08/12/2007
Ano 11 - Número 558



ARQUIVO
ANDERSON FABIANO

 

Anderson Fabiano





Comemorar o que, cara pálida?
 

Nosso país foi, finalmente, incluído na lista dos países com melhor qualidade de vida, segundo a ONU. Tudo bem que estamos apenas em 70 o lugar, mas, como aprendemos desde criança, todos devemos começar de baixo. Afinal, a vida ensina que só assim, daremos mais importância as conquistas.

O presidente disse que os brasileiros têm motivos para comemorar (sic). Então tá, a partir de hoje, saibam todos, estou feliz. (!?)

Mas, umas coisas me deixaram encafifado: como dar essa notícia praquele menino que vi deitado, ontem, sob uma marquise, dormindo seu sonho de criança ultrajada e protegido, não pelo Estado, mas, por um papelão? O que devo levar pra casa daquele lavrador nordestino, cuja previsível seca matou (mais uma vez) seus pezinhos de feijão e macaxeira? Será que pego um pouco de sua água barrenta e faço um suco de maracujá ou seria melhor, um bom vinho italiano, já que estaremos comemorando essa boa notícia, na época do Natal?

Como vou comemorar esta conquista nacional, com os milhares de chefes de família que vão passar a Ceia, dividindo um frango assado de padaria com a mulher e os filhos, pois o patrão só vai pagar o 13o, mês que vem, porque o faturamento, esse ano, caiu?

O que poderia eu fazer, para comemorar nosso ingresso nesse importante ranking, com aquela menininha que ficou quase um mês, servindo de depositório de esperma para 20 outros presos, numa delegacia paraense? E, pro menino privado de suas aulas, por medo de balas perdidas? Dou um carrinho, um livro ou um colete à prova de balas?

Sei não. Vou perguntar pro aniversariante do mês. Vou tentar encontrar o elo perdido e tentar, mais uma vez, lembrar que sou criatura e religar-me ao Criador.

Sei, hipócrita e cinicamente, que assim que for convidado para a primeira festa de confraternização, vou esconder-me atrás dos copos de chope, das gargalhadas, do vozerio e vou fingir que está tudo bem. Com um pouco de sorte, até amarro um porrinho básico e volto pra casa, acreditando que sou feliz. A merda é acordar depois.

Daqui a pouco, vou estar me espremendo numa loja de 1,99 (e outras), comprando as lembrancinhas do Amigo Oculto, os presentes dos filhos, da mãe, da mãe da namorada, dos filhos da namorada, da namorada e dependendo do que sobrar no bolso, após tirar meu nome do SPC, umas cuecas na promoção, pra mim. Depois, carregado de embrulhos coloridos, vou voltar pra casa, morrendo de medo de que aquele menininho da marquise, já devidamente cheirado de cola, apareça na janela do meu carro pedindo alguma coisa ou que falte gás no posto da esquina.

Sei não. O presidente disse que eu tenho muito pra comemorar. Então tá, estou feliz...

 

(08 de dezembro/2007)
CooJornal no 558


Anderson Fabiano,
escritor, publicitário, jornalista, consultor de marketing, programador visual, vascaíno e mangueirense.
Livros publicados:
- "Olhando para dentro de mim" – Poesias – 1986 - Esgotado
- "Dando soco no sereno" – Crônicas - 2006
Próxima publicação:
- "Amo sim. Trajetórias da paixão" – Prosas poéticas, Poesias e Cartas, com lançamento
previsto para abril de 2008
fabiano137@gmail.com  ou af.escritor@hotmail.com
RJ