22/03/2003
Número - 307


 


Antonio Júnior




UMA SOMBRA SEM NOME


A amizade era um sentimento estimado e tratado com virtude pelos autores gregos e latinos, e Cícero considerava-a um “bem” fundamental, o melhor que os deuses deram aos homens. Como escolher os amigos? Como merecê-los? Como conservá-los? A amizade deveria resistir ao esforço existencial, mas parece destinada a findar nas mãos do egoísmo, da ambição, da inveja. Nas turvas águas das alianças de interesses, das tramas, das infâmias, das intrigas e dos sentimentos impacientes em que nos banhamos, a amizade não passa de palavra de conveniência e assunto de circunstância.

Uma amizade costuma suportar o tempo em que um amigo se metamorfoseia em inimigo. Entre guerreiros fúteis do mesmo fôlego e com a mesma meta, a amizade é a primeira a tombar na arena. Os políticos e a amizade não se dão bem, tendendo a ignorar-se. A disputa pelo poder é um dos vícios da inimizade. Palavras agressivas na mídia, boba-a-boca que difama, ridicularizações divulgadas em eventos sociais são parte do burlesco, bobo da corte que somos, crentes no maligno das fofocas e na frenética cobertura jornalística da decadência humana. Já se foram os tempos da “Ilíada”, com a dor de Aquiles diante do cadáver de Pátroclo. Depois da morte deste, seus ossos foram queimados e misturados numa ânfora de ouro. É rara hoje em dia a amizade que unia Ricardo Coração de Leão e Felipe 2º de França ou a do comandante do exército romano, Adriano, e o seu escravo Antínoo.

A inveja aniquila qualquer amizade. Como escreveu o caicoense Vicente Serejo: “A inveja foge, sempre foge. Por mais que se tenha cuidado e se controle os quatro pontos cardeais, a inveja foge. Sai da jaula como uma fera ferida e vai por aí, rosnando, deixando sua baba e seu rastro por toda parte”. Perdi os meus melhores amigos de infância por causa da inveja, e só muito tempo depois é que descobri que esse era o verdadeiro motivo do fim da amizade. Mesmo de forma inconsciente, eles não perdoaram minha vida de viajante, de muitas histórias e muitos amores, e inventaram subterfúgios frágeis para eliminar-me de suas vidas. Lembro que quando chegava de férias, visitava-os, encantado para contar todas as novidades. Ninguém fazia qualquer pergunta. Os relatos ficavam constrangedores e a inveja alheia transformava-me num esnobe. Um deles certa vez disse-me que eu não podia fazer tais comparações, “você está no Brasil, não na Europa”. Passei a calar-me, chegava de viagem e ao encontrá-los, mesmo passado mais de um ano, fazia de conta que vivia ao lado deles permanentemente. Mesmo assim não foi suficiente para conservar antigas amizades. Um presente, uma roupa diferente ou uma fotografia provocavam tensões, o vírus da inveja contamina todas as boas intenções. Qualquer argumento meu significava a traição, aquele que abandonou a sua gente por um mundo desconhecido. Chorei por perdê-los, mas continuei minha vida e pedi aos Anjos para que ainda nesta vida os livrassem do ridículo da inveja.

Neste início de milênio em que vale tudo, a mediocridade é a palavra-chave e a amizade sobrevive entre poucos, nunca é demais refletir sobre a importância da lealdade. A amizade foi massacrada pelo reinado do supérfluo? Devemos concluir que não temos sapiência e sensatez para sustentar sentimentos vitais? O mais correto seria diagnosticar uma enfermidade coletiva. Como somos tolos! Nem Wittgenstein, nem Jung, nem a Bíblia ou o Corão, nem as tradições sufi ou cabalísticas são capazes de responder onde o amigo número um, o Oculto, se esconde. Onde está a eloqüência sábia desse amigo? Agnóstico que sou, deus fala através de mim, mas esse deus, interior e mortal, esse deus que mora no coração humano me redime? Esse deus é acessível ao conhecimento natural e as experiências cotidianas ou é um deus para a audácia do erudito? Sabendo que mora dentro de mim, ele pode conceder a ternura que me protegerá da solidão? Creio que a tragédia shakespeariana das falsas amizades reduz a força dos deuses que habitam as esferas do “que não se vê”, como Herman Melville diz em Moby Dick: “Nessas terras sem vida, ainda hoje, um deus errante, ele mesmo um alheado, um estranho, um exilado, mesmo quando erramos aqui. Uma sombra igualmente invejosa, uma sombra sem nome, desliza dobre o errante deus do Abismo, não apenas separado de nós, como separado dele, mas tão indefeso sem nós, como nós estamos sem ele”.

O que me liberta dessa “sombra sem nome” é a literatura, refugio-me no corpus literário como forma de superar o emocional derrotado. A literatura como suficiência para atravessar a imensidão vazia eliotiana. Quando a morte espreita o tempo inteiro, devemos consolar-nos com o veneno e a crueldade? Certas façanhas são para serem confessadas no silêncio do coração. Como o fim de uma amizade. Não é necessário convidar a falsidade, os interesses próprios, as corrupções ou as fraquezas de caráter para a despedida. Não é motivo de alarde. Ou melhor, por que se misturar com esses fantasmas do mal? Não aceito sobreviver como um adulto submisso a migalhas, prefiro o olhar da criança que crê na fraternidade.

São tempos de deserto espiritual e arrogância. Mas todas as gerações que nos precederam tiveram idêntica arrogância, foram poucos os que aprenderam e contribuíram para um futuro melhor. Eles eram o sal da terra. Eles estão mortos, mortinhos da silva, esquecidos e enterrados. Como eu e como você, meu caro leitor, e todos os nossos desafetos estaremos a qualquer momento. Enquanto esperamos o fim, que não tarda tanto assim, façamos amigos sinceramente e fiquemos longe das inimizades. Só assim os dias serão mais suaves e justos.


(22 de março/2003)
CooJornal no 307


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm