13/03/2010
Ano 13 - Número  675


 



 
Ângela Maieski

  

The teacher is on the table?! Power for teachers!
Conhecimento empírico e repetência escolar

 

Costumo falar brincando, que se me fosse dado poder, eta coisinha danada essa, instituiria uma multa para repetentes costumazes, ou para agradar os defensores da língua portuguesa, habituais. A repetência e a evasão são dois problemas a serem sanados e permanecem imunes à maioria das medidas adotadas. Não é costume dizer que o povo só obedece a lei quando dói no bolso?

A cada final de ano a dor de cabeça é a mesma. Alunos avaliados e o número daqueles que não atingiram os objetivos, em geral em mais de uma disciplina, é maior do que gostariam os próprios alunos, os pais, os professores, a direção, a escola, o governo... Driblar essa realidade é fácil, basta promove-los ou, se preferirem, aprová-los. As estatísticas mostrarão os números absolutos e relativos, mas por trás delas a realidade será outra. O aluno não domina o mínimo exigido para avançar. Assim, no próximo ano, os professores terão que enfrentar o mesmo velho problema.

São múltiplos os fatores que contribuem para a repetência, como os conflitos familiares e a postura da mesma em relação à educação, a pobreza, as drogas, a violência... enfim, o contexto em que se insere esse aluno têm um papel relevante no processo educacional, mas existem outro fatores tão importantes quanto, relacionados principalmente a categoria “habitual” e a maioria não ocorre por incapacidade de aprender.

Alguns alunos esperam nada ou talvez tudo, mas não querem despender esforço para atingir seus objetivos. Sonham em jogar futebol, ou desfilar nas passarelas... Adoram passar o tempo em importantes conferências com colegas que ensinam como utilizar todos os macetes do ipod para filmar as pernas das garotas ou o bumbum dos meninos. Isso quando não estão organizando a próxima festa, como bons futuros promotores de eventos. Outros serão comentaristas esportivos ou colunistas de fofocas, pois sabem todas as jogadas e dribles ou todos os escândalos envolvendo artistas. Conteúdos trabalhados em sala de aula não entram na sua lista de prioridades. Tivesse eu tempo e dinheiro, investiria ambos em pesquisa, para tentar entender essa flagrante falta de interesse, quais fatores levam a ela e quais as propostas ou iniciativas que conseguem captar a atenção desses alunos que são imunes a iniciativas bem aceitas pelos demais colegas.

Diria que os “costumazes” representam em torno de 20% dos alunos adolescentes (entre 6ª a 8ª), seja repetindo vários anos uma mesma série, seja fazendo praticamente todas as séries em dois anos. E eles contam com a garantia constitucional, reforçada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA. A Lei é o melhor meio de proporcionar direitos iguais, mas não tem como obrigar alguém a participar da própria construção do conhecimento.

A repetência “costumaz” nas instituições escolares públicas, seja no ensino fundamental, médio ou mesmo em universidade, utilizando (ou usurpando) indefinidamente o sistema escolar também onera os cofres públicos. E então voltamos ao título. Tivessem os professores poder para disciplinar essas mentes e direcioná-las ao conhecimento não estaria eu aqui propondo uma medida tão esdrúxula.

E vejam bem, não estou falando daquele aluno que tem problemas em apenas uma disciplina, que pode estar relacionado a conflitos com um determinado professor ou a lacunas de conteúdo pré-existentes. Muito menos daqueles que são encaminhados já com o laudo de inclusão. Refiro-me aos alunos que tem potencial, capacidade ou inteligência, seja lá qual nome que queiram usar e que simplesmente se deixam reprovar. Seria a Síndrome de Peter Pan afetando a educação?



(13 de março/2010)
CooJornal no 675


Ângela Maieski é socióloga e professora
RS
www.amaieski.wordpress.com
 
amaieski@sinos.net