03/06/2011
Ano 14 - Número  738

 

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ÂNGELA MAIESKI


 
Ângela Maieski

  

Palocci, meu “ídolo” blindado

 

O Supremo Tribunal Federal (STF) manteve, por 8 votos a 1, a lei que criou o piso nacional de salário do professor, fixado em R$ 1.187,97 para este ano. Multiplicando-se esse valor por treze, o professor “pisado”, ou seja, aquele que tem direito ao piso, receberá ao final de um ano de trabalho R$ 15.443,61 sem levarmos em conta os descontos legais. Ao final de 10 anos teria o valor de R$ 154.443,61 - valor esse que permitiria adquirir uma casa ou apartamento destinado à classe C ou D, dependendo da região. Trabalhando 100 anos (cem anos) poderia juntar R$ 1.544.361,00 – Um milhão, quinhentos e quarenta e quatro mil, trezentos e sessenta e um reais.

Cem anos para chegar até a casa de um milhão. Quatrocentos anos para poder comprar um apartamento de R$ 6.000.000,00. Isso se minhas contas não estiverem erradas, afinal, não sou uma gênia das finanças e descobri também que sou uma completa ignorante em matéria de consultoria.

Consultor é o profissional que, por seu saber e sua experiência, fornece consultas técnicas ou pareceres, a respeito de assuntos ou matéria dentro de sua especialidade. Segundo Peter Block (1991), "o consultor é uma pessoa que, por sua habilidade, postura e posição, tem o poder de influência sobre pessoas, grupos e organizações [...]".

Nesses termos, não difere muito do trabalho do professor, que oferece aos alunos seu conhecimento sobre determinada área, usa sua experiência para “traduzir” a informação, facilitando a compreensão e posteriormente fornece um parecer, avaliando o aprendizado, mas o faturamento final, em cifras monetárias é surreal.

Por isso tudo, Palocci é meu ídolo. O cara é um gênio. Em um ano, sua empresa faturou 20 milhões, metade deles em apenas dois meses, mas se compararmos com o faturamento da Petrobras - lucro líquido de R$ 10,99 bilhões - ou do Banrisul – lucro líquido de R$ 211,3 milhões, no primeiro trimestre de 2011, seu lucro líquido deve ter sido irrisório comparado ao dessas duas instituições.

Vamos blindar o Palocci e aproveitando o exemplo, nós professores deveríamos solicitar a mesma deferência. Se bem que nem todas escolas precisem do recurso, em outras tantas os professores agradeceriam a providência. Com certeza se sentiria mais seguros, se pudessem dar suas aulas protegidos contra classes voadoras, socos, pontapés ou disparos. A blindagem também evitaria que algum professor aloprado, estressado ou agressivo, colocasse a mão em algum aluno, mero estopim de um problema não detectado e não tratado. Não que o professor tenha motivos para tal.

Ele é reconhecido pela comunidade como o “salvador da pátria”. Concursado ou contratado, dificilmente dorme 8 horas por noite, mas pode aproveitar para cochilar enquanto chacoalha nos ônibus, come pastel de vento pago com seu vale refeição e se lhe negam o cuscuz, por ser de direito e de fato, destinado ao aluno, pode transformar a refeição num ato pedagógico alimentando-se ao lado do aluno e de boca cheia de um discurso nutricional, explicar o substancial valor do prato consumido.

Leva trabalho para casa e ao invés de perder tempo olhando televisão ou se estressando educando seus próprios filhos, se dedica com afinco a sublime tarefa de decifrar e elucidar as respostas mais incríveis que se possa imaginar. Nas suas horas atividades, planeja suas aulas. Nas horas de lazer, decodifica o resultado. Depois de 400 anos, talvez bastem 350, já que se deve contar com alguns aumentos, ele terá poupado o suficiente para poder comprar um apartamento de 6 milhões. É só não gastar nada do salário. Poupar é um bom exemplo a ser dado para os filhos.


(03 de junho/2011)
CooJornal no 738


Ângela Maieski é socióloga e professora graduada em Ciências Sociais
RS
www.amaieski.wordpress.com
 
amaieski@sinos.net