29/06/2002
Número - 265

 

 


Antonio Júnior



A TEMPESTADE E A ALMA EM MARÍLIA PÊRA


O olhar da mulher atravessa o platô de filmagem, chegando a um tanque metálico cheio d’água no outro extremo da praça provinciana, e se perde no silêncio do horizonte sem árvores. Está com um texto numa das mãos, preparando-se para rodar uma cena do infeliz Tieta do Agreste. Nos arredores, Zezé Motta, curiosos e a voz de Carlos Diegues pedindo atenção. A atriz de poucos mais de 50 anos terá a difícil missão de encontrar um caminho próprio para a seca e algo cômica Perpétua, figura do universo amadiano, vivida tempos antes com talento e popularidade por Joana Fomm. O ano é o de 1995 e essa mulher que conhece o êxito no teatro e na televisão, também fez das suas no cinema: O Rei da Noite (Hector Babenco, 1975), Bar Esperança, o Último que Fecha (Hugo Carvana, 1982), Anjos da Noite (Wilson Barros, 1986), Dias Melhores Virão (Carlos Diegues, 1989). Caminhando entre técnicos e figurantes, perseguindo Sonia Braga para uma entrevista, não pude deixar de passar os olhos por aquela expressividade magra e magnética, sentada ausente, os dedos apertando o manuscrito. Não pude mesmo. “Lá está. Ela é uma deusa. Uma deusa de olhar perdido e reinando no silêncio. Ninguém a incomoda. É uma imagem inesquecível”, escrevi num bloco de notas.

Essa mulher que hoje enche a platéia com uma comédia musical inspirada no sucesso de Julie Andrews, Victor ou Victoria, é a mesma de sete anos atrás, depois de passar incólume pelas críticas impiedosas ao filme e ganhar os prêmios de melhor atriz do Festival de Cinema de Cuba e da Associação Paulista de Críticos de Arte. Nos anos seguintes, fez quatro novos – e bons! – filmes: Jenipapo (Monique Gardemberg, 1996), Central do Brasil (Walter Salles Júnior, 1997), O Viajante (Paulo César Saracceni, 1998) e Amélia (Ana Carolina, 2000). A sua presença soberana provoca singularidade. É uma atriz que reinventa a arte de interpretar. A prostituta Suely de Pixote – A Lei do Mais Fraco (Hector Babenco, 1980), é um símbolo perene da beleza do cinema nacional. Levou prêmios internacionais, inclusive o de melhor atriz pela Associação Nacional dos Críticos de Cinema dos Estados Unidos e chegou perto do Oscar. Em O Viajante, adaptação do romance inacabado de Lúcio Cardoso, supera-se como uma madura viúva de uma pequena cidade do interior mineiro, apaixonada por um desconhecido. Possivelmente não aceitei Central do Brasil em toda a sua exatidão, por colocar na cabeça que a amargurada Dora merecia a máscara de Marília Pêra. Não há dúvidas que Fernanda Montenegro é excepcional, mas repete-se como a Fernandona digna, seja pobre ou rica, má ou generosa, portanto creio que houve um erro de casting nesse filme, e as atrizes tiveram os papéis invertidos. É uma fantasia que uso para quando não quero pensar em nada sério. Imagino atores em determinados filmes que nunca fizeram. Em Abril Despedaçado (Walter Salles Júnior, 2001), por exemplo, pensei em Sonia Braga como a sofrida mãe nordestina, e todas as vezes que revi Toda Nudez Será Castigada (Arnaldo Jabor,1973), transformo num passe de mágica Darlene Glória em Odete Lara. São insatisfações de um cinéfilo.

O meu imaginário nunca substituiu Marília Pêra. É a maior atriz nacional, incluindo nesse lote o seu trabalho no teatro e nas telas grande e pequena. Nem mesmo Cacilda Becker apropriou-se dessa comoção frente ao talento original. A luminosa Cacilda é outra coisa. Resplandecente e estranho, assim vejo o universo dessa carioca nascida em 1943, filha de uma tradicional família de atores que trabalhava na Companhia Henriette Morineau. Marília passou a infância no palco, entrando em cena pela primeira vez aos 4 anos, na tragédia de Eurípedes, Medéia. Trabalhou muito tempo como bailarina, fazendo parte do balé fixo da TV Tupi do Rio, dançando em programas como o Grande Teatro Tupi, Teatrinho Trol, Espetáculos Tonelux e em musicais como De Cabral a JK (1959). As minhas primeiras lembranças dos seus olhos imperativos foram nos anos 80, nas densas minisséries Quem Ama não Mata (1982), de Euclides Marinho, direção de Daniel Filho, e O Primo Basílio (1988), baseado em Eça de Queiróz. No passado, havia carimbado sua presença em clássicos da história da tevê brasileira: Beto Rockfeller (1968), Super Plá (1969), O Cafona (1971), Bandeira 2 (1971) e Uma Rosa com Amor (1972). Tempos de Joana Martini, Shirley Sexy, Noeli, Serafina Rosa. Volta às telenovelas como a Rafaela da engraçada Brega & Chique (1987).

Vi Marília atuando ao vivo duas vezes. Na comédia de Dario Fo, Brincando em Cima Daquilo (1984) e no musical Elas por Elas (1989), onde se desdobrava em várias cantoras brasileiras. Em plena ditadura, causou polêmica com espetáculos rebeldes como Roda Viva (1968), sendo espancada por membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que invadiram o teatro onde a peça era encenada; Fala Baixo Senão Eu Grito (1969) e Apareceu a Margarida (1973), um colossal sucesso em que a abominável professora do texto de Roberto Athayde lhe rende o Prêmio Molière. A peça foi remontada em 78, 94 e 95. Em 1996 encarnou o mito Maria Callas em Master Class, dirigida por Jorge Takla e em 1998, com direção de Moacyr Góes, foi a prostituta Geni de Toda Nudez Será Castigada.

A poesia mapeia o corpo enxuto e o rosto de profundidades admiráveis como Kay Kendall, Rosalind Russell, Judith Anderson ou Katharine Hepburn. Em Brava Gente: A Cabine (2002), olha Antonio Fagundes com um largo sorriso enamorado. São índoles de uma história de amor. Nada parece inverossímil ou excessivo, Marília desenha um gesto cúmplice com o espectador. Eu me pergunto sempre porque não mais Marílias nas telas, pois desde a ingênua Rosinha de O Homem que Comprou o Mundo (Eduardo Coutinho, 1968) anuncia a luz de uma autêntica filha de Dionísio. Somente pela dubladora Marialva revi umas cinco vezes o fraco Dias Melhores Virão, de um diretor insosso, mesmo não entendendo o que Rita Lee e outros fazem na história. O mesmo aconteceu ao acompanhá-la em alguns capítulos como a vilã Custódia de Meu Bem Querer (1998). A Pupi de O Rei da Noite, também com Paulo José como no filme anterior, é outro presente dessa máquina de atuar. Paulo José e Marco Nanini são os únicos parceiros em cena não eclipsados pela atriz. Há uma química perfeita entre eles.

Rever Marília Pêra é essencial. Lembra tempestades, trovões, relâmpagos, chuvas, árvores ao vento, noites de lua cheia, vaga-lumes, flores exóticas. Ela pontuou minha infância de felicidades, como uma irmã mais velha que conta fábulas antes de dormirmos. Admirá-la é adentrar um mundo novo.


(29 de junho/2002)
CooJornal no 265


Antonio Júnior, 
escritor,  jornalista e fotógrafo. 
Correspondente internacional
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm