Antonio Júnior



O MISTÉRIO DAS COISAS (*) -

Memória e Enigmas do piloto-escritor
Saint-Exupéry no Rio Grande do Norte



"Só com o coração é possível enxergar corretamente.
O que é essencial é invisível para os olhos"
(Le Petit Prince, 1943)


Ainda um dia, não muito distante, como tantos do passado, um sujeito alto, corajoso e de aspecto aristocrático, trabalhando como piloto da companhia aérea Latécoére (hoje Air France), que transportava correio aéreo entre a Europa e Argentina, pousou várias vêzes no Rio Grande do Norte, no campo de pouso no Refoles - nome popular que homenageia o corsário Jacques Riffaut, contrabandista de pau-brasil no século XVI. Aterrissava para revisar e reabastecer sua aeronave, e algumas vezes chegava a passar dias, buscando um merecido descanso. Encantado com o pôr-do-sol encandeceste visto das margens do rio Potengi, disse tratar-se do "mais belo do mundo". "C'est merveilleuse!", completou. Em O Pequeno Príncipe ele escreve: "Assim eu comecei a compreender, pouco a pouco, meu pequeno principezinho, a tua vidinha melancólica. Muito tempo não tivesse outra distração que a doçura do pôr-do-sol". Hospedado no palacete do comerciante português Manoel Duarte Machado, possivelmente conheceu o gigantesco e antigo baobá, localizado na rua são José, no bairro da Lagoa Seca, num terreno do anfitrião. O baobá, de origem africana, é uma árvore impressionante, que vive de 3 a 6 mil anos, e segundo o folclorista natalense Câmara Cascudo, é árvore sagrada, onde líderes e guerreiros eram enterrados.

Mais de uma década depois, em 1943, o mesmo piloto publicou em Nova York, O Pequeno Príncipe (Le Petit Prince), uma fábula lida por várias gerações, traduzida em 120 línguas e que leva a marca de ser o segundo livro mais lido de todos os tempos (vendeu 50 milhões de exemplares). O primeiro? A Bíblia. O livro conta a história de um piloto de aviação que sofre um acidente e cai no deserto, encontrando um garoto sensível que mora em um asteróide, chamado de B-612, e cuja maior preocupação são as grandes árvores que poderiam destruir o seu habitat. Para resolver o problema, ele viaja, trocando idéias com várias pessoas, animais e até com uma rosa vaidosa e frívola, inspirada na esposa de origem salvadorenha do autor, Consuelo, que escreveu Memórias da Rosa, contando a vida apaixonada do casal. A pequena história poética-filosófica tem a luminosidade solar e gigantescos baobás entrelaçados como símbolos marcantes. Outros elementos que aproximam esse livro da cidade do Natal são os delicados desenhos do próprio autor representando falésias, as dunas, o vulcão (há na região o extinto vulcão Cabugi), o elefante (o mapa do Estado do Rio Grande do Norte é semelhante ao animal) e a estrela (símbolo da cidade do Natal). Seriam coincidências? Nem todo mundo acredita em coincidências. Na terra do sol e das dunas, Saint-Exupéry conheceu jornalistas, escritores e intelectuais, muitos apresentados pelo popular companheiro Jean Mermoz (1901-1936), um jovem francês que convivia cordialmente com a sociedade natalense, cortando o coração de muita gente com a sua beleza. Mermoz é nome de rua na capital potiguar, e desapareceu no oceano na sua 23º travessia do Atlântico, a caminho de Natal.

Antoine-Marie-Roger de Saint-Exupéry, nascido em Lyon, em 1900, de família rica, passou parte da infância em um castelo, foi um dos pioneiros da aviação comercial e serviu o exército francês como piloto de guerra na luta contra o nazismo, desaparecendo em vôo secreto de reconhecimento entre a Provence e o sul da Córsega, em 1944. A causa da morte permanece um enigma: ataque inimigo, perda da rota, falta de combustível ou suicídio? Esteve também na guerra civil de Espanha e, por engano, ia sendo fuzilado pelos republicanos. Completou missões perigosas pelo Mediterrâneo, pelo Saara, pelos Andes, sofrendo muitos acidentes e, inclusive, sérias fraturas cranianas. Durante essas missões, refletiu profundamente sobre a solidão, a amizade, a liberdade e o significado da vida. Como jornalista, trabalhou na Espanha, Rússia e Alemanha. É autor de obra curta, que teve sucesso imediato, celebrando a fraternidade e os valores tradicionais do humanismo. Foi adaptada para o rádio, o cinema e desenhos animados. Jean Renoir tentou filmar Terra dos Homens, e não conseguiu, mas Stanley Donen fez, em 1974, a vazia versão cinematográfica do Pequeno Príncipe.

A fama do autor pode resumir-se em cinco ou seis livros, entre eles, Correio do Sul (1929) que combina amor, vôos e o deserto exótico; o intenso e dramático Vôo da Noite (1931); Terra dos Homens (Grande Prêmio de romance da Academia Francesa, 1939), que fala da gradual metamorfose interior de um piloto; Piloto de Guerra (1942), uma meditação luminosa sobre o destino da humanidade em guerra, e Carta a um Refém, (1943). Um ano antes de sua morte, escreveu o seu livro mais popular, que geralmente é confundido com uma simples criação para crianças: O Pequeno Príncipe. Na verdade, é um livro profundo, escrito de forma enigmática e metafórica, e é a sua realização suprema, que une e dá coerência a toda a sua obra. Um diálogo íntimo com um leitor desconhecido. Muita gente, em passagens desse livro precioso, tem a impressão de que o autor escreveu aquilo exclusivamente para eles. Postumamente, surgiu Cidadela (obra inacabada), Cartas à sua Mãe (1910-44) e Um Sentido para a Vida (1956), uma coletânea de artigos e reportagens.

De sua passagem por Natal, entre 1929 e 1931, há uma entrevista feita pelo jornalista Nilo Pereira, do Diário de Natal. O fotógrafo italiano Rocco Rosso, encarregado do Setor de Rádio e Comunicação da Latécoére, bateu fotos do escritor nas terras potiguares, e essas fotos ainda existem. Testemunhas vivas lembram das subidas de Saint-Exupéry, chamado de Zé Perri pelos moradores que não conseguiam pronunciar o nome francês, na torre da matriz para apreciar a luz do sol sob a cidade, como alguém que vê sinais no crepúsculo. A luz vista em estado febril, que percorre o escritor como espamos, cascatas de luzes que ainda não foram inventadas, sóis sentimentais se dissolvendo. Alguns chegaram a possuir um autógrafo do aviador, na época uma profissão considerada heróica e charmosa.

Quiçá por ser mais aventureiro que escritor, Saint-Exupéry é um homem que continuamente parece estar se reinventando: piloto, viajante, desenhista, humanista, talvez espião e fotógrafo são algumas de suas facetas. Fez 7 mil horas de vôo e patenteou dezenas de invenções para melhorar a qualidade dos aviões. Em Natal ele chegou a fotografar a paisagem e seus habitantes, expondo-as no Grupo Escolar local (atual Fundação José Augusto), exposição visitada, entre outros, pelo conhecido professor natalense Alvamar Furtado de Mendonça. Segundo Diógenes da Cunha Lima, um poeta potiguar e expert na história do seu Estado, essas fotos nunca mais foram localizadas. Ele também alerta para um trecho do livro póstumo, Cartas à sua Mãe, onde Exupéry praticamente diz que "Dacar é bem feia, mas o resto da linha, uma maravilha". O resto da linha começava em Natal. Uma cidade de decisiva vocação para a aeronáutica, onde muitos dos seus habitantes, envolvidos com as atividades do campo de aviação dos franceses, trabalhavam como lanterninhas (segurando lampiões nas noites de pouso das aeronaves), mecânicos, telegrafistas ou cozinheiros. Alguns ainda se lembram do ruído dos aviões quebrando o silêncio quase absoluto que reinava no Refoles e fazia todos olharem para o céu.

Antoine de Saint-Exupéry era chamado pelos amigos de Saint-Ex. Best-seller em vida, chegou a ver o lançamento do perfume Vol de Nuit, da Guerlain, em sua homenagem. Foi amigo de Maurice Maeterlinck, André Maurois, André Breton e Greta Garbo. Nos 50 anos de sua morte, em 1994, sete biografias francesas analisaram a sua personalidade, sendo retratado como um ciclotímico, um piloto desastrado dado a quedas, um extravagante, um herói. No seu centenário, comemorado no ano retrasado, vimos o seu retorno retumbante em documentários, revistas literárias, palestras e debates. Nunca foi um desses escritores ambiciosos que pretendem provocar a inveja até o fim dos séculos. Sempre lhe pareceu suficiente ser um piloto cortando os céus. A literatura, para ele, era antes de tudo um fato natural. E pilotar aeronaves, um assunto fundamental. Era um viajante que gostava de viajar. Viajava para aprender, para conhecer o segredo essencial que está presente nos seres humanos. Seus textos, desde jovem, adquirem forma de confissão, anotações, cartas, diários, cadernos, notas de viagem, redação de explorações, de descobrimentos, em que introduz paulatinamente sua impressão pessoal, as vezes abstrata e simbólica.

É um extraordinário caso de escritor de grande sucesso. Na França, existem restaurantes com o nome de suas novelas e no Japão há um museu dedicado ao escritor. No Brasil, pode-se escutar O Pequeno Príncipe na voz de Paulo Autran e com trilha sonora de Tom Jobim. Até hoje é bastante popular. Em realidade a sua influência, aberta ou subterrânea, nunca cessou. Figura entre os grandes escritores da literatura francesa, e sua obra capital, O Pequeno Príncipe, continua seduzindo crianças e adultos. Uma sorte de prosa que combina memória, reflexões, narração, fábula, filosofia, descrição etnológica, poesia, algum surrealismo e uma espécie de proposta ética. Ele mistura experiência e ficção, contribuindo com o espanto moral destas experiências na sua visão de uma civilização à beira do caos. Não é menor o seu talento pictórico, e suas ilustrações incansavelmente imitadas provocam impacto. Saint-Exupéry viveu uma vida que nós podemos reviver, lendo-o. Esse vínculo entre obra e vida é raro.

Não é nenhum desatino que a Saint-Exupéry se siga lendo. Num grande ensaio, Edmund Wilson escreveu que só nos resta neste mundo corrupto fazer nosso trabalho bem feito, e Saint-Ex o fez. Não se intimide quando uma candidata a miss-qualquer-coisa confesse que O Pequeno Príncipe é o seu livro de cabeceira, ou um crítico mais rígido não o considere um autor sólido. A literatura de Saint-Exupéry é única e fundamental. Uma parábola sobre a vida humana através da descrição da solidão do piloto no meio da tormenta ou da noite. Não só porque se sustenta numa linguagem própria que impõe suas leis. Fundamentalmente porque, como os grandes escritores viajantes e misteriosos, como Joseph Conrad, como Robert Louis Stevenson, como André Gide ou como Henri Michaux, convida o leitor a viajar por seus livros sem condenação, traçando observações poéticas unidas a uma experiência interior que se dilata. Saint-Ex "mordeu as estrelas". O mundo é cheio de correntes, relâmpagos e eletricidades ocultas, e ele surgiu no Rio Grande do Norte como um lampejo, um cometa. É necessário que Natal compreenda a importância desse visitante ilustre e divulgue honradamente sua trajetória local. Afinal, não deixa de ser extraordinário como as coisas se iluminam com o correr do tempo. Eu, avistando a vasta extensão das mesmas dunas vistas pelo autor francês no século passado, analiso-o . Espio, condenso seus sentimentos. No silêncio desta tarde em que escuto meu coração bater, o reconheço. Mas quem foi realmente ele? Quem?

(*)do verso de Diógenes da Cunha Lima: "No mistério das coisas / O azul repousa".


de Natal (RN)

(06 de abril/ 2002)


Antonio Júnior, escritor e jornalista. 
Autor de Ficar Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém (1998)
Escreve para as revistas Go (Barcelona), Veludo (Lisboa), Simples? (SP) e é correspondente do jornal A Tarde (Salvador, Bahia). 
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm