14/12/2002
Número - 290

 


Antonio Júnior




A IDENTIDADE DA IMPRENSA CULTURAL


Que os doutos me perdoem, mas a palestra do jornalista Juremir Machado da Silva, dia 28 último, no auditório do Centro de Ciências Exatas da Terra (CCET), no campus universitário, merecia chamada de primeira página e participação efetiva de todos os colegas da terrinha. Ele é um profissional que ousa lembrar que jornalismo não é entretenimento e culto gratuito a celebridades. Pede crítica e contestação. Eu tenho pensado nessa falsa unanimidade da imprensa quando faço minhas leituras diárias de dois ou três jornais ou vou a algum evento cultural, pois a unanimidade burra traz o perigo de uma nefasta influência sobre a criação dos artistas jovens.

Ficando na área cultural, que é a minha praia, é terrivelmente constrangedor os elogios quase unânimes a variados artistas que não merecem assim serem chamados. Cito o caso recente da exposição “Ato Refugo”, de César Revorêdo, na galeria do Núcleo de Arte Contemporânea (NAC-UFRN), que mereceu destaque inusitado na mídia. O autor da mostra esquece que o estilo é a alma da obra, e só com a alma surge o inédito e o artista. É difícil alguém com alguma visão estética sensibilizar-se com os seus “objetos-coisas” puramente vendáveis e vazios. Ele deve ser tratado como o proprietário de uma bonita galeria e uma pessoa com raro tino para vendas, afinal nem bem se ergueu um edifício lá está uma escultura sua. Mas não escrevo esse artigo para falar de Revorêdo - e que fique claro que nada tenho contra sua pessoa -, como ele existem dezenas de músicos, escritores, poetas etc. e tal que não merecem mais de duas linhas de divulgação.

Sim, sei que não é “privilégio” potiguar vender para o leitor mercadoria falsa, essa ludibriação acontece em qualquer lugar do planeta. No entanto, se a Espanha com o El País, os EUA com o The New York Times, Portugal com o Expresso ou o Brasil com os jornais Zero Hora ou a Folha de S. Paulo nos seus melhores dias, buscam divulgar a arte intensa, e inclusive criticá-la, por que não podemos fazer o mesmo? Concordo que qualquer evento deve ter seu espaço na imprensa, mas sejamos discretos, bem informados e inteligentes. Lembro que ao conversar com o coordenador de uma feira literária local, ele passou com euforia os nomes dos convidados de fora. “Não conheço ninguém”, disse. “Como não? São grandes escritores”, quase gritou o homem. “Pois, pois, não conheço tais gênios”. Divertida também foi a passagem da bailarina clássica Ana Botafogo por aqui. Quanto entusiasmo! O Brasil é uma terra de grandes bailarinos, da veterana Márcia Haydée ao pessoal do grupo Corpo, mas Ana Botafogo é apenas competente e está na marcha final de sua sonolenta trajetória, nada mais, não se deixem enganar pelo nome forte.

Não é uma questão de ser o dono da verdade ou crítico de arte, que não sou, é uma questão de ler, ver, estudar, observar, sentir. Abandonei uma página crítica e sincera num jornal potiguar porque me desiludi com a tirania da província, mas continuo alerta e concordando 100% com Jurandir Machado. Falta lucidez! Chega de fragilidade cultural óbvia! É preciso levar a verdade para o leitor, não ludibriá-lo como se ele fosse um debilóide. É por que não posso dizer aqui um robusto e grosso palavrão? Em casos extremos, como é este o caso, o leitor deveria dizê-los e com veemência. Ó miserável tristíssimo trágico Nordeste nosso! Com seus milhões de impedidos de conhecer a beleza artística! Pobre gente, pobre nós! Senhores editores, vamos dar nomes aos bois. Por que ninguém ousa criticar o insosso Festival de Cinema de Natal, a enxurrada de bandas aborrecidas ou o delírio medíocre em torno dos “top-models”, figuras que não passam de cabides de carne-e-osso para roupinhas de fantasia?

Ah! A mente oprimida entre falsos profetas, invente, pesquise, imagine um tanque de nenúfares, ou um cenário teatral branco e carmim, teu neurônio ativado relembrando coalhadas e poesias, Nana Caymmi e Dorian Gray Caldas, Miguel Rio Branco e Ney Leandro de Castro, Myriam Coeli e Tom Zé, benditos instantes entre o teu-eu e o teu-mim. Ah! A derme cravada do jornalismo cultural! Prefiro as ternas ou torpes associações, as relembranças, tudo tudo queridos vale a pena quando a alma não é pequena, já dizia o poeta luso. Portanto palma para as puxadas de orelha de Jurandir Machado, palmas para os irreverentes e para os que acreditam na mudança de mentalidade do jornalismo.


(14 de dezembro/2002)
CooJornal no 290


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm