13/07/2002
Número - 267

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Antonio Júnior



UM FLUXO-PALAVRA


“Ó minha Graça, ó Vida de repente,
que loucura medonha e que alegria!”
(Jorge de Lima, Invenção de Orfeu)
 

A simples celebração da existência. A poesia que vem com ardor, quase verde-sumo. Esse mistério nas folhas, nas palavras, na ausência. Eu mergulho no silêncio, donde entro em contato com algo inexplicável. O corpo sem corpo avança com a aparência de uma lufada de um agudíssimo olhar. Então fecho os olhos e escrevo o que lembro na pele do que habita dentro de cada um de nós: “Sempre em nós, mesmo quando falo em mim”. Ah, o silêncio é, antes de qualquer coisa, um semelhante, um círculo de abstrações do bem e do mal. Aprofundando o cenário e a situação, sonhei que estava no mato, obstinado, sem livros ou histórias de amor, nem uma palavra escrita nem um inútil cigarro. O não usual, a terra inexplicável, o vivo. Os sons, as cores, os desenhos de luz. Os equinócios, as constelações, as centelhas. Uma terra onde comeria o que encontrar, dormiria com os insetos, falaria com as árvores. Ofereço-me, sim, ofereço-me, Tumulto Silencioso!. Eu acordo em certas noites crendo que por instantes surpreenderei um anjo. Ele fará um sinal para eu fica quieto. Sentirei o cheiro de alfazema e compreenderei tudo, inclusive os insossos sorrisos, o vazio insaciável, a tão-somente fúria. Eu tive que viajar, mudar a minha vida, para desaprender a vida que não olha nos olhos, guardar no arquivo morto as alegrias histéricas. Hoje eu me satisfaço, por exemplo, lendo poesia. Então leio para o silêncio:

Se o mais secreto de todos/lançar uma Palavra/sobre a imensidão da noite/qual o significado de tal conspiração?/Eu serei capaz de ver a queda da tal Palavra invisível
inundando as sombras e o vazio?/Será uma Palavra indelével em forma de enigma ou virá clara, definitiva,/pronta para ser absorvida por leitores solitários?/Se o mais secreto de todos/desconhecer a língua dos homens,/as letras, o alfabeto, a poesia terá a compaixão de confessar/a sua dissimulada ignorância?/E nós, os bichos sem juízo, o que faremos/com os confins do silêncio eterno?/A mágica do nada/injuria nossos corações./Os objetos, mais atentos do que os possessos, aguardam/sem ânsia a Palavra possível./Nada é necessário, nada, nem mesmo a/giratória espera dos objetos e dos homens./Mas se a Palavra febril despedaçar/untuosa, úmida, dissoluta? Quem será o responsável?/Quem poderá conter a salvação nenhuma?

(Rio Grande do Norte)

(13 de julho/2002)
CooJornal no 267


Antonio Júnior, 
escritor,  jornalista e fotógrafo. 
Correspondente internacional
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm