01/12/2007
Ano 11 - Número 557



ARQUIVO
ANDERSON FABIANO

 

Anderson Fabiano




 Deu na Band

 

Imagine o que você pensaria se um dia ouvisse um médico, não importa de que especialidade, responder que o coração é um importante órgão do sistema linfático. Ou ainda, um engenheiro civil dizendo que nunca ouviu falar de tijolos ou cimento. Pois é, o destino me pregou uma peça e sou testemunha ocular (e auditiva) de um absurdo desses. Não foi com um médico, nem com um engenheiro, mas com uma professora que liderava um grupo de estudantes, em visita a casa do marechal Deodoro da Fonseca, em Alagoas.

Um repórter fazia uma matéria para TV Bandeirantes, às vésperas do Dia da Proclamação da República, na terra natal do principal personagem daquele episódio, quando um ruidoso grupo de estudantes aproximou-se da frente da casa. Fala com uma, fala com outra e nenhuma criança entrevistada, tinha a menor idéia de quem fora o ilustre morador daquela residência. Antevendo a bomba que iria explodir, o jornalista, com aquele faro maléfico típico da profissão, resolveu perguntar à própria professora: A senhora sabe quem foi o marechal Deodoro? Muito fashion, sorridente, bem vestida e oculta atrás de um cinematográfico par de óculos, a moçoila não titubeou, escolheu seu melhor ângulo e disparou, coast to coast, com a superioridade dos justos: "Presidente?... Governador?..." O profissional de Imprensa, perverso como ele só, insistiu: E a senhora sabe o ele fez? "Muitas coisas boas (sorriso desconcertado)... a Proclamação da Independência..." A emissora cortou para matéria seguinte, não sem antes, os apresentadores do telejornal, se entreolharem, surpresos.

Fui tomado por tão repentina e violenta indignação que, estupefato, não consegui registrar mais nenhuma notícia. Tudo bem que as pessoas não saibam, com exatidão, quem foi Anita Garibaldi ou Calabar ou em que batalha o almirante Tamandaré se notabilizou. Afinal, seria tolice pretender que todo cidadão brasileiro fosse uma sumidade em personagens, datas e episódios de nossa parca história. Mas, um sete de setembrozinho básico, um 21 de abril e mais umas três ou quatro datas, dava pra memorizar. Ou não?

Será que um João VI (mesmo associando com aquela história do franguinho no bolso), um Pedro I, um Getúlio é pedir muito? Se souber, então, que Campos Sales foi presidente do Brasil e não do time do América, do Rio, juro que me dou por satisfeito e aplaudo de pé.

O duro é você ouvir de uma professora alagoana, diante de seus alunos, na véspera do feriado da tal proclamação, na porta da casa do cara, que não sabe quem morava ali.

Então, foi visitar quem o cara-pálida?

É dose pra leão! Essa, nem no Febeapá, do saudoso Sérgio Porto, caberia.

Lembro-me, vagamente, que alguém que presenciara aquela aberração, ainda tentou livrar a cara da moça: "De repente, ela não é professora de História..." Bem, nesse caso, ficam os professores de Matemática liberados para dizer "Nóis vai" e "A gente fumo". Quanto aos professores de Literatura ficam, por sua vez, liberados para afirmar, sem culpa alguma, que dois mais dois é igual a cinco, porque liberou geral!

Quer saber? Fico por aqui antes que desande a escrever impropriedades. Mas, antes, só uma perguntinha: São essas, as crianças, às quais vamos confiar o futuro do nosso país? Ou estas, serão aquelas outras, párias, que só servirão para estatísticas de projeto assistencialistas, tipo vale-escola, vale-merenda e vale-passar mesmo sem saber nada?

Com a palavra, os responsáveis pelo Ensino e Cultura do país. Ou seria ensino e cultura?

PS: Esta crônica é baseada em fatos (infelizmente) reais, transmitidos, em cadeia nacional, na noite de 14 de novembro de 2007, no Jornal da Band.



(01 de dezembro/2007)
CooJornal no 557


Anderson Fabiano,
escritor, publicitário, jornalista, consultor de marketing, programador visual, vascaíno e mangueirense.
Livros publicados:
- "Olhando para dentro de mim" – Poesias – 1986 - Esgotado
- "Dando soco no sereno" – Crônicas - 2006
Próxima publicação:
- "Amo sim. Trajetórias da paixão" – Prosas poéticas, Poesias e Cartas, com lançamento
previsto para abril de 2008
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RJ