19/10/2002
Número - 282


Antonio Júnior




UM MUNDO CLARO, UM MUNDO ESCURO


para Paul Bowles
 

O cheiro de flores brancas, ainda molhadas da leve e rápida chuva da tarde, sufoca o casal em silêncio. Ele no cimo das escadas, abrindo a braguilha da calça justa. É alto e esbelto, as pernas longas e arqueadas. O olhar vago, de íris cinzentas. “Não se aproxime”, ele diz, afastando-a com a ponta dos dedos. Ela, num banco de madeira, a fisionomia pálida e uma expressão de quem tem sofre e não se quer dar por vencida. “Heinrich, não me decepcione”. O fio de voz mal se ouve reprimido pelo sino da vila que geme vinte e duas horas. A escuridão não esconde a figura masculina, masturbando-se com curtos grunidos, nem o corpo dela, imóvel. “O serviço está feito, vaca imunda”. Depois do dia na praia povoada por turistas russos, vermelhos e angulosos, aceitara o sorriso e a carona de uma miúda portuguesa. Guiando um automóvel velho, ela comoveu-se com os longos cabelos louros do estrangeiro e o livro de Sartre fugindo de uma mochila. Ela é uma estudante de filosofia, mora nas redondezas. Acabara de assistir a um filme que a impressionou, Os Viciosos. Os vampiros de Abel Ferrara refletindo sobre Deus e o pecado, citando Dante, Nietszhe e Baudelaire. O lado obscuro da natureza humana, o fascínio pelo mal, as atrocidades históricas como o extermínio de judeus durante a Segunda Grande Guerra ou a macabra atuação norte-americana no Vietnam. “Não sou nazi, venho de uma família anti-fascista. Quando Hitler subiu ao poder, o meu avô exilou-se voluntariamente na Suíça”, respondeu secamente o alemão. Núria sorriu, convidando-o para comer numa tasca. Ela escolheu sardinhas grelhadas. O cheiro enojou-o. Nada comeu, tomando um uísque duplo. Núria, enquanto comia, falou sobre visões, sonhos, sinas, presságios, quimeras, elegias, basílicas. Heinrich pediu licença e foi à casa de banho, vomitando. A felicidade dela, a infelicidade dele. As metáforas, a linguagem, os símbolos – tudo tão claro. As nojentas e intermináveis sardinhas. Núria de uma poética particular, de utilização perfeita das regras do jogo amoroso feminino, de impressões pessoais absolutamente curiosas: “A diferença entre o real e o irreal, Deus e o diabo, a liberdade e a escuridão, a dor e a alegria, o normal e o monstruoso, é tênue”. Atravessam a praça com o sol beirando as imaculadas chaminés do palácio. Na mochila, ao lado da Náusea de Sartre, uma garrafa de uísque e copos descartáveis. Saltam o muro escorregadio do parque, as botas duras e os saltos vermelhos finos pisando em lilases. Abrem caminho por entre brincos-de-princesa e azaléias, chegando ao banco de lírios brancos. Ele prepara o drinque, misturando-o com um forte calmante para caso de insônia. Não é uma atitude programada, é apenas uma aventura dos demônios. Apesar da escuridão que surge e do vento frio, ela está tranqüila, virando o copo de uma só vez e pedindo outra dose. Ainda não se haviam tocado. Ela conta da partida próxima para um centro espiritual na Provença, sudeste de França, no Castelo Sol, onde seria educada segundo os ensinamentos budistas. Ele em nenhum momento se interessa pelas confissões dela. Mal fala. Voltaria para a Suíça na manhã seguinte. “Pena não nos termos encontrado antes”, ela confessa, segundos antes de beijá-lo. O sabor de sardinhas da língua de Núria enche-o de solidão, de angústia, de raiva. E, enquanto as trevas os possuem, ele abandona-a. De todas as maneiras, antes de perder as forças, Núria compreende a vaidade, o embaraço, a inutilidade e as armadilhas do idílio. Não se decepciona, tudo havia terminado. Tal como um germe microscópico, Heinrich caminha pelo interior da mulher esmagada: as opiniões, as fraquezas, as aspirações e os sonhos. Coloca o uísque na mochila tomando antes outro gole, e segue seu destino, subindo por uma viga debaixo de um majestoso plátano e saltando o muro. À volta, o mundo com todas as suas coisas boas e más.

(do livro em Ficar Aqui Sem Ser Ouvido Por Ninguém)

 

(19 de outubro/2002)
CooJornal no 282


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Correspondente internacional
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm