Vivo sonhando com o dia
em que poderei publicar minhas crônicas com alguns robustos palavrões.
Cabeludos ou não. Nada assim, tipo apologia a baixaria. Definitivamente,
reservo minha versão desbocada para botequins, ensaios de bateria de
escola de samba, arquibancadas de Maracanã, essas coisas, pois me parecem
mais adequados. É que volta e meia, a vida nos coloca diante de certas
situações, que parecem clamar por um palavrãozinho básico, para dar a
exata medida de nossa indignação.
O palavrão, pasmem,
quando bem empregado, cumpre uma função social e seu uso evoluiu com os
costumes. Há situações em que é, humanamente, impossível evitá-los.
Tudo bem que nossa
educação demi-francesa, os chamados bons costumes, a riqueza de
nosso vocabulário e, não podemos esquecer, a maldita hipocrisia estão aí
para nos recomendar uma prudente distância da linguagem chula. Mas, apenas
para um breve exercício de reflexão, pára e pensa: Você vem por uma
calçada qualquer dessas da vida e, de repente, pimba! Dá uma daquelas
tremendas topadas, vê estrelas pra tudo quanto e lado e tem a nítida
sensação que acaba de perder seu precioso dedo mindinho do pé direito.
Você tem certeza que sua reação é do tipo: “Caramba! Não vi o buraco!” ou
ainda, “Puxa vida, que azar!” Desculpe, mas não é mesmo. Ou então, você
vai a um bar tomar um cafezinho, com um amigo, para arrematar um papo e,
ao virar o açucareiro descobre que algum, digamos, safado, deixou a tampa
desatarraxada e pimba! Açúcar pra todo lado. Você já viu alguém nessa
situação dizendo algo do tipo: “Que gente desatenta. Não fecharam o
açucareiro direito” Brincadeira, né? Ou, se você prefere um exemplo mais
forte. Imagine que um dia, você vai para cama com a amante de seus sonhos
e depois de mil brincadeirinhas, quando o mundo parece que está preste a
explodir, você envolvido até a medula num daqueles orgasmos de filme pornô
de terceira, parece razoável supor que a moça vá dizer: “Como é bom fazer
sexo com você, meu bem”? Claro que não. Quem já foi para cama com alguém,
nem que tenha sido uma única vez em toda vida, sabe que não são,
exatamente essas coisas, que falamos na hora “H”. É nessa e em outras
horas, que acho que um palavrãozinho bem empregado, adequado, pertinente,
ilustrativo poderia ser aceito sem carinhas beatas retorcidas.
Agora, vê se você me
ajuda. O presidente dos louros meninos do norte, Sr. George “Wayne” Bush,
deu uma passadinha por aqui. Quer dizer, deu-nos a suprema honra de sua
inadiável e imprescindível presença, por extensas 24 horas. Aí, a gente
que anda fazendo uma força danada para parecer gente boa aos olhos do
mundo, recebe o cara com a maior fidalguia, na base do noblesse oblige:
espaço aéreo fechado, durante pouso de decolagem do Air Force One; 4.000
homens fazendo a segurança; proibimos nossos trabalhadores de irem com
seus carros ao trabalho, interditando a rua deles; dificultamos ao máximo
a circulação de nossas perigosas mães, com seus filhinhos terroristas,
indo e vindo para escola; damos porrada nos nossos estudantes; pedimos aos
nossos educados meliantes que não pratiquem assaltos à banco, tiro ao alvo
nos cidadãos inocentes, nem seqüestros-relâmpago e que tomem cuidado com
suas irrequietas balas, que adoram se perder. E, de brinde, ainda
promovemos um engarrafamento, na maior cidade do país, que nem as
enchentes do Tietê são capazes de realizar. Tudo para agradar o figurante
fugido do set de Rio Bravo. Coisinhas básicas, as quais, qualquer chefe de
estado faz jus. Aí, o cowboy, insatisfeito com tudo isso, sacode um
chocalho, cercado de criancinhas (isso não é pedofilia velada?) e como um
autêntico guerreiro sioux, perdido numa audição de forró, propõe ao
primeiro mandatário de nosso país, o seguinte: “Precisamos do seu
etanol, mas, vamos aplicar uma sobretaxa de 46%” !?!?!?!?!?
Pára e pensa: Não dá
vontade de mandar esse cara de pau pra...pra...Bagdá? É pouco, concorda?
Deve ser por isso, que
nosso Lulinha “Eu-não-sabia” falou em ponto G. É que ele sacou que alguém
estava querendo, digamos, fazer sexo “hard core” com a, digamos,
“derrière” da gente.
Argh! Sem palavrão, fica
muito difícil.
(21 de abril/2007)
CooJornal no 525