08/06/2002
Número - 262

 

 


Antonio Júnior



POESIA E VERDADE


Da sensibilidade nordestina para a poesia e da prática poética entre nós pode-se talvez dizer que existe uma desarmonia. Porém, cabe enfocar o assunto de outro ponto de vista mais radical: a poesia não comove ninguém. O satírico Gregório de Mattos, quando morreu, não era nada, ou quase nada além de um bufão banido que provocava os poderosos. Castro Alves, outro poeta baiano, defensor dos escravos, publicou apenas um livro em vida, Espumas Flutuantes (1870). Essa indiferença absoluta pela criação poética não mudou o suficiente com o passar das décadas, e nomes primorosos como Torquato Neto, Ferreira Gullar, Florisvaldo Mattos ou Sosígenes Costa, só para ficar na moderna poética da nossa região, são desconhecidos pela imensa maioria. Não há a preocupação da reabilitação, do reconhecimento de um grande artista ou de uma arte, como é tão comum em minúsculas cidades européias. A sociedade burguesa marginalizou o poeta e segue marginalizando-o, diríamos atualmente com mais propriedade: hoje não é vergonhoso não ter cultura, crer que arte é telenovelas ou axé music.

A miséria real de muitos artistas é uma brincadeira cultuada na mídia, é “quase” romântico ser poeta e não levar nenhum dinheiro no bolso. Perdido nessa fogueira de alienação está o sofrido zé-povinho, que precisa usar a criatividade para continuar vivo, não tendo qualquer oportunidade para a beleza poética. Afinal, num país a beira do caos econômico, onde o ofício de catador de latinhas tornou-se uma profissão como outra qualquer, como se pode exigir uma disposição intelectual e fôlego lírico? Os catadores de latinhas podem ser uma família completa, todos na luta diária de coletar o maior número possível de peças de alumínio para revenda. Como apresentar Leminski ou Hilda Hilst para esses guerreiros que vivem das sobras do lixo nosso de cada dia?

Nem mesmo a camada mais sorridente, a classe com algum sinal de esperança – falo dos universitários – consegue tirar o pé da lama da desinformação. Dou exemplo: buscando material para uma possível Oficina de Poesia (*), na biblioteca central da UFRN, numa seção com dezenas de volumes, não encontrei nada mais moderno que Drummond, Cecília Meireles ou João Cabral. Ou seja, para a UFRN a poesia brasileira parou seu trem na estação dos anos 50. E Ana Cristina César, Waly Salomão, Arnaldo Antunes ou Manoel de Barros? Nem uma poeta fácil e doméstica como Adélia Prado está representada por qualquer livro. Como tornar assim o Brasil uma nação interessada na poesia? De que forma divulgar a necessidade, a importância e o prazer da leitura?

Infelizmente, creio que o hábito da leitura constitui o maior obstáculo para a ascensão social e o poder pessoal no Brasil. Uma noite dessas, num jantar elegante entre figuras da alta sociedade natalense, notei que no apartamento do amável anfitrião não havia biblioteca e, a seguir, morri de tédio com a conversação aborrecida sobre viagens frívolas de turismo, cirurgias plásticas, receitas culinárias, dietas inovadoras e a infidelidade alheia. Todos os convidados eram jovens, bem-sucedidos profissionalmente, moderados e educados. E também insossos e robotizados. Já na Capitania das Artes, onde estive para informar-me sobre a nova lei municipal de incentivo a cultura, não só não recebi qualquer informação como fui tratado de forma insultuosa por uma dessas funcionárias que nada entendem de cultura e estão naquele posto por indicação de algum político. Como expandir os neurônios num país assim?

Vivemos numa nação com raros leitores sensatos. As pessoas – e não falo dos pobres sem notícias de Deus – não abrem um livro inteligente. Elas sabem que livros não ajudam a conquistar dinheiro, que os escritores estão num nível mais baixo que os apresentadores de televisão, os jogadores de futebol, os modelos ou os chefes religiosos. Como pode sobreviver a poesia nesse desprezo generalizado? Vivendo nos sonhos de uns poucos excêntricos. Sem qualquer proteção. Sem ter como beijar o coração dos que morrem de fome.

Se a sociedade burguesa ou os meios de comunicação não o fazem, o estado deveria estimular a criação poética. Goethe está aí, quase trezentos anos depois de nascido, e quem lembra dos prósperos e fidalgos da época? Todos os países civilizados incentivam e divulgam os seus artistas. É uma forma de buscar o melhor que há dentro de cada um de nós, ou o melhor que poderemos ser.


(*)Visões de Alguma Poesia Brasileira dos Últimos Anos – Proposta de um Bate-Papo.



(08 de junho/2002)
CooJornal no 262


Antonio Júnior, 
escritor,  jornalista e fotógrafo. 
Correspondente internacional
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm