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01/12/2007
Ano 11 - Número 557

ARQUIVO
ANDERSON FABIANO |
Anderson Fabiano
Quartas bêbadas |
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Algumas coisas estão tão atávica e cotidianamente ligadas a nós, que nunca
percebemos. As horas e os dias são bons exemplos. Você conhece algo mais
mentiroso que hora? Jamais sabemos a hora certa. No tempo que gastamos
para traduzir, mentalmente, o que vemos e o que pensamos, lá se foram
preciosos segundos. Logo, não são mais as horas que vimos. O mesmo
acontece com os dias, mas, por outros motivos. Você conhece algo mais
inútil que uma quarta-feira? Claro que se você está fazendo um tratamento
dentário ou um curso ou até mesmo, se é seu dia de pegar os filhos na
escola, a quarta faz algum sentido. Mas, no contexto dos demais dias da
semana?...
Quarta-feira é um dos dias mãos bocós que se tem notícia: indeciso, não é
início, nem fim de semana, é meio. Coluna do meio. Nem calça de veludo,
nem bunda de fora. Nem hetero, nem homo. Bicha enrustida.
As quartas são tão imprestáveis que não servem nem pra enforcar feriados.
Se o feriado cai na terça, enforca-se a segunda, se na quinta, esforça-se
a sexta. Mas, se cai na quarta, enforcamos o quê? Só se for o criador dos
calendários.
Por mais que se vasculhe na memória, não se encontra um único adjetivo, ou
bom motivo, para se curtir uma quarta. Duvida? Então, vamos lá:
sexta-feira – a grafia já dá uma pista, SEXta-feira. Dia de botequim, de
afrouxar a gravata, de disputar a rodada no palitinho e,
preferencialmente, de convidar aquela coleguinha gostosa pra tomar um
chope, num happy-hour imperdível. (Apesar dos esforços de uma importante
marca de cerveja, os brasileiros continuam traduzindo happy- hour como
horário pré-motel)
Pra molecada, noites de sexta e de sábado são reservadas pras baladas.
Sábados e domingos são dias pra lavar carro na calçada, rever a bunda da
vizinha voltando da feira, enfiada naquele shortinho (que você jura que
ela comprou só pra provocá-lo), de todo mundo fingir que é bom pai e
brincar com os filhos que não vê desde o fim de semana passado e de contar
mentira pros amigos, na esquina, enfiado numa sandália japonesa.
É dia de praia, chope gelado com batata frita e conversa fiada. (ou
afiada?) Até a segunda tem serventia: é o dia da preguiça, das olheiras. O
Garfield's Day. Dia de chegar atrasado no serviço, de ouvir esporro do
patrão, de discutir troco no ônibus, etc e tal. Terça-feira é o único dia
que presta. Acabou a ressaca e a sexta ainda está longe. Os patrões adoram
as terças-feiras!
Há gente que jura que as quartas só não acabam, porque os astrólogos temem
que sem elas, os anos entrem em colapso e os horóscopos misturem todos os
signos.
Vocês não sabem, mas as quartas são um estorvo. Dias totalmente
imprestáveis. Tanto é que muita gente chama quarta-feira de arroz: só
serve para acompanhamento. Não tem gosto nenhum.
Ué? Vocês não sabiam que dia tem gosto? Tem sim: quinta tem gosto de
cozido; sexta, de feijoada; sábado, de churrasco; domingo, de macarronada
da mamma; segunda, de sal de frutas e terça, de sanduíche natural ou prato
de dieta de restaurante a quilo, mas quarta...
Dizem que as quintas rezam todos os dias agradecendo por serem apenas o
dia seguinte. Alguns especialistas chamam a isso de Síndrome de Pânico.
Gente, vocês podem até estar pensando que isso é marcação, mas não é não.
As quartas-feiras só não são mais inúteis que fantasia sexual com astros
hollywoodianos. Ninguém diz: "Passa lá em casa, na quarta". Nem mesmo as
dietas que, de antemão, sabemos que não vamos fazer, começam nas quartas.
Quarta-feira parece um cara feio, sem grana, de papo chato, metido num
fusca 67, numa noite de sexta. Ou seja, não serve pra nada. E, por falar
em sexta, até o índio que o Crusoé encontrou na tal ilha, chamava
Sexta-feira. Não podia ser quarta?
Mas, nem tudo está perdido, ainda restam duas oportunidades de
quarta-feira virar gente: o futebol e a cachaça. O primeiro, porque caem
justo nas quartas, os jogos de meio de rodada. E, mesmo assim, só depois
das novelas da Plim-plim, que é para não atrapalhar os índices da emissora
(como se freqüentador de estádio, assistisse novela) e o segundo, porque,
como se diz nos botecos cascudos: "Profissional que se preza, bebe de
segunda à quinta. Sexta e sábado é dia de amador!"
E, se você deu por falta do domingo é porque ninguém é de ferro e no
domingo, até Ele descansou.
... É, são mesmo bêbadas, essas quartas-feiras...
(01 de dezembro/2007)
CooJornal no 557
Anderson Fabiano,
escritor, publicitário, jornalista, consultor de marketing, programador
visual, vascaíno e mangueirense.
Livros publicados:
- "Olhando para dentro de mim" – Poesias – 1986 - Esgotado
- "Dando soco no sereno" – Crônicas - 2006
Próxima publicação:
- "Amo sim. Trajetórias da paixão" – Prosas poéticas, Poesias e Cartas,
com lançamento
previsto para abril de 2008
fabiano137@gmail.com ou
af.escritor@hotmail.com
RJ
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