14/04/2007
Ano 10 - Número 524



ARQUIVO
ANDERSON FABIANO

 

Anderson Fabiano


 

Constitucionalidades absurdas

Cansado de tentar descobrir um jeito de confiar nos seres humanos, tenho me permitido conversar assuntos mais relevantes com minha cadela Fraulein, uma  pastora manto negro, inteligentíssima.

Sei que muita gente vai pensar que estou maluco, etc. e tal, mas, deixa pra lá. É que os humanos ainda não se deram conta que os cães, além de fiéis e  confiáveis podem, após anos dormindo sobre caminhas de jornal (desde que corretamente estimulados), formar um belíssimo painel de cultura geral, a  partir da leitura de suas confortáveis camas.

Pois bem, esta semana, Fraulein quis saber se eram apenas os membros do Poder Legislativo que faziam leis ou se os juízes, desembargadores e advogados tinham alguma coisa a ver com isso.

Respondi-lhe como funcionava a divisão de atribuições entre os três poderes e ela (assim me pareceu num primeiro instante), afastou-se satisfeita com a resposta. Entretanto, após anos de estreito convívio, pude perceber que minha amada "alfa", ficara com a pulga atrás da orelha (no sentido de ressabiada, já que a bicha é bem limpinha). Como ela não é muito chegada a abobrinhas e tem um mau humor do cão (não que ela seja homossexual, o uso do vocábulo cão aqui empregado, se restringe à expressão popular), preferi aguardar uma oportunidade natural para desfazer minhas dúvidas sobre sua nova curiosidade.

Não demorou muito e, ainda no mesmo dia, ela acercou-me outra vez: "Se um cara pratica um seqüestro e mata a vítima, isso é crime hediondo, não é?"

- É - respondi sem saber onde Fraulein pretendia chegar.

- E se ele nunca cometeu outro crime antes, vocês dizem que ele tem bons antecedentes?

- ...!? É... nesse caso, a Justiça entende que o cara é um réu primário. O que equivale dizer que até aquele momento, ele tinha "bons antecedentes".

Ah! - resmungou ela, mergulhando em profunda reflexão. Quer dizer que se um cara seqüestra e mata alguém pela primeira vez, ele é menos criminoso que um outro que faz a mesma coisa, mas já havia sido preso por uma briguinha de rua?

- !?... É... porquê?

- Não... é que no telejornal de ontem deu que o Congresso estava empenhado em "apertar o cerco contra o crime organizado", crimes hediondos, essas coisas e parece que aprovaram uma lei que diz que se um cara comete um crime hediondo, mas é réu primário, pode responder o processo em liberdade...

- Sim e daí?...

- Não... é que pelo que pude entender, os deputados, lá em Brasília, acreditam que quem comete um crime classificado de hediondo, pela primeira vez, era gente boa até a véspera do crime. É isso mesmo?

- ... Bem, do ponto de vista da letra da lei, sim...

- Quer dizer que para vocês, humanos, um cara que tem merda na cabeça para praticar uma barbaridade dessas é igualzinho a um honrado trabalhador, chefe de família, responsável, cumpridor das leis? Ou seja, é um cara com bons antecedentes?

- ...!?

- Quer dizer que esses deputados que vocês elegem para representar vocês no Congresso, no fundo, não passam de um monte de bobinhos? - perguntou-me indignada, quase rosnando. Quer saber? Bobinhos são vocês, cidadãos, eleitores, que deixam isso rolar solto sem uma reação à altura. Pode ser que eu me engane, mas deve ter uns caras por lá, que devem estar levando uma grana preta para aprovar uma barbaridade dessas. E não é o mocinho do filme que está pagando! - e saiu pro seu canto predileto, embaixo do meu carro, sem me deixar dizer uma palavra sequer.

E, de lá mesmo, sem nem ao menos me dirigir o olhar, arrematou: "E pensar que alguns de vocês, por muito menos que isso, levaram porrada pra cacete nos anos 60... Ah!... Esses humanos.... você tem certeza que a irracional aqui sou euzinha?".



(14 de abril/2007)
CooJornal no 524


Anderson Fabiano,
escritor, publicitário, jornalista
andersonfabiano137@hotmail.com
RJ