16/04/2011
Ano 14 - Número  731

 

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"Amigo da Cultura"



 

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ÂNGELA MAIESKI


 
Ângela Maieski

  

BBB, futebol, vestido rosa e Tiririca,
não há ibope que resista!
 

 

Início de ano letivo é sinônimo de muito trabalho intelectual. Inventar aulas, tarefa essa que é trabalhosa, mas para mim é fonte de prazer, elaborar trabalhos e provas, ler centenas de páginas decifrando letras e pensamentos.

Compensações existem, mesmo que elas não se traduzam em bons salários e menos horas de trabalho em sala de aula. A tal hora atividade já ganhou apelido de hora bunda, desculpem o termo, no que concordo, por que realmente acho difícil trabalhar com contínuas interrupções, no meio de entra e sai de colegas a cada troca de período, de alunos que precisam de algum material e por aí vai. Em geral as escolas não dispõem de salas ociosas e é preciso compartilhar. Gosto dessa palavra “compartilhar” e sempre procuro algum professor que possa desenvolver um trabalho correlato ao que estou “bolando”, não sou tão individualista a ponto não dividir minhas “invenções, mas quando se trata de desenvolver a ideia, preciso desse individualismo servil, que me permite pensar em silencio para ir montando todas as peças do quebra-cabeça que uma vez pronto se tornará a próxima tarefa com a qual desafiarei meus alunos a pensar.

Todo o empenho na procura de um tema que gere interesse, todo trabalho para criar cada uma das peças de forma que elas se encaixem com outros conteúdos ou disciplinas, são amplamente compensados quando percebo que um aluno tomou para si o conhecimento, decifrando-o de forma permanente e indelével.

E então percebo que nada disso parece ser importante, todo esse trabalho que milhares de professores fazem como formiguinhas, não ganha destaque, não é valorizado nem pela maioria dos alunos e pais, nem pelo poder público. Abro o jornal, seja ele impresso ou virtual, a cata de alguma notícia interessante e logo surge o último escândalo futebolístico ou artístico do dia, a última votação do BBB, o vestido rosa da pseudo-celebridade, e por ai vai. O professor ganha destaque quando relacionado à violência ou a inconsistência do seu conhecimento elaborativo, que pode lhe custar uma acusação de apologia ao crime.

Ser professor não da Ibope, nem tem o reconhecimento público e só ganha matéria no jornal se envolveu-se em algum tipo de confusão. Sugiro que todos que amam a profissão criem o BBB – Bom Bedel Brasileiro, se bem que o termo bedel é paradoxal – mas serve para compor a sigla e saiam em bloco nesse carnaval de vestido rosa e nariz de palhaço. Com certeza irão ganhar as manchetes dos jornais. Espero que o deputado Tiririca, agora na Comissão de Educação e Cultura, entenda que a medida não é ofensa ao profissional da alegria, mas tristeza pela desvalorização dos profissionais que ensinam a pensar assim como os professores circenses ensinam a seus pupilos a arte de fazer rir e emocionar. E que, com o aval de seus 1 milhão e trezentos mil eleitores busque meios de valorizar e incentivar a educação e a cultura.

Num país no qual milhares de empregos não encontram candidatos por absoluta falta de qualificação, no qual os cursos de licenciatura a cada ano tem menos interessados, no qual faltam centenas de milhares de professores, quem sabe valeria a pena colocar o bloco na rua com foliões de vestido rosa e maquiagem que imprime um sorriso na face perplexa daqueles que ainda acreditam na educação como transformadora para uma sociedade mais justa e solidária.


(16 de abril/2011)
CooJornal no 731


Ângela Maieski é socióloga e professora graduada em Ciências Sociais
RS
www.amaieski.wordpress.com
 
amaieski@sinos.net