15/03/2008
Ano 11 - Número 572



ARQUIVO
ANDERSON FABIANO

 

Anderson Fabiano





Complicou de vez
 

 

Se já estava complicado buscar o paraíso com sete, com 13 ficou impossível. Nesse tipo de 13, nem o velho mestre Zagallo dá jeito. Seguinte: passei uma vida inteira lutando contra as forças do Mal e, devo confessar, até que não estava indo bem, mas, com as mudanças anunciadas...

Bem, como diria aquele velho político: "Questão de ordem!" A Avareza era mole. Nunca fui mesmo muito chegado nessa coisa de ser refém de grana. Quando tinha, tinha, quando não tinha, corria atrás. Já a Gula, dependia da situação. Encarar uma moela ou um pedaço de torresmo com a rapaziada no boteco da esquina nunca me assustou, mas, se pudesse rolar um camarãozinho, com talher adequado e um bom vinho branco seco, numa mesa bem posta aí a coisa já complicava. Se fosse no 0800, então, nem se fala. Mas, na brabeza, encarei muitas vezes um arroz com ovo, sem chiar.

Inveja nunca foi minha praia, na base do "o que é meu, é meu, o que é seu, é seu". Uma única coisinha, vez por outra, me tirava do sério com esse tal de destino: quando aparecia um cara feio e duro com uma mulher tipo arrasa-quarteirão. Aí, batia uma invejazinha nem sempre disfarçável. Mas, nada de mais, invejazinha básica. Creio que se fosse para segunda chamada no vestibular do Céu, dava pra negociar.

Já a Ira, me levaria pra segunda época e, quem sabe, até mesmo para uma reprovação. Corrupção, impunidade, injustiça social, discriminações, juiz ladrão e certo time carioca, que minha condição de vascaíno impede de pronunciar o nome, me tiram do sério. Assumo que fico procurando uma jugular para cravar os dentes. Mas, fora isso, sou do Bem.

Sob a ótica da sensualidade, pura e simples, não vejo pecado nenhum na Luxúria. E, como, lascívia e dissolução não constam nem no meu lado B, passo batido.

O mesmo se aplica ao Orgulho, até concordo que haja pecado na soberba, mas, no brio, na altivez, só um tonto pode ver pecado.

E a Preguiça é um pecado que não tem espaço no Brasil. Pobre (ou mais pobre) de quem, nesse país de salário mínimo de R$ 412,00 se permitir a preguiça. Brasileiro que não ralar de sol a sol não é pecador, é otário! Vai pra debaixo da ponte, rapidinho.

Resumo: dos sete pecados capitais, só um e meio poderiam me pegar. E, mesmo assim, se me fosse dada a chance de um papo franco, numa mesa de bar com chope bem tirado, olha, não sei não... Mas, 13!?

Acho que apesar dos noticiários da TV nos mostrando o contrário, o Céu deve estar lotado e neguinho está inventando pretexto para mandar o excesso de contingente lá pras bandas do Chifrudo.

E agora? Como saio dessa sinuca de bico? Se não busco uma roupinha de grife, um carrinho zerado ou um aumento do limite do cartão, a turma me olha de lado. Senão, sou pecador.

Sei não, acho que aquela rapaziada lá do Vaticano anda sem ter o que fazer. Vou preparar um pacote com uns dois Hugos Chaves, uma "Bolsa-Família" e um "Fome Zero" pra eles terem com o que se preocupar.

É isso aí...

 

(15 de março/2008)
CooJornal no 572


Anderson Fabiano,
escritor, publicitário, jornalista, consultor de marketing, programador visual, vascaíno e mangueirense.
Livros publicados:
- "Olhando para dentro de mim" – Poesias – 1986 - Esgotado
- "Dando soco no sereno" – Crônicas - 2006
Próxima publicação:
- "Amo sim. Trajetórias da paixão" – Prosas poéticas, Poesias e Cartas, com lançamento
previsto para abril de 2008
fabiano137@gmail.com  ou af.escritor@hotmail.com
RJ