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26/04/2007
Ano 11 - Número 530

ARQUIVO
ANDERSON FABIANO |
Anderson Fabiano
Tempos
modernos
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Dia desses, passei pelo Riototal e, por
absoluta falta de tempo e por
compromisso de lealdade com pessoas que aprendi a amar, driblei a falta de
net em casa e gravei Afonso, Lilian, Arthur e Rosa, numa lan, para ler
depois, com calma, com o tempo certo que suas competências me exigem.
Resultado: ainda não li coisa alguma, passei por deseducado (sem ser) e
privei minha parca cultura de quatro prováveis bons textos. E o cd tá lá,
tão virgem de leitura como estava antes dessas preciosas gravações.
Ouço muita gente dizer que ando sumido, gente que gosto, que sei que gosta
de mim, mas que, por uma estranha razão, não ligam. Preferem reclamar que
ando sumido. É verdade, ando sumido. Podia estar viajando, preso,
internado,
morto ou com um baita de um problema... do meu ponto de vista, tudo isso é
"sumido". Mas, mesmo as pessoas poucas às quais confiei meus telefones e
endereços, preferem dizer que ando sumido.
Tenho ouvido falar muito numa tal de globalização: Mercado Comum Europeu,
Bolsa de Tóquio, Risco Brasil e também, num tal de Iogurte (ou coisa
parecida), um site de relacionamentos, onde se formam comunidades de
inimigos de negros e homossexuais, de neonazistas e de desocupados
impotentes que despejam suas iras sobre inocentes menininhas, que eles não
conseguiram comer, publicando fotos fajutas para denegrir a imagem das
coitadinhas. E, por razões óbvias, estou fora dessa. Minha praia é bem
mais
saudável que isso. Desse modo, globalização pra mim, ficou sendo apenas, a
televisão brasileira, onde um monte de canais tenta imitar a Globo.
... É, deve ser isso...
Moacir Santos morreu! Pra muita gente, foi apenas mais um abnegado músico
que se foi. Pra outras, nem isso. Apenas o ciclo natural da vida: nascer,
crescer, morrer. Rotinas da vida. Pra mim, foi uma bomba que explodiu bem
no meio da cabeça. Perdi um dos melhores amigos que a vida me confiou. E,
nem a distância conseguiu romper laços tão confiáveis. E, se hoje, sou um
prisioneiro das letras, um refém dos bons sentimentos, inclusive dos não
externáveis, devo isso ao maestro que, com seu jeitinho zen soube, um dia,
convencer-me a seguir meus rumos, confiar na intuição e obedecer aos
instintos, sem perder de vista o foco dos dons inatos.
Soube, agora, que Moacir desencarnou em sete de agosto do ano passado, por
falência múltipla dos órgãos. Deixou-nos Tia Cléo, meu saudoso amigo Cica
(seu filho), uma obra que o Brasil ainda desconhece e um buraco
daqueles... E, até nisso, ele foi leal a nossa amizade: resolveu ir
embora, quatro dias após meu aniversário, pra eu não esquecer da data. Ê,
neguinho safado. Ou terá sido coisa de gênio? Ou de um ser iluminado?
Um dia, bem antes dessa baboseira de globalização, eu fui um adolescente
represado em dúvidas quanto ao meu destino. Não tinha com quem discutir se
seria médico, como queria a família, ou pintor e escritor, como queria meu
âmago. Moacir me acolheu, com sua voz mansa, sua nuca de dobrinhas e,
calmamente, me fez ver que não havia nada de errado em ser artista. Apenas
um caminho tortuoso pela frente. Enquanto ouvia suas palavras, de cabeça
baixa, como convém a um discípulo, vi um rosto formar-se numas pintinhas
laranjas que seu tapete cinza da salinha de entrada, me mostrou. Em
agradecimento, pintei-lhe um quadro, reproduzindo o tal rosto. Soube,
apenas agora, que esse quadro acompanhou-o por toda uma vida, juntinho de
seu piano, onde Quincy Jones, Henry Mancini, Lallo Shiffrin e outros
bambas, aprenderam alguma coisa com meu amigo Moacir.
Pena que a tal globalização não me deixou saber das coisas ao tempo de
suas ocorrências.
Quer saber? Vou correndo, abrir o tal cd, comentar as crônicas, ligar para
os amigos sumidos e continuar longe do Iogurte.
(26 de abril/2007)
CooJornal no 530
Anderson Fabiano,
escritor, publicitário, jornalista
andersonfabiano137@hotmail.com
RJ
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