Antonio Júnior


LORCA


O imaginário poético do granadino Federico García Lorca (1898-1936) não sobrevive de tópicos exóticos como as touradas, o flamenco, os ciganos, e mesmo assim o seu autor é o poeta mais popular da literatura contemporânea de Espanha, superando nomes como Antonio Machado, Rafael Alberti ou Juan Ramon Jiménez. Quase setenta anos após sua morte, o poeta de Romancero Gitano (1928), revelado claramente os segredos de sua homossexualidade e seu assassinato, segue cativando a sensibilidade de milhões de pessoas em todo o mundo. Filho do pessimismo de uma geração literária, em somente dezoito anos escreveu obras tocantes como Diván del Tamarit (1935). Poeta, desenhista, dramaturgo, ensaísta e músico, é o símbolo da chamada geração de 27, um grupo bastante atuante que recuperou a poesia popular, descobriu o modernismo e introduziu o surrealismo e outros ismos na vanguarda européia da época. Eram companheiros de Lorca, Cernuda, Falla, Alberti, Neruda.

Filho de um rico agricultor - patriarca de uma família grande e com sensibilidade para a música, que sempre aceitou o filho como artista - , Lorca teve uma passagem brilhante na Residência dos Estudantes de Madri, onde foi estudar direito, e acabou por participar de leitura de poemas, performances e concertos, iniciando uma escrita compulsiva ao lado de nomes célebres como o cineasta Luis Buñuel e o pintor Salvador Dalí - com quem tinha uma espécie de namoro platônico, passando temporadas na casa dos pais do famoso surrealista em Cadaqués, junto ao mar da Costa Brava.

Popular, divertido e charmoso, sua entrada no teatro aconteceu em 1927 com a ajuda de Margarita Xirgú, uma conhecida atriz catalã, que levou a cena (com cenário de Dalí) seu Mariana Piñeda em Barcelona. Foi um êxito. Tal como o livro de poemas Romancero Gitano. Lorca, vivendo uma grande crise sentimental nesta época, mudou-se para Nova York em 29, disposto a aprender inglês e com o secreto empenho de encontrar-se a si mesmo. Desta passagem de oito meses, surgiu um dos mais fortes poemários da literatura em espanhol: Poeta em Nova York (1929). O contato com este novo mundo, que simboliza o progresso e o futuro, será determinante em sua obra, ainda que suas declarações sejam duras: "Arquitetura extra-humana e ritmo furioso, geometria e angústia. Sem dúvida não existe alegria neste ritmo de vida". Era o ano do crash da bolsa: "Espetáculo de suicidas, de gente histérica e grupos desmaiados. Espetáculo terrível e sem grandeza". Em Nova York, Lorca descobriu o sofrimento e a beleza da raça negra, não conseguiu aprender inglês e buscou a alegria e os prazeres carnais, expressando mais livremente sua homossexualidade em Cuba, onde foi recebido como ídolo. 

Em 33-34 viveu em Argentina e Uruguai, onde suas peças teatrais eram exibidas durante meses em imensos teatros. Ao voltar em 34, encontrou uma Espanha ainda mais intolerante, uma Espanha que matou o poeta porque era republicano, antifascista, amigo de socialistas e homossexual. Havia despertado a ira da igreja com Yerma (1934). Foi assassinado numa madrugada de 36 aos pés de uma oliveira e ao lado de uma fonte, batizada pelos árabes séculos antes como Ainadamar (A Fonte das Lágrimas). Segundo uma das possíveis testemunhas de seu vil fuzilamento, obrigaram-no a caminhar, recebendo disparos nas costas. Lorca morreu caminhando. Outros dizem que meteram "dos tiros en el culo por maricón". 

A poesia de Lorca é vibrante e sombria. Tudo é escuro. A noite, a lua, a água dos rios, os olhos das ciganas, os cavalos, o amor. Era também um inventor de palavras. Utilizava a palavra "chorpatélico" quando gostava muito de alguma coisa. Buscando a pureza da fala popular, inventou novas palavras ou jogou com elas em funçao de sua musicalidade: chupaletrinas, espantanublos, uni-uni, dole-dole, meningotes, catalinetas. Ligado à terra e aos trabalhos do campo, simpático com os perseguidos, acreditava que levava no sangue os ciganos, os negros e os judeus. É uma compreensão que está presente em sua obra. Sua homossexualidade reforçou, sem dúvida, a apaixonada identificação com os perseguidos do mundo, com "os que não tem nada e até o nada é negado". E, também, com a mulher, vítima de uma sociedade machista.

Deixou tragédias puras da vida real (Bodas de Sangue, 1933; Yerma), escreveu dramas contra o autoritarismo (A Casa de Bernarda Alba, 1936; D. Rosita, a Solteira). Como poeta é capaz do lirismo intimista e atormentado de Diván del Tamarit e os Sonetos do Amor Obscuro como também épicos como Romancero Gitano. Considerado um dos poetas mais difíceis e cultos da literatura espanhola, concilia tradição e vanguarda, a força do sexo e da morte, o sacrifício e a fecundidade. Ligado a sua língua e a sua cultura, o seu poemário cresce com o passar dos anos como flores perfumadas, suavizando um implacável destino e uma breve existência.

de Barcelona
(outubro 2001)


Antonio Júnior, escritor e jornalista. 
Autor de Ficar Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém (1998)
Escreve para as revistas Go (Barcelona), Veludo (Lisboa), Simples? (SP) e é correspondente do jornal A Tarde (Salvador, Bahia). 
antonio_junior2@yahoo.com

http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm