03/08/2002
Número - 270

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Antonio Júnior



O POETA QUE SABE VOAR


“(...) Com belezas naturais e artificiais de todos os tipos.
Palácios e jardins surgem do meio dos penhascos,
das cataratas e dos precipícios; conventos a alturas fabulosas,
uma vista distante do Tejo (...)”
 
(Lord Byron, Letters and Journals, 1898)


O dia está úmido em Sintra, esta cidade de jardins violáceos. Há no horizonte uma ternura e uma nostalgia um pouco amordaçadas. A luz do sol vai e volta, avivando de amarelo a assombrosa sensibilidade. Caminho lado a lado com a poeta que vende livros. Descemos a pé, ao longo da calçada. Ela é morena, silenciosa, o sorriso líquido e longínquo. Da rua inclinada patrulhada por plátanos, avisto com uma espécie de arrepio as muralhas do Castelo dos Mouros, as videiras nos quintais das casas de pedras e as torres medievais do Palácio Nacional. Eu nada mais posso descrever. Será imaginação? Sei que se chama Cristina Victória, assim meu incerto coração o diz; uma moça na flor da idade que admira a prosa enigmática de Maria Gabriela Llansol. Ela é de um tempo de rainhas, cortesãs e feiticeiras. É uma mulher que sabe voar, decifro neste provável único encontro. O amigo Rui Lopo tão transparente nos sentidos, acompanha-nos, falando de leituras favoritas. A poeta plácida, sem desenvolver o dom da linguagem, confessa estar à procura. Não pergunto qual a sua busca, ao olhar nos seus olhos vejo que sabe que a investigação não terá fim, incansavelmente lutando por algo de real. Mas, ai de mim! Não aproveito para perguntar o que é o verdadeiro, o que é o amor. Nem mesmo verifico se as palavras são mesmo símbolos mágicos. Deixo as perguntas para ela, noutra hora qualquer. Ela é o que não pode ser dito, distante de quaisquer frivolidades, como estrelas que brilham em paz. “Diga-me todo o azul do mundo inteiro”, quero pedir-lhe. É um momento de extraordinária compreensão, cercado de céu, de folhagem e de cheiro de alecrim. Eu pinto-o de azul, suavemente azul; ergo montanhas, e lírios inventam amáveis lembranças. Beijo-a, primeira numa face, depois na outra, junto à Estação Ferroviária. Nos anos seguintes (ou seriam horas?), trocaremos mensagens, como teias de minúsculas aranhas ao vento. Então convidará o meu mundanismo para o Jogo de 50 Perguntas. Eu darei a coragem e o espírito para esse jogo, pois afirmo que a poeta nunca saberá mentir. Minhas opiniões são efêmeras e não tem maior importância, mas Cristina Victória está aqui, ou estava; e isso é tudo. 

SE
Jogo de 50 perguntas

voz I
: corpo

1 Que é um corpo?
É um boneco que se gasta. Exatamente como qualquer boneco sintético comprado num supermercado, o corpo termina por ser esquecido numa cova escura pela criança que envelheceu . 

2 Que é uma criança?
Um pequeno demônio. São aborrecidíssimas as crianças, principalmente as choronas, curiosas, viciadas em televisão ou aceleradas. 

3 Que é um coração?
Uma invenção dos românticos, e como bom romântico creio que muita gente não tem coração. 

4 Que é uma chama?
É uma raça capturada inconscientemente pelos homens. Ela tem no ardor todas as suas necessidades. Mesmo habitando nossa própria alma, sua evolução superior é incompreensível para nossa vã filosofia.

 5 Que é um rosto?
É a expressão da personalidade. Existem rostos expressivos como o de certos atores, rostos sábios como o de escritores mortos e rostos enfermos como os da maioria dos políticos. Existem todos os tipos de rostos, alguns são apenas máscaras sem conteúdo, outros estão além do bem e do mal e, como os nossos, por vezes tornam-se irreconhecíveis, não são nossos.

 6 Que é um rosto livre?
É um rosto sem sulcos de nervosismo, autoritarismo, histeria, ansiedade ou melancolia. Sem necessidade de artifícios, verdadeiro em sua plástica única. 


voz II
: arte  
 

7 O bel-canto acorda as vozes dos deuses, ou é a sua própria voz?
As vozes dos deuses não tem sonoridade, forma ou definição. São misteriosas como o silêncio ou a escuridão.

8 Qual é a forma da música? Triangular, circular, quadrada, outra, ou nenhuma? Tem cheiro, e volume?
Penso em cores quando ouço uma música, e quanto mais interessante ela for mais o trabalho de cor será elaborado, como um estudo prévio de um pintor. A Bossa Nova, por exemplo, é um gênero musical azulado, como certas telas impressionistas. 

9 A dança é de que cor?
Normalmente a dança não tem cor, é transparente. É uma forma de vento, de vendaval, de furacão. Mas pode ter todos os matizes do vermelho: encarnado como certos cravos jogados aos toureiros ou carmim como o vulto que baila da Pomba Gira, o apaixonado flamenco cigano e o samba dos Morros. 

10 Um coro é uma forma de magistralidade?
Um coro é a imitação humana barroca do silêncio dos Anjos. 

11 Um flash de: uma pessoa / auto-retrato / paisagem / obra de arte: música / livro / escultura, etc....
Uma pessoa: a poeta Hilda Hilst sentada sob a figueira da Chácara do Sol falando dos vivos e dos mortos.
Auto-retrato: um homem que não desiste fácil, atado à esperança, que está sempre se reinventando.
Paisagem: As ruas de Fez explodindo em luz, cores, vozes e espiritualidade.
Música: Sempre e sempre a melancolia de Chet Baker.
Livro: Morte em Veneza, de Thomaz Mann. Perfeito em sua ode à finitude.
Escultura: As assustadoras, altas  e esqueléticas formas de Giacometti.
Filme: Viver por Viver, de Jean-Luc Godard. Nunca vi nada mais relevante numa tela de cinema.
 

12 Se não existisse a língua para falarmos uns com os outros, como faríamos?
Os olhos seriam (não são?) a fonte fundamental  de comunicação. 
 

voz III: política  


13 Como seria o conhecimento da Árvore se não tivesse aparecido a serpente?
A sabedoria é uma forma de felicidade. Ela sempre se apresenta sob diversos personagens. Se não fosse a sedutora serpente, poderia ser um chá das próprias folhas da Árvore do Conhecimento que revelaria um novo mundo ou um inseto que habita suas raízes que com a picada transmitiria a seiva irreverente que corre na própria Árvore. Hoje já não há grandes autores, grandes poetas, grandes pintores, já acabou de vez, mas a sabedoria sempre desponta numa ou noutra criação.
 

14 «(...) os deuses da Grécia morreram?[1][1]»
O passado é um sonho. Ao nos lembrarmos dele, a imaginação faz questão de estar presente, modificando-o. E quanto mais lembrarmos do que passou, mas diferente será do que foi um dia real e hoje é só sonho. Os deuses do Olimpo estão mortos, sentenciaram os cristãos. Mas os cristãos mentem e subornam como os políticos. Traem dia a dia o próprio Jesus Cristo. Não vale a pena levá-los a sério. Como recordar Diana, a Caçadora ou o belo Apolo, o Guerreiro? Lembrando dos painéis épicos que estão nos museus? Não sei se os deuses de Homero estão mortos, talvez somente não saibamos reconhece-los. 

15 A morte une ou separa?
De uma certa forma, une. Não se sabe o que virá depois desta imagem virtual, mas os conceitos serão distintos, se houver conceitos, e a forma já não existirá, já que não será possível o sólido. O Nada se funde além dos desejos humanos. 

16 A vida e a morte são duas faces do espaço-tempo ou há mais faces?
Creio que sou todos os homens que morreram antes. Todos somos. Portanto é difícil separar o que foi, o que é e o que será. Tudo é. As transformações são múltiplas e interligadas, como fios no espaço-tempo indo e voltando, sem princípio nem fim. 

17 Há oposição entre amor físico e amor platônico?
Viver sem amor é impossível, pode levar-nos à derrota existencial e ao que há de mais grotesco, o ódio. O importante é amar e ser sincero com o amor exercido. Se há o contentamento do platônico ou o desfrute do físico são símbolos do êxtase que não necessariamente se opõem. 

18 A alma e o espírito têm sexo? São corpos, visíveis ou invisíveis?
Têm sexo. São hospedeiros da vida. Sem escolha, acasalam corpos, garantindo o movimento sensível às vezes por décadas. É como um vício. Uma flor carnívora que não resiste a insetos.

 19 Como pode o homem ser ao mesmo tempo inteiramente corpo e inteiramente espírito?
Não sei se somos inteiramente corpo ou inteiramente espírito, ou “inteiramente” duplo. A mente guarda segredos não percebidos. 

20 É-se treinado para ser cínico e parecer sincero ou esta afirmação é um exagero?
Não é exagero. As pessoas nem mesmo conseguem sustentar um olhar, e quando o fazem, é opaco e desditoso. A falsidade é quase um carimbo oficial. É a marca do gentil-homem. Compreensão, graça, loucura, sonho, poesia, são páginas de um livro abandonado, quase proibido.

21 É possível a harmonia entre a arte e o comércio, a liberdade e a política, o pensador e o desportista?
Tudo é possível, embora creia que não estamos num milênio em que os homens se preocupem com a harmonia; pelo menos a maioria de nós. O que vale é o salve-se quem puder. É uma época difícil, enferma na sua cobiça e mesquinharia. 

22 É concebível um mundo sem poder - sem dominadores e dominados. Como?
Seria possível se o egoísmo e a vaidade se esgotassem no seu vazio. Mas nesse caos, onde nada é respeitado e tortura-se a sensibilidade até a mesma curvar-se à indiferença, continuaremos divididos entre os inevitáveis pastores, diretores, chefes, escritores premiados, papas, mulheres insatisfeitas, ídolos,  guerreiros e heróis. 

23 Eros e Agape são conciliáveis?
Segundo reza a tradição, sempre que há amor o avanço é feito de alianças. 

24 A Mente mente, ou não sabe que mente?
A mente mente
e não sabe que mente.
Sabe que mente
e não mente.
A mente que não mente
pode estar mentindo na sua lucidez.
O que sabemos, nós?
 

25 Se não houvesse medo como seriam as pessoas?
Não creio que o medo seja rigorosamente necessário, mas temo que sem o medo a imponência e a rigidez do homem se evidenciariam, e flechas envenenadas seriam lançadas diante de qualquer alvo contrário aos nossos valores. 

26 Grito, e Culpabilidade, que imagem lhe sugere?
Tomados pelo abandono,
meninos de ruas
surgem como musgos nos semáforos.
 

27 Qual é a qualidade mais importante num ser humano?
A fascinante riqueza da generosidade. Ela é um luxo da alma. Ser generoso é ser livre das pequenas posses e ciúmes. 

28.Ser perfeito é o mesmo que uma pessoa tornar-se nela própria?
O perfeito e o imperfeito não são perfeitos para nada. Não existe uma definição exata para o perfeito. O perfeito é muito particular. Para mim, uma figueira frondosa é perfeita. Uma figueira tombada é imperfeita. 

29 Os laços de parentesco são os mais duráveis de todos os elos?
É uma farsa um tanto gasta. Há mães incrivelmente sinceras, mas também irmãos e filhos indiferentes, corruptos, interesseiros. Só o amor vital perdura a união no seu entusiasmo. E ele, quando surge, brota inesperado, como uma orquídea no tronco de uma velha árvore. 

30 Qual é o maior ato de curiosidade que se pode ter?
Desejar enxergar os habitantes do Oculto .

31 E o maior ato de generosidade?
Relacionar-se com o próximo não como coisa sem essência, mas como coisa sem rumo, incompleta, estando alerta para quando este é tocado por surtos de desânimo ou é escravizado pela miséria, pela ignorância. Onde mora tal Anjo? 

32 O Belo serve a Bondade?
O belo sempre é bem-vindo, mesmo o belo puramente físico. Ele é como um cordial e refrescante abraço. Há uma sensação de bem-querer quando a beleza surge diante de nossos olhos. Os belos são uma espécie de missionários, mesmo quando horrorosos na sua essência e abusados em seus benefícios. A dificuldade está que as pessoas já não intuem a beleza e são servas da mídia inescrupulosa, voltando os olhos e o desejo para o que há de mais banal, soterrando a possível bondade da beleza.

33 O belo é igual ao bem, ou é igual ao sublime?
O belo é algo irracional, um relâmpago na paisagem acomodada. Não definiria como o próprio bem ou mesmo o sublime, está mais para uma descarga elétrico no próprio corpo. O belo sempre surpreende e desperta os sentidos. É como o cheiro para os animais.

34 Uma forma e um conteúdo para o amor.
Não vejo uma forma, e sim uma fórmula preparada com o mais puro favoritismo. É a nossa alegria mais terna. Só amando para aceitar os encargos e as exigências do amor, se não for assim o amor não existe, é um disfarce da paixão devoradora.O fracasso e a fama são irrelevantes, o importante é a sensação de amar e de ser amado. 


voz IV
: espaço


35
Comprar um par de sapatos pode ser um ato muito simbólico e pouco mundano. Porquê?
Pode ser um momento de artimanha do destino. Um sapato protegendo os pés que pisarão onde muitos passaram. Um calçado diferente para o que já se foi e o que se é, num ziguezague atemporal cheio de signos que se fundem através de um simples passo. 

36 A humanidade é vertical ou horizontal? Porquê?
É horizontal, rasteja como os répteis. O homem só não é um animal completo porque não conservou a inocência e a satisfação com as suas poucas necessidades e o meio que o rodeia. Mas rasteja como um bicho disforme, ilógico e inventado por uma mente sombria, contaminado por bactérias como o ódio, a cólera, o desprezo e a inveja. 

37 Os sentimentos e os pensamentos têm extensão?
São abstratos. Desenham-se em cores, palavras sem idioma, feixes de luz que caem forte e param de repente. 

38 Um labirinto de alegria e melancolia que paisagem criaria?
Tanto na alegria como na melancolia sempre resta a esperança. São direcionamentos do espírito, radicalmente opostos, que freqüentam o mesmo curandeiro: a esperança. E ela, virtuosa, inventa fábulas, inventa poemas, inventa caminhos. 

39 Se ouvisse o centro das árvores pensa que teria uma relação diferente com elas?
Eu não me levo muito a sério nem levo muito a sério as pessoas. Creio que se levar muito a sério é ridículo. Levo muito a sério as árvores. Ouço o centro delas. Apaixono-me por elas. Tive encontros fundamentais e fui ajudado amavelmente por algumas delas. Estou em Natal desenvolvendo projetos porque abracei logo ao chegar um gigantesco Baobá local e ele aceitou-me como um protegido.
 

40 O mar fala?
O mar fala ao entardecer e adentra a noite com uma conversa harmoniosa. Muitas vezes canta como índios nas matas de outros séculos. O mar também pode ser silencioso, mudo, surdo, não falar nunca. São os mares que não mais nos querem. Conheci alguns mares assim. 

41 O vento ocupa espaço ou palavras?
Ocupa suspiros e outras sensações de ternura, mesmo os ventos mais violentos. Eu costumo falar com os ventos,

42 Só há interior? Só há exterior? Qual é a diferença entre o interior e o exterior?
Há diversas outras camadas que não captamos. Não há diferença entre interior e exterior, depende sempre de como se entende as coisas. O espírito para quem acredita nele está no interior do homem, mas o próprio espírito possivelmente crê que está além do homem, ou seja, ultrapassa o interior e até mesmo o exterior.  

43 Tudo o que vemos é ilusão?
Sim. Uma imponente ilusão coletiva, inclusive o próprio homem é um delírio dele mesmo. 


voz V
: tempo  


44 Qual é a coisa mais amável do universo, e a mais detestável?
Poderia decidir-me pela leitura e pela escrita, mas fico com as árvores, os rios. As mais detestáveis são os cruéis e os hipócritas.

45 Se houvesse uma criatura tão terrivelmente feia que, como o anti-narciso, não agüentasse olhar-se num espelho que logo morreria do choque - poderia ser uma alegoria do pobre, ou da destruição?
Uma alegoria da violência. Qualquer atitude infame como os conflitos bélicos, o massacre de indígenas ou um assalto de rua é uma monstruosidade absurda, bizarra mesmo.

46 É possível ser-se humano e não ter forma humana?
Sim. Creio que há muitas formas sem forma alguma que acompanha o processo humano e, sendo assim, se humaniza, mesmo sem chegar a manifestar-se de carne-e-osso.

47 Se ao nascer lhe dessem a escolher, desejaria ser redondo, oval, quadrado, ou informe?
Desejaria ser o esboço de uma criação de Leonardo da Vinci.

48 Preferia ser um corpo líquido, sólido, gasoso, existente ou por imaginar?
Seria interessante um corpo sólido aberto a outras oportunidades, como por exemplo, atravessar paredes, voar, banhar-se de fogo, não perder nunca a alegria de viver, visitar os sonhos por livre e espontânea vontade e permanecer nele o tempo que desejar.

49 Se chamasse a um animal - Nada -, acha que ele desapareceria porque se fundiria no Tudo?
Ele está sempre presente, mesmo sem esse chamado. O Nada faz parte das sombras e das luzes, é um animal ágil como uma águia, lento como um bicho-preguiça e aquático como os peixes. Existe o Nada de veludo e o Nada desnudo. Existe o Nada-Nada. É um bicho de mil cabeças e também sem cabeça como os cavalos enfeitiçados. Ele se transforma continuadamente em milhares de Nada, estremece em significâncias, e ao mesmo tempo é um único Nada estúpido e indiferente.

50 Que é o quê?
O que não pode ser.

 
A este jogo responde-se às perguntas que se quiser. Ou não se responde, olha-se.
Elas são feitas pelas vozes do corpo, da arte, da política, do espaço e do tempo.
Cristina Victória

(*este jogo é uma homenagem a todos os que viveram e interrogaram e me deram conhecimento para continuar à procura.)  

[1][1] Esta citação é extraída de Hölder, de Hölderlin, in Cantileno, de Maria Gabriela Llansol, ed. Relógio d’Água, 2000.



(10 de agosto/2002)
CooJornal no 271


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Correspondente internacional
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm