04/05/2002
Número - 257


Antonio Júnior



PASOLINI: UM CORAÇÃO VALENTE


A primeira vez que vi Teorema (1968), no cine-clube do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, tinha dezessete anos e economizara durante uma semana para pagar a sessão. Surpreendeu-me a força que manifestava, irreverente e mística. Um filme sem repouso, capaz de todos os extremos. Pareceu-me extraordinariamente livre, e de todo ele vinha uma poesia, uma energia constante. Fiquei desassossegado. Isto dito assim pode parecer um tanto enigmático, mas confesso que não é fácil exprimir o sentimento que me ocupou. Quis saber detalhadamente toda a trajetória artística e existencial do diretor da obra e de sua luminosa estrela, Silvana Mangano. Era um garoto tímido, desconfiado, receoso de incomodar o próximo com minha ignorância. Fiquei por ali, folheando revistas e lendo recortes de jornais, até que um senhor gordo, bisonho, de gravata borboleta, percebeu o meu desespero interior e ensinou-me: “O realizador, Pasolini, foi também um bom e audaz poeta”. “Foi? Já morreu?”, perguntei. “Era veado. Mataram-no por isso”, sentenciou. Na manhã seguinte, corri para a livraria mais próxima do pensionato onde vivia naquele verão de descobertas, e encontrei Os Rapazes da Vida (Ragazzi di Vita, 1955). Roubei discretamente o livro, pois não podia pagá-lo. Assim conheci Pasolini e nunca mais o abandonei.

Desde a sua trágica morte, aos 53 anos, toda a vida e obra deste poeta, é julgada como uma espécie de preâmbulo do seu infeliz fim. Convertido nos anos sessenta em um dos mais polêmicos ícones do anti-fascismo, a controvérsia impede com freqüência examinar o que há detrás do escândalo sanguinário: um dos mais valentes e sinceros criadores do século XX, que realizou obras memoráveis no campo cinematográfico, na poesia, na narrativa e na crítica jornalística. De crenças ideológicas e personalidade cheia de contradições, Pier Paolo Pasolini (1922-1975) nasceu em Bolonha, onde passou infância e juventude, combatendo furiosamente a degradação social e cultural, o capitalismo, o catolicismo, os políticos, os críticos literários, e muitas vezes ele mesmo. Denunciou o processo de massificação pós-Segunda Guerra e o naufrágio do indivíduo, cujos valores humanistas são até hoje massacrados pelos meios de comunicação, especialmente a televisão.

Filho de um rígido tenente de infantaria e uma mãe dedicada, Pasolini viveu intensamente o campo, que marcou-o profundamente e foi usado como modelo de uma Itália autêntica, contrapondo-se à sociedade de consumo contra a qual se revoltou como um pregador num mundo conformista. Tornou-se anti-fascista lendo Rimbaud. Escreveu as primeiras poesias em dialeto friulano, publicando Poesie a Casarsa (1942). Apoiou a resistência e as lutas políticas dos trabalhadores agrícolas contra o latifúndio. Nessa época, os anos 40, sobrevivia malmente com um magro salário de professor do ensino secundário e sua vida intelectual só evoluiu com a ajuda do autor de O Jardim dos Finzi-Contini, Giorgio Bassani, que levou-o para trabalhar no cinema, onde inicialmente escreveu uma série de roteiros, destacando-se em obras delicadas de Valério Zurlini e Mauro Bolognini.

Em Roma, arrancado de suas raízes, sente falta da natureza e do seu espaço natural, tornando-se mais consciente da miséria e do desengano. Sua poesia, um exercício de autoconsciência, expressa um estado de ânimo dominado pela decepção: decepção por uma revolução política, social e cultural prometida e jamais executada. Vem daí uma espécie de sombra melancólica que paira sobre toda sua obra. O avanço do Estado capitalista arrasta-o aos subúrbios habitados por prostitutas, miseráveis, desempregados e marginais. Ele assume o papel de testemunha da pobreza e da decadência da sociedade italiana. Em 1955 funda a revista Officina, que é proibida quatro anos depois ao satirizar o papa Pio XII, e publica o primeiro grande sucesso literário, Os Rapazes da Vida. Em 1957 ganha o prêmio Viareggio de poesia com As Cinzas de Gramsci (Le Ceneri di Gramsci), confirmando-se como poeta comprometido, militante. Dois anos mais tarde, lança outro romance, Uma Vida Violenta (Una Vita Violenta), o segundo painel realista dos moços de periferia das grandes cidades industriais, que seriam tema também do seu primeiro filme, o belo Accattone – Desajuste Social (Accattone, 1961).

Apostando num universo de anti-heróis, sem deuses, sem piedade e sem esperança, o aldeão queimado de sol e inconformado, era criticado também por não disfarçar seu homossexualismo, embora não fosse livre de um sentimento de culpa torturante, e celebrou-o na poesia, na prosa ou em filmes fundamentais como o já falado Teorema (1968), onde um atraente desconhecido (Terence Stamp) invade o cotidiano tranqüilo e confortável de uma família burguesa, seduzindo-a, incluindo no lote o pai industrial (Massimo Girotti). Para Pasolini, o poeta grego Konstantin Kavafis era um dos maiores da literatura moderna pois encarna a própria liberdade sexual, em contraste com outros reprimidos, como Gombrowicz e Strindberg, que denunciou publicamente. Os ensaios críticos do intelectual italiano dirigiam-se principalmente aos jovens, para convencê-los de não temer o sagrado ou os sentimentos. Delatava as mentiras do progresso e a corrupção dos homens do poder. Colecionou inimigos por todos os lados e seus discursos inflamados e obsessivos, publicados no seu último ano de vida no Il Corriere della Sera e Il Mondo, anunciavam uma morte certa.

Herdeiro do neo-realismo de Rossellini, destacou-se imediatamente no generoso panorama cinematográfico italiano dos 60, brilhando ao lado de Fellini, Antonioni e Ettore Scola, com obras pessoais e provocantes como Mamma Roma (1962, com uma das melhores atuações da magnética Anna Magnani), O Evangelho Segundo São Mateus (Il Vangelo Secondo Matteo, 1964), Édipo Rei (Edipo Re, 1967) ou Medéia (Medea, 1970, protagonizado pela amiga íntima Maria Callas). Eu lembro-me perfeitamente de cada um desses filmes, de como reforçou o meu amor pelo cinema, e da mistura de horror e alegria após a projeção de Saló ou os 120 Dias de Sodoma (Salò o le 120 Giornate di Sodoma, 1975), visto nos anos 80. Pasolini é um dos maiores cineastas da história do cinema. Para o teatro, escreveu Calderón (1973).

Como Alberto Moravia ou Italo Calvino, dois notáveis escritores italianos da mesma época, Pasolini começou com o realismo para depois seguir por outros caminhos. Experimentou a estética barroca, os aspectos mítico-pagãos e a meditação religiosa, num experimentalismo lingüístico perpétuo. Em Poesia em Forma de Rosa (Poesia in Forma de Rosa, 1964), a poética pasoliana insiste na consciência edeológica ativa, na denúncia verbal. Expondo-se com impressionante vigor, Pasolini muitas vezes beira o panfletário. Os Escritos Corsários (Scritti Corsari, 1975), que inspiraram o Glauber Rocha do Abertura (TV Tupi), também responsabilizam a sociedade de consumo pela degradação da vida, da paisagem, da urbanística e sobretudo dos homens. Num deles, pode-se ler: “O consumismo é uma tragédia que se manifesta como desilusão, raiva, taedium vitae, apatia e, enfim, como revolta idealista, como recusa do status quo”.

Célebre e ameaçado de morte, questionou-se se valia a pena viver naquelas condições. Dizia que só quatro coisas unia-o ao mundo: sua casa, algumas obras de arte, uma paisagem e um desejo carnal que rejeitava. Na madrugada de novembro de 1975, encontraram uma massa de carne sanguinolenta num campo aberto da periferia de Roma. Os carabinieri reconheceram como o cadáver do poeta e cineasta Pier Paolo Pasolini, uma verdadeira voz do seu tempo, um homem que vivia no fio da navalha de uma paixão moral, estética e ideológica. Divulgou-se que havia sido assassinado por amantes suburbanos que tanto amara na vida como na arte. Nunca ficou realmente esclarecido. Mas o que importa? O terrível foi o desaparecimento de um autor radicalmente independente, inquieto e puro como poucos. Ele queria com sua criação conquistar urgentemente o Bem absoluto e a justiça social. Algo impossível num mundo sem ética ou compaixão.




(04 de maio/ 2002)
CooJornal no 257

  


Antonio Júnior, 
escritor,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de 3 livros, entre eles Ficar Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém (1998)
Escreve para os jornais A Tarde (BA) e Tribuna do Norte (RN) e as revistas Simples (SP) e V-Eludo (Lisboa), além de sites em Lisboa, Londres, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia, São Paulo e Rio Grande do Norte.
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm