12/04/2013
Ano 16 - Número 835

 

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Angela Maieski

 


 

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Angela Maieski


Escolas reprovando e alunos abandonando –
um ato de reengenharia (II)
 

Angela Maieski - CooJornal, Rio Total

Conceito de Reengenharia

O conceito de reengenharia, de Champy e Hammer, desenvolve a ideia de repensar e
redesenhar radicalmente as práticas e processos de uma organização. Óbvio que se trata de um conceito de administração, já que seu foco é o serviço ao cliente, os novos produtos, a cultura organizacional, etc., tendo como finalidade o aumento da produtividade, redução de custos e maior satisfação do cliente, procurando, para tanto, recriar normas e processos, excluindo aqueles que se tornaram ultrapassados.
Falar em reengenharia das escolas ou mesmo da educação é utopia, mas a cada dia entro em sala de aula vendendo um velho produto chamado conhecimento, tentando dar a ele uma nova embalagem, mostrar a finalidade e a satisfação que se pode obter com o conhecimento. Posso, portanto, utilizar a criatividade para idealizar uma escola.

Minha escola seria ecologicamente sustentável, desenvolvida através de projetos arquitetônicos e de engenharia que privilegiassem a luz solar, a circulação de ar e, especialmente, a acústica. As salas de aula e os móveis seriam projetados para proporcionar conforto. Cada região desse imenso país teria projetos específicos, já que há diferenças climáticas acentuadas. Pediria ajuda aos universitários dos cursos de engenharia, arquitetura, meteorologia e outros.

O salão de evento seria aberto à comunidade, que poderia apreciar o talento dos alunos, em apresentações de dança, teatro, palestras, etc. O refeitório poderia ser projetado para se transformar em mais um espaço de atividades, como exposições de trabalhos. A quadra esportiva seria coberta, com arquibancadas e redes de segurança e o pátio seria sombreado, com árvores e bancos, aparelhos de ginástica e pequenas mesas para jogos como damas, xadrez e moinho. Esses itens seriam obrigatórios em todas as escolas. Seria a reengenharia estrutural.

As escolas seriam pequenas, jamais abrigariam milhares de alunos, no máximo seriam algumas centenas. Escola, alunos e comunidade criaram um sentimento de pertencimento e identidade.

O quadro digital, item obrigatório, seria não apenas para utilizar a informação, mas para criar novos processos de aprendizado, permitindo conectividade total e imediata, assim como uma pequena biblioteca, não apenas com duas dezenas de livros didáticos de três diferentes autores, mas também com DVDs e livros de ficção ou não. As aulas começariam com a leitura de jornais, impressos no velho e bom papel, que permitiria sublinhar e recortar, ler e reler, resumir e reescrever uma reportagem que despertasse a atenção dos alunos ou servir de ponto de partida para investigar e analisar fatos relacionados a ela. Unificar conteúdos não seria prioridade, mas seria necessário acentuar a interdisciplinaridade e melhorar a didática e nesse quesito os cursos de licenciatura desempenhariam um importante papel. Teriam que reorganizar o fazer pedagógico. Todas as escolas teriam, obrigatoriamente, aulas de reforço no turno inverso. Seria a reengenharia funcional, reorganizando os processos na busca de melhores resultados.

Celulares, notebooks, tablets e outros equipamentos não seriam proibidos, mas o velho e bom caderno não seria dispensado, porque escrever, e bem, seria prioridade, assim como a boa e velha régua e os cálculos continuariam presentes para descobrir a quilometragem percorrida por uma mocinha, através de três continentes, em busca do amor de sua vida, da qual fora separada por uma guerra. Dispensaria os mapas pendurados no preguinho utilizando a tecnologia, ao toque dos dedos, sobrepondo mapas, mostrando os elementos químicos, fórmulas matemáticas ou fazendo uma visita virtual a museus.

A reengenharia normativa seria refeita. Alunos com histórico de ausências sem atestado médico, alunos repetentes por não participarem do processo avaliativo, não realizando atividades em sala de aula, não entregando trabalhos ou entregando praticamente em branco as provas, seriam advertidos ao final de cada ciclo de avaliações. Os pais teriam que comparecer obrigatoriamente na escola para assinar um termo de compromisso, através do qual ficariam cientes que reprovações por irresponsabilidade originariam a cobrança do valor investido – por aluno - pelo poder público ou a perda da vaga na escola pública. Para não dizer que não falei dos professores, eles seriam avaliados ao longo do processo, cabendo ao conselho escolar um importante papel, já que ele é composto por representantes de todos os segmentos e em conjunto com a direção e supervisão, poderia advertir ou relatar às coordenadorias a ocorrência de problemas.

Utopia é imaginar uma escola confortável, com telhado ecológico, ar fresco e luz direta, sem enregelar cusco no inverno e cremar cérebro no verão. Utopia é imaginar uma escola atrativa e cativante. Utopia é imaginar alunos conectados e comprometidos com o saudável e pleno exercício do conhecimento.

Quais das reengenharias poderiam ser de implantadas em curto prazo?

Como obter recursos para implantá-las sem criar novos impostos?

Não perca a prorrogação do jogo da educação...


(12 de abril/2013)
CooJornal nº 835


Ângela Maieski é professora graduada em Ciências Sociais
RS
www.amaieski.wordpress.com
 
amaieski@sinos.net

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