“...
quem sabe faz a hora,
não
espera acontecer... ”
Pra não dizer que não falei de flores -
Geraldo Vandré
Preciso arrumar coragem
para abrir aquelas velhas caixas de papelão e ouvir, mais uma vez, o LP do
Bob Dylan, onde ele gravou, pela primeira vez, Like a Rolling Stones.
E, pelo sim, pelo não, deixar à mão o LP da Joan Baez, também. Bons tempos
aqueles do Greenwich Village, East Side e Contracultura.
Preciso reler, com máxima urgência, algumas coisas
de Kerouak, Grinsberg, Marcuse e Nietzsche. E, pelo sim, pelo não, deixar
a mão, alguma coisa de Hermann Hesse, também. Talvez, O Lobo da Estepe...
Vou acender um incenso de sândalo, fechar os
olhos, imaginar-me dentro de uma calça da Lixo e refazer toda uma
trajetória que começa numa turma de revolucionários cabeludos e termina
num bando desconexo de carecas, grisalhos e barrigudos pseudocapitalistas,
que se contentam em discutir, sem nenhuma garra, se o BBB7 foi armação ou
não.
Sinto que algumas de nossas velhas bandeiras foram tão
banalizadas que, vista daqui, do alto deste medíocre século XXI, a
famigerada Guerra do Vietnam, mais parece uma inocente brincadeira de
criancinhas na hora do recreio da creche.
O amor então, coitado, foi pra cucuia. O barato
agora é todo mundo dando uma de modernoso e caindo de boca num tal de
“ficar”. E, os poetas, pra quem não sabe, são os novos bobos da corte.
A gente deu tanto suor e lágrimas (e lombo) para
evitar a americanização da nossa Cultura e... nada! Hoje, não podemos nem
curtir sossegados uma simples liquidação. Somos obrigados a enfrentar “off prices”, “for sales” e outras babaquices do gênero. Até um tal de
“hallowin” apareceu por aqui e o Saci-pererê foi pro vinagre.
Parece até brincadeira, mas já houve um tempo em
que a inteligência brasileira se dividia em esquerda e direita. E, pasmem,
havia gente boa dos dois lados. Hoje, é tudo um centrão só. Uma banda com
roupa de grife e outra, não. Mas, tudo centrão.
Os mais jovens talvez desconheçam, mas houve um
tempo em que os políticos eram chamados de excelência, doutor, etc. Hoje,
são unanimemente reconhecidos como corruptos, safados e outros adjetivos
até mais apropriados mas, infelizmente, impublicáveis. E os caras são tão
cínicos que ainda acham que somos nós que estamos de má vontade com eles.
Tenho saudades do tempo em que os médicos mandavam a gente
dizer “33” e todas as doenças tinham nomes. Alguns até bem esquisitos, é
verdade. Hoje, não. É tudo virose. Acho que o curso de Medicina nem tem
mais seis anos e, se for assim, até que não precisa mesmo. Afinal, para
aprender essa mágica palavrinha basta um professor de português, com boa
dicção, e uma semana de aulas.
A ciência então, parece andar de ré. A gente
inventou o aerossol para substituir o velho Flit e o pernilongo saiu de
cena para entrada do aedes aegypti. Santos Dummont, coitado,
queimou a mufa pra criar o avião e alguém, escondido no anonimato,
inventou o apagão. Assim fica difícil...
As pontes caem, os remédios não curam, o ovo estrelado provoca colesterol,
as balas não encontram mais seus alvos e vagam perdidas por aí, o bife é
de soja e nem o guaraná é mais Caçula.
Quando eu era criança, todo mundo era católico,
protestante ou macumbeiro. Hoje, é tanto “novo isso” e “novo aquilo” que
nem parece que o Mestre Jesus ensinou uma coisa só: “amai-vos uns aos
outros”. Simples assim. Mas, pelo sim, pelo não, tem um monte de novo
“líder espiritual” por aí, podre de rico às custas dos otários. É bem
verdade que um ou outro acaba em cana. Mas, fazer o que, né?
Queria muito saber por onde andam aqueles meus iguais.
Queria muito mesmo...
Vou preparar um Cuba Libre e ouvir um pouco mais
de Bob Dylan. Quem sabe as velhas pedras se encontram...
(28 de abril/2007)
CooJornal no 526