01/03/2003
Número - 304


Antonio Júnior




A ILUSÃO VIAJA DE TREM


para Diógenes da Cunha Lima

 “Para onde vão os trens, meu pai? Para Mahal,Tami,
para Camiri, espaços no mapa, e depois o pai ria:
também para lugar nenhum, meu filho,
tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti”
(Qadós, Hilda Hilst)


Tomei o trem em direção a Fez, pretendendo visitar o amigo Rachid Bendai, um escritor dono de uma loja de alumínios. Conheci o simpático beribéri anos antes, ao perder-me no bairro judeu em busca da fonte Najjarine, e nunca mais deixamos de trocar cartas fraternas, quase surrealistas na sua mistura de espanhol, francês e português. Fez, uma das cidades mais lúdicas que conheci nos muitos anos de viajante, não tem nada do glamour afetado da novela “O Clone”. É espiritual, simplória, perdida no tempo. Instalei-me na cabine espaçosa, decadente, resquício da luxúria abusada dos colonizadores franceses. Do corredor, surgiram cabeças, olhos, animais, policiais sebosos, traficantes de haxixe, balbúrdia. Como a viagem seria longa, aproveitei para rabiscar considerações poéticas para um suplemento literário argentino. Sendo eu mesmo poeta, entendi que não podia escrever tal artigo, afinal há inúmeras formas de trabalhar versos, e cada qual usa aquela que se harmoniza com a sua sensibilidade e preferência, escrevendo da maneira que julgar mais correta.

Pensava numa saída, quando um homenzinho nervoso e asqueroso sentou-se na poltrona em frente. Apresentou-se em espanhol, e depois de um olhar ambíguo contou sua história: “Sou marroquino, mas vivo na Andaluzia. Estou de volta para o casamento de um primo. Serão três dias de festas, os homens numa casa e as mulheres noutra. Três dias de muita comida, dança, canto e haxixe. Você é meu convidado”. Nada respondi, percebendo os sinais anunciadores da presença do mau-olhado. Fechando os olhos, fingi um sono improvável, concentrando-me no barulho das rodas nos trilhos. Na primeira vez que tomei um trem, dos cafundós da Galícia para Lisboa, senti um prazer vivo, um perfume quente subindo por todo o corpo. Os vagões lotados de barulhentos pracinhas, que cantavam e falavam alto, como num antigo musical. Não era o trem que levava os milhares de judeus para os fornos crematórios da infame Segunda Guerra Mundial, tampouco o que esmagou a beleza insatisfeita da heroína Anna Karenina. Seria mais fácil encontrar a cantora Sugar Kane de Marilyn Monroe atravessando os corredores e provocando assobios com o seu rebolado único. Sempre gostei de filmes passados em trens, como o de Buñuel, o de Chéreau, o de Hitchcock com o pacto dúbio entre os protagonistas. Abri os olhos e Hadj Mohamed – sim, era o nome do infeliz – tinha o meu livro de Tahar Ben Jelloun nas mãos.

Pedi o livro de volta, revelando de supetão a língua portuguesa. Devolveu o livro, jurando amor eterno pelo futebol brasileiro. Não gosto de jogos, escapam-me alguma coisa. É uma paixão que não compreendo. Não me animo nem com as copas e suas centenas de bandeiras estampadas em corpos morenos, penduradas nas janelas dos prédios e agitadas por meninos que nem sabem ler ou escrever. “É comovente esse amor à pátria”, escreveu um familiar. Resmungo entediado contra esse patriotismo fajuto, rasteiro, se existe patriotismo de outra espécie. Basta ver no que deu o fervor nazista ou a ira dos norte-americanos contra os afegãos. Não é tempo de bandeiras, é tempo de solidariedade e descobertas. Tenho algumas vezes a curiosidade de saber o que fazem depois com tantas bandeiras e camisetas verde-amarelas. Continuarão usando-as nas praias, shopping-centers, semáforos ou estarão condenadas a pano de chão? Considero aborrecida e primitiva essa onda de patriotismo que varre certas mentes. É uma máscara imposta para esconder dificuldades terríveis, o caminho mais curto para apoiar a demência de insanos como Bush. “Não me interesso por futebol”, deixei claro para o estranho.

O manhoso Mohamed continuou falando sem parar, exaltando a beleza da sua terra, a sua cultura, as suas referências e os inúmeros pintores e escritores que passam temporada nela. Uma fala incansável, lenta, talvez uma oração, uma hipnose, sempre afirmando “Você irá para a festa do meu primo”. “Tenho pessoas à minha espera em Fez”, rebatia, nunca lhe chamando pelo nome. Nomeá-lo seria reconhecê-lo e respeitá-lo. A tal celebração matrimonial aconteceria numa cidadezinha, Asilah, no início do trajeto que eu pretendia. Ele desenhava verbalmente a magia do lugar, as praias exuberantes, o oásis de palmeiras e laranjeiras. Sabia da sedução da branca Asilah, mas repetia dominado por uma leve febre e lassidão: “Muito grato, irei para Fez”. O sol torrava inclemente o deserto visto através da janela. Surgiam também ilhas verdes com soberanas palmeiras. Representantes da lei examinaram o meu passaporte, perguntando o que fazia no Marrocos. “Sou jornalista, vim visitar amigos em Fez e depois entrevistar o escritor espanhol Juan Goytysolo em Marrakech”. Eles me deixaram em paz, mas os olhos da bizarra figura brilharam. “Não pense que tenho dinheiro, que sou um jornalista famoso. Sou um duro, o meu país é tão pobre como o seu. É por isso que viajo neste trem em ruínas”, exagerei. Mohamed calou-se por alguns minutos, examinando a situação. Aproveitei o silêncio repentino para lembrar-me de uma viagem de trem pelos Alpes Suíços, no Bernina Express, percorrendo 145 km.

Uma das viagens de trem mais impressionantes do meu histórico aventureiro. Em seu trajeto, passei por 102 pontes, túneis, precipícios, belos vales, névoas, densas florestas, lagos e no ponto mais alto da estrada de ferro, o imponente mundo das montanhas, com seus picos cobertos de neves. Partimos de Chur, uma das mais antigas cidades da Suíça, com cerca de cinco mil anos. Como fui feliz! Imitando Hercule Poirot em “Assassinato no Expresso do Oriente”, examinei minuciosamente cada passageiro. Um sonho realizado, pois nunca compreendi o extermínio dos trens no Brasil, um país com distâncias tão longínquas. Quando criança, atravessando os trilhos da cidade natal, perguntava a babá onde o trem se escondia, e ela respondia: “Partiu para o infinito de Deus e perdeu-se, não conseguindo encontrar o caminho de volta”. Acreditava piamente. Na região de Graubunden, conhecida pelos vinhos de excelente qualidade, o Bernina Express parou por 15 minutos. Ao seu lado, o Glacier Express, vindo de Zermatt em direção a St. Moritz. Tirei uma fotografia do jovem cobrador, e sorridente ele convidou-me para tomar chocolate. Segui o louro de olhos verdes até um dos escritórios da estação. Fiquei observando as paredes decoradas por cartazes turísticos dos Alpes Suíços. Ele serviu o chocolate, sentou-se numa cadeira rústica do outro lado da sala, abriu as pernas e a braguilha, e masturbou-se, sem dizer uma palavra. Tomei o chocolate quente, assistindo ao espetáculo inusitado. O primeiro sinal de partida anunciou-se, agradeci a oferta e voltei para o Bernina. Horas depois, ao encontrá-lo, fez de conta que nunca tinha me visto. Achei divertido, mais uma história para o meu diário. Mohamed despertou-me das lúbricas recordações, puxando-me pelo braço, avisando que havíamos chegado, enquanto retirava a minha mochila do bagageiro. Tomei-a de volta e, sonolento, segui para uma das saídas, ao lado da cabine.

As descer, avistei a estação semi-abandonada, um dromedário coberto de moscas, arriado no chão, e um táxi negro, dos anos 50. O trem partiu deixando-me na solidão do deserto. O vigarista atrás de mim. “Onde estou?”, perguntei. “Asilah”, respondeu com um sorriso cínico. “Não estamos em Asilah. Não sou tolo. E o mar?”. “Logo ali, vamos tomar um táxi”, disse apontando as areias escaldantes, sem nenhum sinal de edificações ou do mar. “Vou para Fez”, afirmei decidido, entrando no prédio num finalzinho de tarde. O próximo trem só passaria às 5 da manhã. Em pânico, vivenciei uma das minhas piores noites. Muitas horas não perdendo a mochila de vista, recusando ofertas de hospedagem do bandido, repetindo que não tinha dinheiro. A pequena cidade que se passava por Asilah era horrível, pobre e suja, com apenas uma pequena Medina. Não encontrei turistas, consulados ou hotéis. Depois de três ou quatro horas tendo Hadj Mohamed como sombra, consegui escapar assim que entrou num banho público para falar com um parente. Corri como um louco pelas ruas labirínticas, escondendo-me no jardim das Bruxas à saída da cidade. Não consegui pregar os olhos, atento aos ruídos noturnos. A memória reavivava casos de pessoas desaparecidas de uma hora para outra no Marrocos e nunca mais encontradas. Faltando pouco para o amanhecer caminhei até a estação, pegando carona no caminho com um carroceiro muitíssimo idoso. Ainda filosofei sobre a velhice, tratando-a como um mal-entendido entre o corpo e o espírito, entre o corpo e o tempo, mas o coração pulsava forte, temendo a visão do magro e diabólico grilo falante. Quando o trem surgiu, teve o mesmo efeito de um milagre. Chorando, ajoelhei-me na areia áspera e agradeci ao Profeta Maomet, teria mais algum tempo para viver entre pessoas cheias da sua importância, contentes delas próprias, bem instaladas nas suas certezas e na sua mediocridade. Logo voltaria para o Brasil, antes, eu e a ilusão continuaríamos a viagem de trem para Fez e a seguir, Marrakech.

(01 de março/2003)
CooJornal no 304


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm