21/07/2007
Ano 11 - Número 538



ARQUIVO
ANDERSON FABIANO

 

Anderson Fabiano




Excelências?

 

Sempre que possível, gosto de emprestar às minhas crônicas, um pouco de ironia e irreverência. É meu jeito de dar umas pitadinhas de carioquice em temas nem sempre amenos, mas temo que a realidade esteja ficando mais irônica, irreverente e até mesmo, irresponsável que minha capacidade criativa.

Enquanto esperava a hora de enviar minha versão sobre a polêmica compra do novilho (ou novilha, sei lá), Miragem, do recém defenestrado Roriz, fui obrigado a ver nos telejornais, o Calheiros, com seu ar blasé, atravessar mais uma semana brincando de “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Confesso que quase deixei Miragem de lado para falar do azarado senador pulador de muros. Mal rascunhava as primeiras linhas desse novo prato feito, recebo a notícia de que o Cristo Redentor fora eleito uma das Sete Maravilhas do Mundo e, imediatamente, os governos federal, estadual e municipal começaram a discutir quem era o dono do Cristo. Meu Deus! Perdoai-os, Senhor. Eles não sabem o que fazem. Nem o que dizem, nem coisa alguma.

De pronto, abandonei o senador de ilibada conduta e me preparei para abordar a disputa política do famoso ícone da cidade do Rio de Janeiro. Afinal, políticos discutindo quem é o dono do filho de Deus é mais que um prato cheio, é a própria boca livre.

Tirei a folha de poucas letras da máquina e nem conseguira parar de rir com tamanho imbroglio e o Lulinha-eu-não-sabia, a maior unanimidade nacional, segundo as pesquisas palacianas, é vaiado por um coro de 90.000 pessoas, na abertura do Pan do Rio. (Do Rio, viu “seu” Lula. Os Pans são sempre das cidades onde são sediados e nunca dos países onde se realizam)

Imediatamente, as assessorias (e os puxa-sacos de plantão) correm a dizer ao país (e ao mundo) que a vaia partira de um pequeno grupo sentado à esquerda da tribuna de honra. Para quem não conhece a geografia do Maraca, é onde fica a torcida do Flamengo. À direita, fica a do Vascão. Êpa! Esquerda da esquerda!

Mesmo sabendo que o prazo da crônica esgotava-se, perigosamente, mudo de tema mais uma vez. Deixo o Cristo de lado (a estátua, deixemos bem claro) e caio de boca na vaia da ultra-esquerda. (Ou será que o PT já assumiu que de esquerda não tem mais nada)

Aí, a graça foi embora. Cai o avião da TAM. O que isso tem a ver com política? Tem muita gente achando que o trágico acidente pode ter algo a ver com a precipitada re-inauguração da pista de Congonhas (sem as tais ranhuras na pista), a necessidade do governo de dar uma resposta à questão do apagão aéreo, os elevados custos da obra, essas coisas.

Temo que a opinião pública vai ser manipulada, mais uma vez. Posso estar enganado, mas a culpa será do piloto, do freio que falhou, de um urubu que voava baixo demais (ou fora do seu horário) ou ainda, de um controlador de vôo descontrolado que, atravessara a pista sem olhar. E as vidas ceifadas, em mais uma tragédia, ficaram em segundo plano. Pois, o que importa são os números, a imagem, sabe-se lá de quem.

Amo meu país! Só não consigo mais saber se rio ou se choro diante de tanta irresponsabilidade. As piadas estão andando mais rápido que a nossa capacidade de contá-las.

A esbórnia tupiniquim está fora de controle!

Sou de uma fornada que cantava o Hino Nacional todo santo dia, antes das aulas e, talvez por isso, me emocione até hoje, com hino de Maracanã e atleta brazuca nos pódios da vida.

Sou de um tempo em que autoridades eram chamadas de Vossa Excelência e, como isso anda difícil de se fazer, dou uma de Drummond e corro no Aurélio para ver se meu entendimento de excelência ainda está correto. Tá lá: Excelência, do latim excelletia. Qualidade de excelente, primazia. Tratamento de pessoas de alta hierarquia social.

Desculpem-me, mas, tratar de excelência os anões do orçamento, a turma do mensalão, o dono do Miragem, a ministra do “relaxa e goza”, o senador que não usa camisinha, o cara que disse que o Congonhas estava pronto ou a corriola de pilantras que freqüenta o poder é um pouco demais para mim. Vossa Excelência? Só se for a vossa, meu chapa, porque a minha excelência é outra.
 


(21 de julho/2007)
CooJornal no 538


Anderson Fabiano,
escritor, publicitário, jornalista
af.escritor@hotmail.com
RJ