20/07/2002
Número - 268

 


Antonio Júnior



DENTRO DOS OLHOS, A INQUIETUDE
[PURIFICADOS]

“Tudo era silêncio e solidão”
(Camillo Boito, Beija-lhe os Pés e a Mão Bela e Branca, 1876)


01.
sim, a vida que ele conta para o outro no ônibus em movimento, pode ser considerada verdadeira por sua coleção de simplicidades singelas. fala de sua pessoa como um garoto que gosta de montar cavalos; recorda a viagem feita com amigos pelo litoral e de um filme, um filme banalíssimo, noting hill, lembrado apenas por ser o nome do bairro onde o pai que nunca conheceu mora. você chegou a assisti-lo? ele abre a boca ao perguntar, esperançoso, mostrando o aparelho dentário. entre os dedos, a história da condessa lívia e do lugar-tenente remigio ruz. quem é este desconhecido? como ultrapassar a distância entre nós? feliz, contempla o céu infindável, não percebendo a ameaça de um dilúvio.


02.
a cada noite transforma-se em gato ordinário e salta nos telhados alheios, com patas de veludo e odor absolutamente encarnado. quando joga-se no jardim da casa número 27, da mesma rua que habita, vê o dragão na beira da piscina. este baila cuspindo fogo e pisando em carvões em brasa. os corpos se comunicam. o felino extraordinariamente perigoso, come alucinado pétalas de orquídeas para não enlouquecer e acabar o resto dos dias enfeitiçado. um odor penetrante de desejo. uma nesga azul fura a densa nuvem libertando um céu profundamente azul-marinho. uma rajada de ventos, árvores inchadas como lamentos. “perdermos tudo um dia e seria inútil lutar”, ouviu certa vez.


03.
sombras de homens e das asas de morfeu, filho de érebo e da noite. o cotidiano como uma música permanente de letra enigmática e vazia. o pássaro noturno rasga o canto. “deus me guarde”, diz a mulher, procurando nos bolsos um cigarro que não existe – deixou de fumar desde que o corpo ameaçou dormir mais horas do que o necessário.

o que faria sem a noite e as palavras-personagens?
sem o silêncio que não quer morrer e grato pela sobrevivência?

sabe que os autênticos necessitam de solidão. há dias e dias por vir. o amor do próximo é quase impossível. qual é a sua história? o que está por vir? o que há lá fora? não lembra do passado, do brilho dos seus olhos ou da sua opinião sobre a verdade. o pássaro agourento pousará noutro telhado de outros bairros. ela abre o caderno manuseado e escreve “deus é incompreensível”. dentro dela florestas úmidas, mares perigosos e países distantes.


04.
o que se vê olhando através de gardênias amarelas? um corpo molhado falando das bachianas de villa-lobos. o dono dele, um lobo do mar, sacode os cabelos aguados e, paralisando os movimentos, observa a caranguejeira negra deslizar pelo muro de concreto. escorre um calor e as gardênias esticam suas pétalas como um eclipse, e nada se vê do encontro entre o homem e o inseto. o voyeur fecha os olhos voltando-se para um tempo de montanhas, cheiro de cacau e um rio na curva da estrada de chão: o pai graúdo estica o braço tornando-se caminho para a aranha-monstro de ficção-científica b. o pai ria, ria muito, mostrando os dentes amarelados pela nicotina de muitas décadas. naquele tempo, lembra-se bem, não havia avisos a ser decifrados, tampouco estremecimentos que alimentam a poesia.


05.
a quietude das coisas comuns. dias de semana: quinta, sexta, sábado. o jazz toca alto. um miles davis perdido nas dunas do bairro praieiro. tudo vibra, tudo brilha, tudo se incendeia. ele toma limonada pensando nos versos que serão deixados para trás. versos de toda a obstinação hospedados em cadernos, pastas, revistas eletrônicas, cartas, suplementos culturais. como se moverão esses versos sem os seus dedos de fantoches? descansarão eternamente no silêncio da indiferença? apura o ouvido para a melodia. o toque imortal que não se importa com as horas seguintes. apalpa a página branca, pensando em criar novos versos órfãos. versos que se alojarão em qualquer canto como as lagartixas gélidas. ele é outro. ele é o que não cabe nestas palavras. ele é a profunda incompreensão dele mesmo. será que a morte está próxima? deve gritar sem motivo aparente? não tem medo do que fala, pois custou-lhe aprender as palavras que usa. custou-lhe ouvir o som azul-aço da dor da carne, dos defeitos e esforços.


06.
as vozes que escuta, são sombras de verdade. seu apelido é “folha trêmula” e sempre soube que a tela da mulher de pernas abertas acompanhada por um imberbe mascarado, é o labirinto através do céu. mas não se incomoda. escondido por sombras roxas, come devagarinho a canjica e o pão sírio, tomando um café forte e amargo. estica os olhos até as duas figuras imóveis: a mulher balança a manta medieval vermelha e cospe no seu prato. “você é um nojento verme!”, grita com uma voz rouca. arranca uma das botas negras de saltos altíssimos, esticando o pé pequeno coberto com uma meia cor-de-sangue, que exala alfazema (ou seria resedá ou ainda baunilha?). ele defende-se com o garfo, agressivo, rosnando. “não poderás entrar na escuridão que leva ao mundo mágico”, sentencia a porteira perversa. nada responde. ficará o resto dos seus dias rondando a criação pictórica, aguçando o apetite de felicidade, e no menor deslize da vigilante, invadirá o paraíso proibido.


07.
o enorme quintal cheio de mamonas, que crescem ousadas formando pequenos oásis verdes. a amendoeira (ou sombrero de praia) toma parte da areia chupada de líquidos. em cada montículo da terra está enterrado um cadáver que um dia acreditou na felicidade. são mortos anônimos, vítimas de um serial killer nunca encontrado. o infinito do céu cerca ovalmente o território em forma de gaiola. uma entidade invisível lamenta as horas de vida tomando banhos de chuvas, nu, rolando no chão, separando as semente negras para os pássaros. os cães latem porque temem os demônios que ciscam por zonas de baixa generosidade, de incompreensão. os cães da terra não são solidários com os cães do inferno, mesmo que digam o contrário em filmes de terror. eles gemem, incomodados com a fúria desconhecida e fedorenta. o senhor-dos-ventos toca sua música única e a criatura que não pode ser vista por nossos olhos, baila uma ardente dança da morada do silêncio. lá onde o deserto mistura-se com a chuva e os calangos emprenham suspiros eróticos da boca de jovens ingênuos enganados pelos desejos humanos.


(20 de julho/2002)
CooJornal no 268


Antonio Júnior, 
escritor,  jornalista e fotógrafo. 
Correspondente internacional
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm