03/08/2002
Número - 270


 

 


Antonio Júnior



Jogos de Amor
1. OS AMANTES


para Aldo Dantas
 

Os escritores necessitam de um certo mistério, escreveu numa folha arrancada de uma revista, deixando a frase indefinida ao lado do corpo adormecido. “Existem poucas pessoas selvagens, porém existem muitas covardes”, diria Natanael ao lê-lo, conhecia-o perfeitamente. Arrumou as malas, perfumou-se, descendo as escadas em direção a outro mundo. A voz, a presença, o ciúme incontrolado, seriam exatamente o que ele procurava no amante e, mesmo assim, deixava-o depois de meses de convivência. Pensava que tudo estava salvo quando ele o beijava, tocando um desejo de explodir em centenas de pedaços sórdidos de carne. Naquela noite, antes de meter heroína no braço musculoso, Natanael levou-o até a banheira, sorrindo, afundou-se nas águas cheias de espumas, abrindo as pernas benditas, oferecendo o cu delicado como uma pequena flor. Anos antes, num prédio abandonado de um bairro industrial, calado, Bartolomé limpava as lentes da objetiva. Vinha um vento gélido da janela partida, a música pop-inglesa soava alto, e o escritor, nu, numa poltrona imensa, cobriu-se com um casaco de pele de ovelha. A sensualidade ainda era como um caminho sem fim. O seu amor, uma chispa febril constante e lúcida; não sabia ter calma e não conhecia nenhum repouso. Um estado agudo, delirante. Não deixava de olhar a Bartolomé naquele momento. Deslizou suavemente a mão, acariciando o seu cabelo. O outro respondeu a carícia, aproximando o rosto de expressão cínica. Havia nessa face angelical algo maldito, algo desconhecido, algo perverso. O mal do amado, sabia, nascia da sua incapacidade de derrotá-lo. Encontrou-o num bar com Felipe, um colega poeta, e ao vê-lo pela primeira vez soube que seus destinos se moveriam inconscientes e descontrolados. Passou a vê-lo ao acaso, como se estivessem unidos por um fio magnético, e numa dessas mentirosas casualidades, num cinema onde exibia The Pillow Book, Bartolomé sentou-se ao seu lado, abriu o cinto, puxou o pau do amante e chupou-o ferozmente, enquanto acompanhava Ewan McGregor entregando-se a uma bicha oriental na tela. “Deixa que eu faça uma foto sua?”, disse no último encontro. Era preciso se arriscar ao máximo. Abriu o casaco pesado e a câmara passeou pela nudez emocionada. O coração pulsava dolorosamente. Nunca mais o viu, mas uma frase ficou: “Nao creio na moral. A única moral é o vazio”. Passou meses sofrendo por sua ausência, e só deixou de repisar velhas verdades ao conhecer Jeremias num culto religioso. Ele, segundo disse, nascera em 1975, tendo no tempo em que passaram juntos, principalmente visitando templos e capelas, aproximadamente 23 anos, dos quais algo mais de vinte colado nas barras da saia da mãe autoritária. Jeremias não era religioso, mas temia as tentações, os pecados, as imundícies. Pensava muitas vezes no inferno, sonhava com ele, sentia que a qualquer momento uma porta secreta seria aberta e ele entraria num território de fogo e dor. Leu em algum livro que sonhar com fogo e sofrimento era um grave perigo, e este sonho repetia-se noite trás noite. Não pode ser, está enganado, decifra erroneamente este sonho, pois eu estou com você e não corre qualquer perigo, repetia constante. Possivelmente os bons espíritos estão sempre dispostos a ajudar a inocência ofendida, se conformava o beato não assumido. Num bosque, a caminho de uma capela que não conseguiam encontrar, o escritor beijou-o violentamente tirando sangue dos seus lábios. Uma ferocidade pronta para devorar uma infinita monotonia. Não havia nuance ou gradações no caráter do menino, repetia-se como um velho seriado de tevê muitas vezes visto. Beijou-o ainda mais, sentindo o sangue correr, e o namorado não se mexia, imóvel, de pé. Entao esfregou as mãos e chorou. O vento cortava entre as árvores que beiravam o rio. Pegou numa das suas mãos e o levou para dentro d’água, ao sol do entardecer. Mergulhou e passou, como um peixe perigoso, entre as pernas do seduzido. Jeremias aceitava aquelas brincadeiras sexuais contra a sua vontade, indiferente, longe do desejo, fora do seu alcance. Sentia-se insultado. O olhar, ausente, deu volta nas águas, como alguém procurando reconhecer o seu próprio quarto, certificando-se que tudo estava no lugar, que nada fora mexido. Tinha toda uma teoria acerca da disponibilidade do corpo, da amizade generosa e do apogeu espiritual masculino. Quando isto aconteceu, acreditou sentir a presença do diabo. “Eu falarei com ele. Não é a primeira vez que falo com o diabo”, disse com naturalidade. O escritor saiu das águas, acompanhando o monólogo incompreensível, baixinho. Uma cena que tinha tal aparência de verdade que não deixava lugar para maiores perguntas. A mãe de Jeremias, embora severa, levava a reputação de boa mulher; seu pai era professor de matemática. Um irmão mais jovem, Jasiel, que trabalhava de carpinteiro ou de eletricista, abandonou a família e nunca procurou visitá-los. Jeremias foi passar férias com colegas de trabalho, desaparecendo do cenário. Durante muito tempo nada soube dele, e a mãe passou meses telefonando pedindo que devolvesse o filho dela. Descobriu anos depois que Jeremias pregava a palavra de Deus numa praça pública de uma cidade vizinha. Não certificou-se. Era notável observar o resultado de relacionamentos inicialmente destinados à felicidade. Barlomé caiu nas mãos das justiças e quando o escritor foi visitá-lo na prisão, tempos depois do rompimento, não o recebeu. Um homem bonito, sarcástico, nervoso. Bartolomé sofreu grandes purações, pois não tinha amigos que o ajudassem, nem estudos para conseguir um trabalho honesto. Conseguia os favores de velhos “maricónes”, impressionados com o seu corpo forte, alto, de olhos negros felinos. A casa onde vivia não estava em bom estado. Caía em ruínas. Havia morado em outros lugares piores, viajara, dormia em parques. Se considerava incólume a tantas mudanças, jurava que resistiria a qualquer intempérie. Um dia em que beberam um pouco mais de uísque que o costume, o escritor anunciou que estava cansado da pouca seriedade dos seus propósitos, e que iria embora. “Pela minha experiência”, disse, “sao muito poucas as uniões desse tipo que resultam ser positivas”. Bartolomé nada respondeu e ele não perguntou o que passava por sua cabeça, que decisão tomaria. Não fazia perguntas, sabia que o amante preferia assim. Nunca falava do seu passado e nem ele perguntava nada sobre a sua vida, sua família, seus projetos. Procurava não sentir curiosidade pela sua solidão. O Diário Azul está em cima da mesa. Basta abri-lo ao acaso para surgir uma recordação, uma saudade. Não tem fotografias, todas se perderam numa inundação. Já não sente as águas correndo entre as pernas de Jeremias. Tampouco a expressão genuína de satisfação do rosto de Natanael. Ele o conhecera num final de semana numa fazenda de um amigo comum. Convidou-o para passar a tarde em sua companhia numa montanha apanhada pela Mata Atlântica. Ao entrar na mata, Natanael estendeu o seu corpo numa grande rocha e comeu tranqüilamente uma goiaba. Logo apertou a mão cúmplice e disse: “Vou levá-lo comigo para onde for”. O escritor mudou-se para o elegante apartamento na capital, onde havia todo tipo de revistas e jornais para folhear. Natanael deixava-o dias seguidos sem fazer nada, deitado no sofá, ouvindo música, como um concubino. Semanas depois o escritor acordou com um estranho ao seu lado. Tocou os seus pés, as pernas, o sexo. Percebeu um profundo mal-estar. O mundo parecia obscuro. Não era igual, não se sentia como sempre. Que murchara, que luz se apagara dentro dele, que magia perdera no esforço do amor? Procurou não olhar o corpo adormecido de Natanael, fingindo estar sozinho. Temia ouvir a sua voz. Quem seria ele? Natanael abriu os olhos e ele imediatamente meteu no rosto a máscara da inexpressividade, pensando que assim o parceiro não perceberia a sua angústia. O corpo outrora tão desejado, levantou-se, quase caiu, cambaleando. Os excessos consumiam-no. Com poucos meses juntos, Natanael estava pior do que nunca e padecia terríveis ataques de tremedeira. Permanecia na cama durante dezenas de horas e nada comia. Quando reconhecia o escritor, dizia com os olhos vermelhos e inchados: “Nao me deixe só”. Não suportou o sofrimento repetido, deixando-o através de um bilhete de despedida: “Os escritores necessitam de um certo mistério”. Na ronda da vida, as pessoas que encontrou não compreenderam os desenganos de que todos são capazes. Agora é um velho, e a velhice é um erro, um mal-entendido entre o corpo e o espírito, uma traição do tempo. Tudo já foi dito e sentido. Extenso na sua justa identidade, não vive de recordações nem tem a sensação de culpa ou de total incapacidade para a felicidade. O universo dos seus antigos amantes já não tem novidades, já o tem bem conhecido. O belo existe para ele, mas como destroços de sentimentos incoerentes. Inventou um idioma amoroso com regras ortográficas secretas e utiliza-o somente para o nada em que se esfumam os sentimentos. É uma língua morta, possivelmente utilizada por outros solitários. O Diário Azul não representa nada em seus propósitos perenes, é um sarcófago com palavras mumificadas. Prefere ler no idioma inventado que não compreende no seu todo. Nos dias de chuva como hoje, em que fica em casa por causa do mau tempo, exercita o aprendizado. Natanael, Bartolomé e Jeremias estão presentes nesta língua sem palavras. Sentado de olhos fechados, como um molusco, uma ostra para ser mais exato, ouve a chuva que envolve tudo numa despedida silenciosa.



(03 de agosto/2002)
CooJornal no 270


Antonio Júnior, 
escritor,  jornalista e fotógrafo. 
Correspondente internacional
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm