30/11/2002
Número - 288

 


Antonio Júnior




OS NEGROS


para Caio Fernando Abreu, por uma noite enigmática
 

o coração é uma palmeira ao vento
que assobia estremecido de solidão,
envolto em sombras arroxeadas,
banhado pela lua furiosa,
invocando amores desconhecidos.

 
Há no desejo dele pelos homens algo de desamparado e melancólico, de uma pureza inefável. Em um mundo ideal, algumas situações poderiam ser regras. Necessidade humana básica, o ato de desejar alguém e ser correspondido torna-se um problema quando não é consumado. Glauber é diferente, provoca situações ambíguas e não pensa nas complicações que acarreta certas relações amorosas nem nos desencontros gratuitos. Ele está à espera de um homem que não vem nunca. Um negro de rosto fino, pernas longas, corpo magro, mãos macias. Conheceu-o na noite anterior, num bar no Beco dos Artistas. Foi em busca de antigos parceiros, nesta cidade pela qual iniciou a sua odisséia, e calado, olhando para o vazio, o viu, leve como um grande pássaro ao vento. O garçom parecia não ter nada a dizer, mas limpando a mesa, falou dos olhos penetrantes do outro, "os mais poderosos de todo este lugar". Enquanto falava escorregando os lábios roxos um no outro, Glauber imaginou o seu pau gordo e bem acabado saboreado pela sua língua quente. O seu corpo tinha um ar quente, parecia limpo e suave. Glauber sempre se surpreende com a beleza dos baianos, sensuais e ardentes como os seres dos sonhos de luz solar violenta. "Acredita num romance entre machos?", atacou. "Sei que uma relação bem-sucedida não depende do sexo dos envolvidos, mais da comunhão entre os dois", respondeu pausadamente o quase garoto, carregado de uma estranha emoção. Uma luz brilhou naquele rosto

Deveria começar relatando que Tertuliano marcou com Glauber às cinco da tarde, na praça da parte alta do Elevador Lacerda, e não veio. Ainda ontem, excitado com a promessa, Glauber caiu noutra boca carnuda de um jovem preto como a mais profunda das noites. Nesta festa, acompanhado da namorada, ele procurava-o enquanto a estrangeira branca ia ao banheiro ou ao bar. A cada fuga, a cada beijo, temia ser engolido, perdendo-se para sempre nas suas entranhas. Tudo o que vinha daquela carne parecia voluptuoso. Brincaram esse jogo toda a noite e Glauber começou a falar de si mesmo. Em voz baixa, contou ser professor de filosofia. Mas o jogo era arriscado: não proporcionaria a esperada compensação. Sabe das cabeças estreitas atrás desses rostos serenos. O infiel perguntou o que um filósofo pensa da questão racial. "No Brasil os negros são uma vanguarda erótica, musical, atlética e, no entanto, eles não têm uma postura cultural que mereçam", respondeu. Ele sorriu, contente com o argumento ouvido, e beijou-o ainda mais demoradamente. Era uma atração irreal, como num misterioso sonho de olhos abertos. O homem levantou a cabeça, passou a mão na massa escura dos cabelos e a voz dele o aquecia apesar do ambiente.

A luminosidade do sol faz-se subitamente mais viva. Invadido por um desejo misterioso, sente-se envolver por uma paz suave semelhante a uma folha seca levada ao vento. Vê o sol vermelho iluminando a Bahia de Todos os Santos. Marinheiros hasteiam a bandeira do Brasil e lanchas do povo rico beiram o Forte de São Marcelo. Turistas alemães fotografam os casarões coloniais em ruínas. Está completamente sozinho, como um gato vagabundo sem dono. É uma dessas meretrizes que dizem "Benzinho, vamos fazer amor?". Não, não é a verdade, mas não se importa com o que é ou pode ser na concepção alheia. Nunca vai a um encontro com a certeza de rever o amante, e quando este está à espera é uma surpresa, deixando-o insatisfeito com a fidelidade. Inventa nomes e histórias fictícias, convida-o para dividir o resto da vida com ele, marca inúmeros encontros e não aparece. Para ele, os homens sempre mentem, homossexuais ou não, faz parte da fragilidade escondida, da importância que dão ao sexo entre as pernas.

O afortunado não veio e Glauber sabe que irá procurá-lo no mesmo bar. Sentará, tomando camparis, fumando um cigarro atrás do outro, ouvindo Grace Jones ou Sade Adu e ao reencontrá-lo, perguntará: "Ainda se lembra de mim?". Tertuliano sorrirá docemente. Os outros parceiros da escuridão, acompanhados, circularão por todos os lados, conversando como galinhas, as roupas justas, as camisetas decotadas, os corpos másculos e a alma de estrela de Hollywood. Não se ajusta ao mundinho gay, vai para esses locais de caça e não conversa com ninguém, observa, fecha a cara incomodado com a mediocridade, imita mafioso italiano. Vê nele as sombras da miséria emocional, a globalização doentia e a falta de expectativas da juventude contemporânea. Quando lembra de Baldwin narrando a história de Giovanni, interessa-se por garçons de boa qualidade, e para ele estes são fáceis de encontrar em bares gays, pois seus proprietários misturam sexo e trabalho, como os empresários heterossexuais e suas secretárias.

São cinco e trinta e já não o espera. Num conto de Moravia, um homem charmoso numa ilha sofre por uma noiva que o abandonou. Glauber não sabe sofrer, já gastou a cota melodramática desta vida. Tudo lhe parece indiferente. O celular toca, é o amante da madrugada passada, pedindo desculpas pela situação inconveniente que o deixou dividido. "Eu quero minha gringa, estamos bem. Não digo que é a primeira vez que beijei um homem, mas não é habitual na minha vida. Eu trabalho com um deputado careta, sou assessor dele, não posso me expor, entende? Mas quero vê-lo outras vezes". Viu, pronto, a personalidade dele: o sujeito desajustado numa sociedade que não admite desajustes e, muito menos, perdedores. É para rir muito, mas admite que Victor Hugo está longe de ser uma bobagem. Sim, o nome do ludibriador é Victor Hugo. Marca para o dia seguinte, às 5 da tarde, na parte alta do Elevador Lacerda. Ele não mais estará na cidade, viajará logo depois do meio-dia.

Defende a posição que os homens mentem, são inocentes e cômicos, as mulheres é que levam a vida a sério, acreditam inclusive que podem ser proprietárias de um pedaço de carne disponível para muitos. Se freqüentassem as saunas ou as discos gays veriam seus pais, filhos, vizinhos, maridos e atores favoritos. Somente os políticos e os de cargos eclesiásticos são mais discretos, usam personagens, viajam para outras cidades, são assíduos dos anúncios sexuais de jornais. É por isso que a solidão feminina é maior, porque apostam em seres divididos, farsantes, sedutores. Ah, os homens são uns animais maravilhosos e o negro, o prato mais refinado e saboroso da culinária masculina. Este é o conceito sincero e radical de Glauber.

Há um resto de lua, dessa lua encardida. Caminha pela antiga e semideserta rua Chile, parando numa casa de sucos. Pede suco de cacau, observando o adolescente negro que prepara o pedido. "Você gosta de trabalhar aqui?", pergunta. "Não tenho nada melhor para fazer", diz. "Não iria embora para outro lugar?". Ele enche o copo com o líquido cremoso, sorri mostrando os dentes de marfim e olhando nos olhos de Glauber, responde: "Claro que sim. Sem nenhum problema. Só necessito da certeza de que teria trabalho". "Sua família e sua namorada não seriam contra?". "Eu não preciso estar colado com eles. Sou livre. Namorada a gente encontra outra, talvez até melhor". "Ela não sentirá falta do seu pau?". "Talvez". "Por que talvez? Ele é grande e você o enfia bem?". "Não saberia responder. Um dia, quem sabe, você mesmo saiba a resposta". Foi um diálogo picante, mas bastante sério, como dois vaqueiros no pasto, tragando fumo de rolo e tomando cachaça à beira de uma fogueira. Tomou o suco e pagou a conta. "Meu nome é Eustáquio. Jogava futebol e era dos bons, até que tive problemas no joelho. Todos do Cabula me conhecem. É só perguntar quem é Eustáquio Pezão, e dirão "foi o nosso melhor ponta-esquerda". Trabalho aqui até às onze da noite". Ri, contente, completando transparente: "Espere. Quero dizer também que sou poeta. Acredita? Antes de ir, ouça esta poesia": há na terra fértil uma consciência onipresente. / nela, o poeta enxerga o translúcido. / a terra move-se, desalinham fios / de inumeráveis matizes. / uma folha seca abandona um cajueiro / infestado de cruéis cupins. / a terra diz: "olhai o sublime!". / as baronesas em flor intoxicam de beleza / as águas do rio de minha dura infância. / um pequeno pássaro banha-se seguidas vezes. / a lagarta-de-fogo caminha, caminha, / por uma trilha sem fim. / a terra sabe todos os segredos, / são muitos os olhos. / a terra move-se, deixando escapar pelos ocos mínimos / formidáveis promessas de amor".

Na cabeça de Glauber, o belo Tertuliano, o garçom que não veio; o Victor Hugo que não podia se expor e agora um adolescente poeta impedido de jogar futebol, Eustáquio Pezão. Os homens não deveriam ter nomes, são tão iguais. Mesmo maduro, continua tendo fantasias excêntricas com eles. Certa vez imaginou uma grande casa cheia de celas num porão, habitat de estranhos encontrados nas ruas, acorrentados, e cada dia usaria sexualmente um deles. Passou dias elaborando minuciosamente tal loucura, inclusive preparando uma lista dos possíveis prisioneiros. Perversão acelerada com a leitura da biografia de um político influente que foi currado por sete bandidos numa prisão quando menor. Será por isso que ele é tão mau? Ou que é tão hábil?

Senta numa praça suja e recuada. Encorajado pelo silêncio, relembra detalhes íntimos dos últimos dias. A cada homem conquistado um mundo que desaparece quando se separam. São símbolos da pausa do tempo. Assustado, ouve grunhidos, como se um porco estivesse sendo estripado vivo. Segue os ruídos e, numa esquina, encontra um mendigo que se contorce e espuma no chão. Quer escapar, mas não consegue tirar os olhos dele. Insinuante como um réptil, entorta mãos e pés para trás, babando e revirando os olhos. Glauber tem medo, como se a vida fosse indo como um pêndulo sobre a sua cabeça. O celular toca. Tertuliano diz, "Fuja de satã, venha para os mistérios do bem". Sai correndo como um possesso, o coração na boca, a alma em chamas. Olha para o infinito do céu e vê pendurado no vácuo, como marionetes, os três negros: Tertuliano, Victor Hugo e Eustáquio Pezão. É uma visão enternecedora, singular e instantânea. Como numa fábula gótica. Como numa velha história bíblica. Ajoelha-se aos pés deles e se rende, chorando. Uma fina camada de noite se estende sobre os prédios envelhecidos e os corações decepcionados.


(30 de novembro/2002)
CooJornal no 288


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Correspondente internacional
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm