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02/06/2007
Ano 11 - Número 531

ARQUIVO
ANDERSON FABIANO |
Anderson Fabiano
Tragédias
cotidianas
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Primeiro ato.
Rosana está comigo há uns seis anos. Seis anos de casa cheirosa, comidinha
caseira (faz um bife à milanesa com purê, que é tudo de bom) e papo, muito
papo.
Ela é bem mais que uma simples funcionária doméstica, é a dona da casa e,
não raro, minha dona também. Decide o que visto, com quem posso ou não
posso me envolver e, até mesmo, a que horas devo desligar o computador
para "descansar um pouco".
Não é mensalista e, a bem da verdade, não é diarista, também. É uma zona
que inventamos e que dá certo. Trabalha três dias por semana (ela escolhe
quais), chega cedo e só vai embora após deixar tudo em ordem.
Nordestina, dois casamentos e uns 15 anos de Rio. Veio tentar a vida,
ficou na casa de uma prima, no Complexo do Alemão, e continua por lá.
"Juntou umas economias" e construiu um "sala e quarto" que é um de seus
orgulhos. O outro é o filho, Jeremias, do primeiro casamento. Bom menino,
boas notas, "moleque do bem", ajuda em casa.
Terça-feira, Rosana chegou mais cedo. Entrou, sem as bagunças de sempre e,
tão logo me encontrou, abraçou-me e, com todas as forças, desmontou num
pranto descontrolado e comovente. À minha perplexidade, respondeu com um
pedido arrasador e, inevitavelmente chocante: queria ser dispensada
naquele dia, para enterrar o filho; algum dinheiro e orientações para
desembaraçar o corpo, no IML.
Jeremias, o bom Jeremias, soltava pipa com os amigos, na véspera, sobre
uma laje, quando a polícia entrou na favela. Recebida a tiros, reagiu. Uma
bala perdida ceifou um dos orgulhos de Rosana, que sempre reclamava do
aumento da violência na comunidade: "Se a polícia fosse lá toda hora,
acabava com os abusos da bandidagem".
Fecha pano.
Abre para segundo ato.
Dia desses, fui a um churrasco, desses que tem pelada, misturada com
pagode e cerveja. Coisa de gente simples, gente fácil de gostar, sem
frescuras. Entre uma batucada na mesa, uma beiçada na "purinha" e as
inevitáveis rodinhas de piadas, sempre se conhece mais alguém. Dessa vez,
dentre outros, conheci Toínho. Quer dizer, Toínho pra rapaziada, lá fora,
cabo Antunes, 26 anos, oito de PM.
Toínho é do cacete! Bom de cerveja, bom de bola e bom de papo. Caçula de
quatro irmãos, viu o pai, pedreiro, "fazer das tripas, coração" para criar
os filhos, na senda do bem. A mãe, doméstica e "amorosa", morreu de
complicações numa cirurgia de varizes.
Toínho foi criado numa favela da Tijuca. Jogou bola de gude e rodou pião,
vendo cadáveres pelas vielas. Viu malandro virar bandido e perdeu uns
amigos de infância, adotados pelo narcotráfico. Queria um mundo melhor,
mais justo, com chances para todos. Embruteceu, sem perder a ternura,
mesmo sem nunca ter ouvido falar de Guevara. Entrou pra PM.
Segunda-feira, estava de plantão. A inteligência da corporação localizou o
paradeiro de um perigoso traficante e despachou uma equipe para o Complexo
do Alemão.
Foram recebidos à bala e reagiram. Foi tiro pra todo lado. Parece que um
menino foi vítima de bala perdida: "Tenho muito medo quando saio em
missão. Bandido não respeita mais polícia. Nunca sei se vou voltar".
Fecha pano.
Abre para terceiro ato.
Agora, não é mais terça, é quarta-feira. O telejornal reúne, ironicamente,
duas pessoas queridas: Rosana, meu anjo da guarda e Toínho, o bom de bola.
Anônimos entre si, unidos por uma tragédia cotidiana que, finalmente, me
atingiu: as nefastas balas perdidas.
As lágrimas de Rosana, na telinha, pareciam ainda maiores, mais sofridas.
Enterrava seu Jeremias, com o desespero de uma Pietá tupiniquim, sem
direito aos mármores de Michelangelo. Nem pra lápide.
Cabo Antunes, escoltado, prestou depoimento como um dos suspeitos dos
disparos fatais. Seu rosto, transfigurado, era a própria imagem da
desesperança. Tenso, confuso, perdera o orgulho de justiceiro. Mal
remunerado, mal preparado, mal equipado queria, apenas, cumprir seu papel
de integrante da malha protetora da sociedade.
Parece que errou o tiro.
Fecha pano.
(02 de junho/2007)
CooJornal no 531
Anderson Fabiano,
escritor, publicitário, jornalista
andersonfabiano137@hotmail.com
RJ
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