Nesses tempos de
aniversário do Rio, me pego pensando nessa coisa de ser carioca e
confesso, sinto lá uma pontinha de orgulho. É que muita gente pensa que
carioca é quem nasce no Rio. Ledo engano! Quem nasce no Rio é
fluminense. Quer dizer, nem todo mundo, porque eu, Paulinho da Viola,
Martinho da Vila e milhões de outros caras espertos, somos Vasco.
Ser carioca
não tem nada a ver com a nossa naturalidade e sim com o estado de
espírito, com o tipo de alma que habita nossos surrados corpinhos e o
nosso jeito de encarar a vida. Na verdade, todo mundo pode ser carioca
já que carioca que se preza, tem que ser meio moleque, irreverente,
sacana e, se possível assumir, ainda que em doses homeopáticas, seu lado
cafajeste. Canalha jamais! Mas, cafajeste, forever. Assim meio Carlos
Imperial.
Só que para
ser um legítimo carioca, tipo 12 anos, existem certas normas. Afinal,
não é porque somos reconhecidamente esculhambados, que vamos abrir mão
da nossa grife. Para ser aceito nessa confraria é preciso gostar de
samba, futebol, chope com conversa fiada (e, afiada, também), papo de
esquina e bunda dos outros. Isso mesmo: bunda! E não pensem que esse
papo de bunda é coisa de machista porque estou falando de mulheres,
também. As cariocas, aquelas que bastam o jeitinho dela andar
também são fissuradas numa bunda. Só que de homens, mesmo nesses tempos
de múltiplas opções sexuais. Ainda está pra nascer uma carioca, que abra
mão de cravar suas unhas bem tratadas numa bunda cabeluda naquela tal de
hora "H". Sabe qual é, né? Aquela hora em que gemidos discretos se
transformam em urros nem tanto e os vizinhos descobrem o que estávamos
fazendo no quarto, na sala, na cozinha...
Carioca e
sexo, por um triz não são sinônimos. Pouca gente sabe (e quem sabe, se
nega a reconhecer), mas foram os cariocas que, mesmo sem saber falar
inglês, descobriram porque sexta-feira se grafa com S, E, X. E, também
fomos nós que demos sentido aos happy hours, dos louros meninos
do norte, quando numa livre tradução, adotamos o horário pré-motel.
Carioca é o
único cara do mundo que está sempre pronto para receber uma desmilingüida asa de frango, quando pede a alguém para dar umazinha.
O Rio
deveria ser tombado como patrimônio cultural do mundo e não pelas águas
de março (Ave, Tom!). Quando neguinho tava pensando em dar umas bandas
lá pelos lados do moinho, a gente já vinha voltando com quilo e meio da
melhor farinha. E mesmo naqueles tempos, em que paulista pensava que
trabalhava mais que a gente (vide pesquisa no Fantástico), a cariocada
desvairada já recebia, de braços abertos (Benção, Redentor), piauienses,
mineiros, gaúchos e até paulistas na Imperial Irmandade Carioca. Mesmo
que os caras se traíssem nos botecos da vida, pedindo um chopes e
dois pastel.
Eu, que não
tenho nada a ver com isso, modestamente, filho de Oxossi com Oxum,
afilhado querido de Xangô, só lamento que o Rio já não seja tão
suburbano como deveria. Pois, para quem não sabe, assim como o Brasil é
mulato (Saravá, João Ubaldo), o Rio é suburbano. O Rio de Janeiro,
fevereiro e março (Alô, ministro!) nunca foi Ipanema ou Barra. O Rio
é Tijuca, Pilares e Madureira. O Rio nasceu no centro e, com a chegada
da Família Real Portuguesa, foi mandado pro subúrbio. Nas Ipanemas da
vida moram os suburbanos que deram certo. Ou ainda, os que pensam que
deram certo. (E haja SPC pra segurar tanto cheque sem fundos dos falsos
bacanas)
O melhor Rio ainda é
o moleque, o debochado, o que prefere joelho de normalista no bonde, ao
invés das bermudas "cofrinho" das fanqueiras. Nossa melhor bala é a
"Ruth" (que dá figurinha e tudo) e não essas perdidas que andam por ai.
Não se iludam, aquele
carioquinha de filme da Disney, com chapéu de palha e camisa listrada,
só é encontrável em bares e rodas de samba pra lá da Central. Mas, como
sou de Cascadura, tô bem na fita.
Sábado, primeiro de
março, vou me meter numa camiseta regata, uma bermuda velha, calçar um
chinelo de dedo, pegar meu tamborim, juntar a rapaziada pra tomar uma
baixa renda com jiló e moela no bar do "seu" João e curtir minha
carioquice.
"Brasil, tira as flechas do peito do meu padroeiro, que São Sebastião do
Rio de Janeiro ainda pode se salvar".
(Salve Moacyr Luz,
Aldir Blanc e Paulo Cesar Pinheiro)
É isso aí...