20/02/2010
Ano 13 - Número  672



 
Ângela Maieski

  

Arruda x Arruda

 


Lá pelos idos da década de 60 minha avó afirmava que a arruda era ótima para tirar o olho-grande. A benzedeira na qual eventualmente ela me levava, usava a plantinha para benzer, sempre acompanhando com uma reza que eu não entendia. Não sei se resolveu o problema, nem lembro qual o mal que me afligia, mas mal não fez. Reza de benzedeira não prejudica ninguém e hoje é uma tradição quase esquecida, mas ainda sobrevive em alguns rincões desse país.

Arruda, aquele outro, lá do Distrito Federal, talvez acreditando na força da planta que lhe empresta o nome, deve ter pensado que tal planta também lhe conferia proteção, fosse nos EUA, poderia dizer que as verdinhas nas meias eram uma benzedura para proteger os pés, verde por verde, a original poderia estar em falta no mercado.

Arruda não contou com a proteção da Arruda, talvez a cheirosa plantinha, utilizada contra mau-olhado, olho-grande ou inveja, não tenha gostado da mal cheirosa meia, repleta da notas sujas, afinal, ela como auxiliar de benzedeira, com sua reza forte, não poderia contribuir para tanto chulé.

A plantinha de Arruda, cansada de tanto descalabro, usou da reza brava e mandou seu homônimo descansar num espaço reservado. Desgosto da Arruda, o outro Arruda se sentiu humilhado, não pregou olho nos seus poucos metros quadrados. O Brasil deveria torcer pela Arruda, planta das benzedeiras, para manter o seu xará longe do dinheiro do povo, que não merece o mau cheiro que exala da corrupção. Arruda não é planta de levar desaforo para casa. O Arruda que se cuide, pois com reza de arruda de benzedeira não se brinca.



(20 de fevereiro/2010)
CooJornal no 672


Ângela Maieski é socióloga e professora
RS
www.amaieski.wordpress.com
 
amaieski@sinos.net