07/07/2007
Ano 11 - Número 536



ARQUIVO
ANDERSON FABIANO

 

Anderson Fabiano




A casa caiu

 

O dia ainda tinha dúvidas se queria nascer e a funcionária doméstica já estava no ponto de ônibus, esperando o transporte para ir a um exame médico, num bairro distante. Roupa simples, penteado simples, bolsa simples, simplesmente talvez, com o dinheiro da passagem, da consulta (se não tivesse plano de saúde) e alguns trocados a mais para um lanche.

O ônibus não vem, mas, vem um carro cheio de meninos saídos de uma festinha. Todos bons meninos de papai, filhos da alienada classe média de pais ausentes.

A freada, correria, socos, pontapés, alguns palavrões, uma bolsa simples surrupiada e tá lá o corpo estendido no chão. O da doméstica.

O taxista viu tudo, anotou a placa... e, vem de lá “seu” delegado e os filhos dos pais Franciscos foram ver o Sol nascer quadrado.

A sociedade estarrecida com mais essa barbárie não acredita na explicação do menino que estuda Direito e mora na Barra: “A gente pensou que era puta.” Ah! Entendi. Quer dizer que no Manual de Conduta dos meninos de papai, em prostituta pode bater?!... Mas, peraí! Um coleguinha do menino machão disse que ele batia na própria mãe! Ah! Então, tá explicado...

Um aviso aos outros meninos de papai que, soltos, pensam que impunidade é para qualquer um: Cuidado, rapaziada! Conheço umas prostitutas que se vocês meterem as caras com elas, vão tomar porrada até virar homem.

Parentes e amigos dos meninos derramam lágrimas na porta da delegacia e os meninos, sem camisas, exibem tatoos com frases, digamos, confessionais.

Um pai, com olhar de quem, finalmente, viu a ficha cair, confessa em rede nacional, que o “filho está certo”. Ou melhor, que “Ele não fez nada de mais”, “Coisa de menino”. E, dentre as várias pérolas, declara: “Mulher é assim mesmo, a gente encosta e ela fica roxa”. E arremata: “Isso não é motivo pra meter os meninos na cadeia, junto com bandidos”. E o seu menino é o que, cara pálida?

Bem, não sei quem é filho de quem, mas, pelo menos o filho desse pai, a opinião pública já sabe o que aprendeu em casa.

Mas os meninos são estudantes universitários, têm família (têm?) e moram na Barra. (Nesse ponto, enchem bem a boca e carregam no primeiro “a”, bem aberto, BAAARRA) Ah! Bom...

Possivelmente, esses meninos de papai pegavam os brinquedinhos dos outros meninos, no play, e os pais não falavam nada. Matavam aula e os pais não falavam nada. Roubavam os trocos dos pais (ou quem sabe, a própria carteira) e os pais não falavam nada. Davam uns tapinhas na cara da mãe e os pais achavam que eles eram homenzinhos. Recebiam suspensões na escola, por mau comportamento, e os pais se voltavam contra os professores. Abusavam das filhas dos outros e os pais dos meninos de papai chamavam as meninas de piranha.

Parece que alguns pais esquecem de avisar aos seus menininhos que no mundo dos adultos, aqui fora, na “real”, o buraco é mais embaixo. Aí, os deslimitados meninos que cresceram por fora e ficaram parecidos com homens, não podem mais contar suas bravatas, comendo cachorro quente de maquininha e tomando cerveja no gargalo, pelos postos de gasolina da vida, como se a vida fosse uma eterna terra de Marlboro.

Quer saber? Não troco a dona Sirlei por nenhum daqueles meninos de papai. Em termos de dignidade e cidadania ela, sozinha, dá de dez em todos eles. Mesmo não sendo estudante universitária, não tendo grana para ficar em festinhas até de manhã ou morando na Barra.
 



(07 de julho/2007)
CooJornal no 536


Anderson Fabiano,
escritor, publicitário, jornalista
af.escritor@hotmail.com
RJ