora se incomodaria de dizer o meu nome e o que eu faço nesta porcaria de vida?
- Brincalhão! Se prefere assim, vamos lá: você é Umberto Montecchio, primeiro oboé da Sinfônica...
- CHEGA! BOA NOITE!

Enquanto descia a escada, ainda ouvi Maria Eduarda tranqüilizar um segurança: "Liga não. Esses músicos clássicos são todos temperamentais!"

Devia ter dado mais atenção à ausência do sabiá.





(24 de março/2007)
CooJornal no 521


Anderson Fabiano,
escritor, Publicitário, jornalista
andersonfabiano137@hotmail.com
RJ