23/06/2007
Ano 11 - Número 534



ARQUIVO
ANDERSON FABIANO

 

Anderson Fabiano




O país do talvez
 

Preciso tomar cuidado com a minha taxa básica de anarquia, senão acabo voltando para cadeia em pleno alvorecer da terceira idade, o que seria um péssimo exemplo para essa juventude calça cofrinho e barriga tanquinho.

Tudo começou com uma manchete de telejornal: “Nenhum político ou ministro foi condenado, nos últimos 40 anos, pelo STJ.”

Imediatamente, pensei nesse monte de gente que freqüenta noticiário com seus escândalos contumazes e fiquei apavorado com a inequívoca demonstração de corporativismo da rapaziada. Não sei porque, lembrei do De Gaulle e a Guerra das Lagostas, episódio bizarro dos anos 60 e premonitório, se visto com os olhos dos dias de hoje. O Brasil não é um país sério. Quer dizer, o país até que é, o problema, talvez, é que Brasília fique longe demais do Brasil. E nós, reles eleitores e contribuintes dos impostos mais caros do mundo somos obrigados, qual cordeirinhos, a retificar a famosa frase com um acanhado “sério não, apenas engraçado”.

A gente adotou uma educação francesa, para tentar viver como americanos, num país colonizado por portugueses degredados que, por sua vez, seguiam ordens de outros tantos, que vieram dar em nossos costados fugindo de Napoleão. E, como ninguém queria nada com a “Hora do Brasil” , empregaram (no sentido de “usaram” e não no de “deram emprego”) mão de obra escravizada de negros roubados de suas nações, pelos quais pagaram pedágio atlântico aos corsários ingleses, com ouro das Geraes. E, essa zorra toda sob os ditames judaico-cristãos da Santa Igreja. Quer dizer, não podia dar certo mesmo. Isso tudo, apenas, para que nossos colonizadores, pudessem sentar em suas varandas palacianas, comer frango assado com as mãos, se refestelarem com as formas voluptuosas das negras, ladeira acima e ensinarem pra gente como plantar algodão pra vender pros States e depois comprar calça Lee. Ou, se preferirem, plantar café e vender pros europeus, pra depois importar Nescafé.

Assim, com o devido respeito, me arvoro a corrigir o finado presidente francês (que Deus o tenha): não se trata de ser sério ou não, o problema é que o Brasil é um país de amadores. Nessas terras, prostituta goza e traficante cheira. Dessa forma, nada mais normal que aqueles a quem confiamos um mandato para criarem leis e fiscalizar o Executivo, sejam os primeiros a passar batido por sobre todas elas, em troca de uns cascalhos ou um favorzinho aqui, outro ali.

Por essas e por outras, ando pensando (com meu lado anárquico, é claro) em assumir a presidência da república (assim mesmo, com caixa baixa e tudo). E, sem perda de tempo, já estou rascunhando minhas metas com coisas bem simples.

Para começar, gostaria de encontrar algumas respostas que andam perdidas por aí, por exemplo: Por onde anda aquela cueca de 80 mil dólares? E o dossiê do PSDB? Ou, quem pagou (e para onde foram) os 4 milhões que o Roberto Jefferson disse, em cadeia nacional, que recebeu do PT? No que deu a CPI do Mensalão? Quem inventou, afinal, esse tal de apagão? Perguntas simples, que todo cidadão de bem se faz, diuturnamente.

Mas, tem mais: vou proibir, logo no primeiro dia de mandato, por Medida Provisória, a fabricação de cigarros em todo território nacional! Cigarro por aqui, agora, só importado e ao custo mínimo de trinta e cinco dólares o maço. Quem sabe se assim esses ambientalistas xiitas param de tratar fumantes como cidadãos de segunda classe. Haja saco! (Só perdem, mesmo, para os defensores dos direitos humanos dos bandidos)

Outra coisa: AK-47 vem da Rússia, AR-15, dos States e Uzi, de Israel. Alguém, por acaso, sabe me dizer como esse armamento chega aos Boréis da vida? E, pra terminar, tô pensando seriamente em mandar uma rapaziada até a Bolívia, para pegar nossas refinarias de volta. (Ah! Se aquelas refinarias fossem dos louros meninos do norte...)

Acho melhor ficar por aqui. Mas confesso que ainda estou em dúvida se embarco nessa onda anárquica e falo o que todo mundo anda doido para falar ou se continuo brincando de cidadão imbecil e hipocritamente correto. Ou será melhor arrumar um boné do MST? Vai que os caras resolvem inventar um AI desses da vida e vai começar tudo de novo.
 



(23 de junho/2007)
CooJornal no 534


Anderson Fabiano,
escritor, publicitário, jornalista
af.escritor@hotmail.com
RJ