30/03/2012
Ano 15 - Número 780

 

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Angela Maieski

 



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Angela Maieski


Núpcias ortográficas

Angela Maieski - CooJornal, Rio Total

As núpcias realizadas entre países de língua portuguesa, pouco alteram de faCto e esse sim, tem ainda dupla grafia. Temos consoantes proferidas aqui ou além-mar – com hífen ou sem? – não alteradas pelo paCto. A receção de Portugal é boa para os brasileiros em geral, assim como a recepção dada aos portugueses que chegam ao Brasil no carnaval. Cada qual com sua grafia.

Acadêmicos brasileiros que lá vão estudar, perdem o circunflexo, mas ganham o agudo. Essas núpcias ortográficas, liderada pelo Brasil, não são bem vistas por todos os primos distantes e mesmo entre os filhos dos nubentes, há muitos descontentes. Uma língua comum poderia facilitar para alguns, que poderiam reescrever e reimprimir milhões de edições de acordo com a reforma ortográfica. Se é faCto que uma língua comum é de interesse do mercado, para o setor (ou sector?) editorial é ótimo não só para exportar seus volumes, mas para “encher as burras de ouro”, expressão lusitana, de uso corrente no Brasil.

Para nós, pobres mortais, tanto faz escrever com o hífen na contra-reforma ou suprimi-lo na contrarreforma. A reforma que não transforma a cultura linguística de cada nação.

Pedi ajuda para um colega blogueiro de Portugal, que disse que “basta consultar a net” e que é fácil encontrar exemplos, como “rapariga” que em Portugal é simplesmente o feminino de “rapaz”. E adverte que “mesmo cá em Portugal há umas boas diferenças de região para região. E rimo-nos às custas disso. As pessoas do sul, por exemplo, acham muito piada a expressões e designações das pessoas do norte.”

E ele deixou uma “amostra de dicionário norte-sul”, conforme segue:

Sertã – frigideira
Sameira – carica de garrafa
Fino – Imperial (cerveja de pressão)
Cimbalino – café (dizia-se bica em Lisboa)
Magnório – Nespera.

E completa, dizendo que “as pessoas do norte usam muito o palavrão, a asneira. Os do sul acham isso muito rude.” Que asneira, dirá o brasileiro, para o qual a palavra não tem a mesma conotação.

Facto ou fato, pode ser objeCto ou objeto de estudo, assim como a música, que também pode ser só distraCção. A população do município dos Bundas pode dançar o kuduro, um “género” criado em Angola. Ku, palavra e não palavrão, parece vir do mais puro vernáculo do Kimbundo (MataKu = nádegas ou assento, plural de ritaku).

A reforma ortográfica serve para facilitar a compreensão do idioma, mas hora mantém o objeCto da discórdia, logo aquém, extingue, sem piedade o M ou C. Se fosse o MMC as núpcias seriam matematicamente exatas, sem alterações.

A ideia de “língua comum” resvala não na grafia de algumas palavras, mas na representatividade cultural de cada nação. Expressões usadas em países de língua portuguesa inclusive podem gerar confusão. Imagine a situação de um brasileiro ao escutar:
negrão
1 – Em breve teremos uma rede de frio próximo aos caminhos-de-ferro.

2 – Corra! O negrão está a se aproximar.

3 – Use seu telemóvel e peça umas frescas.

obras4 – Cuidado! Troço em obras.

5 – E se nada funcionar, pague uma gasosa (propina).

E, a tal reforma já ganhou até charges:

 

Deu para entender a situação?

Imagens de Rodrigo Cavalheiro
(Jornal Zero Hora - Blog Expedição África)

(30 de março/2012)
CooJornal nº 780


Ângela Maieski é professora graduada em Ciências Sociais
RS
www.amaieski.wordpress.com
 
amaieski@sinos.net

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