21/04/2007
Ano 10 - Número 525



ARQUIVO
ANDERSON FABIANO

 

Anderson Fabiano




Politicamente correto

 

Vivo sonhando com o dia em que poderei publicar minhas crônicas com alguns robustos palavrões. Cabeludos ou não. Nada assim, tipo apologia a baixaria. Definitivamente, reservo minha versão desbocada para botequins, ensaios de bateria de escola de samba, arquibancadas de Maracanã, essas coisas, pois me parecem mais adequados. É que volta e meia, a vida nos coloca diante de certas situações, que parecem clamar por um palavrãozinho básico, para dar a exata medida de nossa indignação.

O palavrão, pasmem, quando bem empregado, cumpre uma função social e seu uso evoluiu com os costumes. Há situações em que é, humanamente, impossível evitá-los.

Tudo bem que nossa educação demi-francesa, os chamados bons costumes, a riqueza de nosso vocabulário e, não podemos esquecer, a maldita hipocrisia estão aí para nos recomendar uma prudente distância da linguagem chula. Mas, apenas para um breve exercício de reflexão, pára e pensa: Você vem por uma calçada qualquer dessas da vida e, de repente, pimba! Dá uma daquelas tremendas topadas, vê estrelas pra tudo quanto e lado e tem a nítida sensação que acaba de perder seu precioso dedo mindinho do pé direito. Você tem certeza que sua reação é do tipo: “Caramba! Não vi o buraco!” ou ainda, “Puxa vida, que azar!” Desculpe, mas não é mesmo. Ou então, você vai a um bar tomar um cafezinho, com um amigo, para arrematar um papo e, ao virar o açucareiro descobre que algum, digamos, safado, deixou a tampa desatarraxada e pimba! Açúcar pra todo lado. Você já viu alguém nessa situação dizendo algo do tipo: “Que gente desatenta. Não fecharam o açucareiro direito” Brincadeira, né? Ou, se você prefere um exemplo mais forte. Imagine que um dia, você vai para cama com a amante de seus sonhos e depois de mil brincadeirinhas, quando o mundo parece que está preste a explodir, você envolvido até a medula num daqueles orgasmos de filme pornô de terceira, parece razoável supor que a moça vá dizer: “Como é bom fazer sexo com você, meu bem”? Claro que não. Quem já foi para cama com alguém, nem que tenha sido uma única vez em toda vida, sabe que não são, exatamente essas coisas, que falamos na hora “H”. É nessa e em outras horas, que acho que um palavrãozinho bem empregado, adequado, pertinente, ilustrativo poderia ser aceito sem carinhas beatas retorcidas.

Agora, vê se você me ajuda. O presidente dos louros meninos do norte, Sr. George “Wayne” Bush, deu uma passadinha por aqui. Quer dizer, deu-nos a suprema honra de sua inadiável e imprescindível presença, por extensas 24 horas. Aí, a gente que anda fazendo uma força danada para parecer gente boa aos olhos do mundo, recebe o cara com a maior fidalguia, na base do noblesse oblige: espaço aéreo fechado, durante pouso de decolagem do Air Force One; 4.000 homens fazendo a segurança; proibimos nossos trabalhadores de irem com seus carros ao trabalho, interditando a rua deles; dificultamos ao máximo a circulação de nossas perigosas mães, com seus filhinhos terroristas, indo e vindo para escola; damos porrada nos nossos estudantes; pedimos aos nossos educados meliantes que não pratiquem assaltos à banco, tiro ao alvo nos cidadãos inocentes, nem seqüestros-relâmpago e que tomem cuidado com suas irrequietas balas, que adoram se perder. E, de brinde, ainda promovemos um engarrafamento, na maior cidade do país, que nem as enchentes do Tietê são capazes de realizar. Tudo para agradar o figurante fugido do set de Rio Bravo. Coisinhas básicas, as quais, qualquer chefe de estado faz jus. Aí, o cowboy, insatisfeito com tudo isso, sacode um chocalho, cercado de criancinhas (isso não é pedofilia velada?) e como um autêntico guerreiro sioux, perdido numa audição de forró, propõe ao primeiro mandatário de nosso país, o seguinte: “Precisamos do seu etanol, mas, vamos aplicar uma sobretaxa de 46%” !?!?!?!?!?

Pára e pensa: Não dá vontade de mandar esse cara de pau pra...pra...Bagdá? É pouco, concorda?

Deve ser por isso, que nosso Lulinha “Eu-não-sabia” falou em ponto G. É que ele sacou que alguém estava querendo, digamos, fazer sexo “hard core” com a, digamos, “derrière” da gente.

Argh! Sem palavrão, fica muito difícil.




(21 de abril/2007)
CooJornal no 525


Anderson Fabiano,
escritor, publicitário, jornalista
andersonfabiano137@hotmail.com
RJ