21/12/2002
Número - 291

 


Antonio Júnior




O ELOGIO DA VIAGEM


Uma das melhores sensações da vida é a de chegar a uma cidade desconhecida e tentar perceber-lhe os contornos. A expectativa da diferença: da língua, dos costumes, dos rostos, da paisagem. Uma estrada nova desenhada pelos nossos medos, impulsos e finalidades, um vestígio de infância e do sentido de descoberta que os meninos conhecem e os homens crescidos ignoram. Na idade adulta, só o amor provoca essa estranheza, essa agonia de estar sem desejar estar, de partir sem saber para onde, de ir sem perguntar.

Menino que sou, não aceito a morte do desejo de viajar, não aceito lugares onde o meu coração não pulsa. A viagem é uma porta sempre aberta, uma lâmpada que arde na noite sem se apagar, um mistério como uma chuva de estrelas cadentes. A viagem é como um par de asas que substitui sapatos. Nos dias de tédio, de revolta contra os políticos que fingem que nada é culpa deles, de angústia provocada pela barbárie de todos os preconceitos, conforto-me com as recordações de viagem, levando-me a alegrias serenas. Em geral, o ruim é esquecido. Não há nada mais enfadonho do que alguém falando de problemas na alfândega, da sujeira das ruas de Roma ou da péssima comida de Londres. Viajar significa contar o visto e vivido, aprender com o desconhecido ou somente fugir da rotina cotidiana? Lembro sorrindo o canto do Alcorão numa noite marroquina, o inverno nos pirineus espanhóis, a casa em Londres da heroína de “...E o Vento Levou”, Scarlet O’Hara (Vivien Leigh), os antros delirantes do Bairro Alto lisboeta, o cheiro de cacau na rodovia Ilhéus-Itabuna, as dunas intermináveis de Galinhos, um encontro satânico no parque El Retiro em Madri, certas identificações com museus e livrarias parisienses, um barco durante uma estranha madrugada de lua cheia em Boipeba.

Não viajar é não conhecer o novo. Viajar limpa a alma, aclara o pensamento. O desconhecido autoriza-nos a enxergarmos diferente, sem as contrariedades e os naufrágios do cotidiano. A viagem deixa-nos livres para sermos poéticos e falharmos à vontade. Livres para procurarmos o que não existe. Viajar é um santo remédio contra o provincianismo, a monotonia ou a maledicência de quem não tem mais o que fazer. Foi com o pé na estrada que muitos escritores e poetas que admiro construíram sua obra: Michaux, Algiéras, Rimbaud, Ginsberg, Whitman, Gide etc. No dia em que eu não puder viajar, nem aquela viagem interior que é a do leitor de livros, o mundo terá para mim o tamanho de uma pequena gaiola de aço, e eu serei um pássaro mudo. Mas não quero pensar nessa possibilidade, prefiro ver-me como um poeta-aventureiro até o último dos meus dias.

Cada viajante tem a sua arte. Como dizia Paul Bowles e Bruce Chatwin, grandes escritores-viajantes ou vice-versa, “o importante é ser viajante, nunca turista”. É que o turismo vive de folclore e vaidades, destruindo simultaneamente as cidades litorâneas do nordeste brasileiro como as selvas de Costa Rica para construir hotéis, arrecadar muito dinheiro e operar como bálsamo para uma classe acomodada entediada. É só comparar, por exemplo, Pipa ou Porto Seguro, o que foram um dia com o que são hoje.

Eu gosto de explorar as cidades de noite e de madrugada. Nunca deixo de ir ao cinema ou ao teatro mesmo que não entenda o idioma. As igrejas e os templos fora da rota turística são indispensáveis, assim como os mercados populares, as zonas sórdidas, os cemitérios, os bares freqüentados por artistas fracassados, os mosteiros, os bosques e os rios. Não se descobre segredos de um mundo que já está descoberto. Visitar a Torre Eiffell ou o Corcovado é pura redundância. É enfadonho visitar muitos monumentos em poucas horas, gastar rolos de fotografias, ouvir o lengalenga de guias. Bom é passear suavemente, sem destino, parar, observar.

É preciso viajar para deixar a cabeça girar e evoluir o cérebro. Primeiro elegendo um destino como se elege um amante. Haverá que intuir, perguntar, ler, arriscar. Conheço muita gente que procura impor a sua forma de férias. Falam de compras fantásticas em Nova York, discos enlouquecidas em Ibiza e hotéis de sonho em Cancun. Os cruzados da Idade Média viajavam para salvar a alma e viver aventuras. Os turistas obcecados pelo consumo apenas enganam o vazio de suas existências. Viajar é pedir pouco, não ter medo, apostar no inesperado, compreender que o movimento cura a melancolia. Como dizia Robert Louis Stevenson, outro escritor-viajante, “quando viajo peço somente o céu sob meu corpo e um caminho para os meus pés”.

Pela primeira vez em Londres hospedei-me no apartamento de um velho amigo de infância, um artista, na agradável Wimbledon. Ele preparava jantares perfeitos, dava dicas das melhores galerias e chamava-me para ver os debates com a inteligente Germaine Greer na BBC. Não era bem o que queria. Mudei-me para um prédio vitoriano invadido por jovens, sem energia elétrica, aquecimento ou água canalizada, num turbulento bairro de negros e imigrantes: Elephant and Castle. Do meu imenso quarto no último andar, iluminado por velas em candelabros, escrevi diversos poemas e organizei reuniões festivas. Banhava-me em banheiros públicos. Bastante divertido e enriquecedor, e eu só deixei-o quando membros neo-nazi ameaçaram atear fogo no local. Eles haviam queimado uma família de hindus uma semana antes.

Perigos existem, mas o êxito de uma viagem depende principalmente do aprendizado, da paixão, da descoberta e nada disso se encontra em grupos turísticos ou numa loja de souvenires. Deixo de lado as mordomias dos nossos costumes burgueses e parto para o desconhecido. Ou seja, viajo sem problemas pré-concebidos. O que posso dizer com a experiência própria de anos como viajante, é que minha vida cresceu e minha origem é só uma peça que completa meu quebra-cabeças interior. Entre outras coisas porque minha memória - intelectual, espiritual, erótica - tornou-me um sem pátria.
 


(21 de dezembro/2002)
CooJornal no 291


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm