15/12/2007
Ano 11 - Número 559



ARQUIVO
ANDERSON FABIANO

 

Anderson Fabiano





A cueca do Amigo Oculto

 

O brasileiro pode ter lá seus defeitos como, aliás, todo mundo tem, mas, uma coisa é inegável: é um dos povos mais criativos do mundo. Para cada coisa, para cada situação, o brasileiro inventa uma saída e com o Natal, não seria diferente. Afinal, o que poderia ser mais criativo para um povo duro e festeiro que o tal do Amigo Oculto?

Amigo Oculto ou Amigo Secreto ou Amigo Invisível ou Que Saco de Amigo é a caipirinha do Natal brazuca. Coisa simples e barata: um grupo de amigos ou familiares, coloca seus nomes num pedacinho de papel, estabelece um valor mínimo para os presentes e pimba! A mão no saco resolve tudo. Quer dizer, tudo não. Sempre tem um estraga-prazeres que pede para trocar: "Eu tirei fulano, quer trocar por sicrano?" E o espírito natalino começa ir pra cucuia.

Na hora da troca de presentes, a coisa também é bem simples: Cada um, criando um pequeno enigma, descreve seu Amigo para o grupo descobrir quem é... Quer dizer, deveria ser simples, porque sempre tem um chato de galocha, que não incorpora a brincadeira e chama de enigma algo como: "Meu amigo é gordo, careca, senta na mesa atrás do 'seu' Osvaldo e é um tremendo puxa-saco do chefe". Outros, ainda, para encurtar o retorno a birita e a comilança, manda na lata: "Meu Amigo Oculto é o Tavares!"

Fazer o que, né? Cada um brinca como pode e quem não sabe brincar, não brinca.

Mas, tem uma coisinha que (sempre) precisa ser resolvida antes: o que comprar para o Amigo Oculto?

Não raro, pequenas demonstrações de espionagem explícita resolvem a questão. Caso contrário, pega-se alguém conhecido do cara e, com uma boa anamnese de hábitos e costumes, chega-se a uma solução.

Pois é, me pegaram para alcagüete do Almeida.

O papo começo com o indefectível CD. Como o Almeida é tocador de pratos da OSB, freqüenta baile funk, toca tamborim nas rodinhas do bar e, em casa, só ouve Jazz, Blues e MPB, não arrisquei nada porque não sou besta.

Em seguida, veio o papo da camisa. Como o Almeida trabalha de terno na "repartição", usa smoking na orquestra, camiseta regada nos bailes e nos bares e passa a maior parte do tempo, balançando aquela barriga indecente, sem camisa, vida acima, vida abaixo, também não arrisquei palpite algum. Roupa? Só se fosse de baixo e, foi justo aí, que lembrei de um desabafo do me amigo Almeida: suas cuecas estavam pela hora da morte! "Não sei o que está acontecendo? Minhas cuecas deram para aparecer com uns furinhos na parte de trás, que não há jeito de saber de onde eles saem! É um negócio tão esquisito que, dia desses, fiquei horas diante do espelho, analisando minha bunda e procurando uma farpa, uma ponta de anzol, um pedaço de arame... sei lá!?"

Não tendo outro jeito, passei essa inconfidência para o amigo dele. Mal sabia eu, que justo ali, estava começando um novo problema: o Amigo Oculto do Almeida não era ele, mas ela. Era uma colega de repartição. E ai, tem aquela coisa que o cara tentou me explicar que homens e mulheres não devem trocar presentes íntimos, sob risco de causar mal estar no ambiente.

Pessoalmente, não dou a mínima pra isso, mas o tal amigo do Almeida que, começava a marchar célere para minha Galeria de Chatos, disse-me que temos que tomar muito cuidado com certos presentes: quem dá sabonete ou perfume, Poe exemplo, tá chamando o outro de sujo; se presentearmos com dinheiro em espécie, estamos insinuando que o outro está à mingua; se damos um tênis é porque o outro está com chulé e que nunca, mas nunca mesmo devemos dar flores pra uma mulher. A não ser, é claro, para a nossa. Pois, flores vermelhas demonstram nosso desejo, orquídeas é paixão e lingeries ou roupas íntimas, significam convites para encontros. (!)

Diante da minha indisfarçável perplexidade, o cara insistiu: "Você não tem uma outra idéia?"

Foi quando lembrei que eu, também era brasileiro e apelei para criatividade tupiniquim: Pedi ao meu anjinho do ombro direito para tapar os ouvidos e ao da esquerda para responder. Ele, sem pensar duas vezes, disparou: "Já que é assim, que tal pedir a tal "colega da repartição" para passar a noite da véspera com o Almeida? Ai, ela poderia dar as cuecas, né? E com uma grande vantagem, no dia seguinte ele, com toda certeza, nem seria mais uma amigo "oculto".

Eu não disse nada.

 

(15 de dezembro/2007)
CooJornal no 559


Anderson Fabiano,
escritor, publicitário, jornalista, consultor de marketing, programador visual, vascaíno e mangueirense.
Livros publicados:
- "Olhando para dentro de mim" – Poesias – 1986 - Esgotado
- "Dando soco no sereno" – Crônicas - 2006
Próxima publicação:
- "Amo sim. Trajetórias da paixão" – Prosas poéticas, Poesias e Cartas, com lançamento
previsto para abril de 2008
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RJ