05/04/2003
Número - 309


Antonio Júnior




MICHAUX – O ESPAÇO INTERIOR


“Pode estar tranqüilo. Ficou algo limpo em você.
Em uma só vida não pode sujar-se completamente”
(Henri Michaux, Poteaux d’Angle, 1981)


Pode-se torcer o nariz frente ao Michaux desenhista e pintor, pode-se mesmo ter sérias reservas diante do experimentador de drogas, mas é impossível negar o interesse que apresenta sua poética secreta e solitária à procura de um sentido. É uma poesia complexa e espiritual: uma tentativa de conhecimento de si mesmo, uma devoração interior radical. Sua criatividade verbal é um exercício visionário em que as palavras, desligadas de seu uso comum, se empregam para transmitir mais um impulso que um significado. Uma imaginação poética intensamente fortalecida pela observação da realidade, numa insaciável curiosidade por conhecer a zona sombria e misteriosa do ser humano. Não há uma filiação literária, tudo é vibração, universo peculiar indefinível, catarse que revela paragens inóspitas do espírito e do mundo:

“Às vezes, não somente ela, mas eu mesmo, com um corpo fluido e duro que sinto em mim, bem diferente do meu, infinitamente mais móvel, flexível e inatacável, lanço-me também com impetuosidade e sem parar contra portas e paredes. Adoro lançar-me de frente contra o armário de espelho. Bato, bato, bato, arrombo, experimento satisfações sobre-humanas, sem esforço vou além do furor e do ímpeto dos grandes carnívoros e das aves de rapina, sinto um arrebatamento que excede comparações. Mas, depois, pensando bem, muito me surpreende, e cada vez mais, que, depois de tantas arremetidas, não haja no armário de espelho uma fenda e nem mesmo um rangido na madeira”.

Poeta francês de origem belga, Henri Michaux nasceu em Namur, em 24 de maio de 1899, numa família burguesa de juristas e arquitetos. Porém, nunca gostou do seu país, nem de sua gente, nem de sua paisagem. Desde pequeno sentia a realidade como algo distante e envergonhava-se de tudo ao seu redor, e então escrevia. Já vivia no mundo como estrangeiro e pensava em tornar-se monge. Em 1920 abandonou os estudos de medicina para uma longa odisséia como marinheiro, saindo de Boulogne-sur-Mer. Nesse mesmo ano, em Roterdã, repete a experiência rumo a Buenos Aires e Rio de Janeiro. Aos 23 anos descobre a literatura com o sobressalto que lhe provoca a leitura de Os Cantos de Maldoror (Les Chants de Maldoror, 1868), do uruguaio Lautréamont (1846-1870). Sua criação futura teria toques da misteriosa, subterrânea, simbolicamente obscura obra de Lautréamont. De volta a Paris, em 1923, estuda literatura e depois volta a viajar até 1937 pela Ásia, África do Norte e América do Sul, revelando uma tomada de consciência em relação ao mundo e às coisas. A razão principal pela qual viaja é para expulsar do seu interior “a sua pátria, os seus vínculos de qualquer classe”. Fugindo sempre, das terras estrangeiras enviava poemas que definiu num dos seus livros como “cápsulas de enxergar”. “Segundo dizem, na maioria das pessoas que olha uma paisagem se forma uma cápsula que é a mediunidade entre a paisagem e o contemplador”, escreveu. Seu primeiro livro, Qui je Fus (1927), revelou-o como escritor original. Logo publicou o autobiográfico Ecuador (1929), um relato de viagem, e Une Barbare em Asie (1933), traduzido para o espanhol por Jorge-Luis Borges, que conheceu Michaux e considerou o texto “um jogo”. A seguir veio Voyage en Grande Garabagne (1936), Plume (1938) e Lointain Intérieur (1938). Visitando Montevidéu, Uruguai, em 1936, se apaixonou pela poeta Susana Soca, que morreu jovem e era conhecida pela legendária beleza. Anos depois, em 1943, se casaria com uma mulher divorciada e tuberculosa, Marie-Louise Termet.

Ele odiava as artes plásticas, mas em 1924 fixa residência em Paris e ao conhecer a obra de Paul Klee, De Chirico, Max Jacob e outros surrealistas, muda de opinião. Fascinado principalmente pela criação do suíço Klee, decidiu buscar um meio de expressão visual. Em 1937 começou a desenhar e a pintar, expondo em galerias e seguindo a mesma idéia da sua literatura: uma viagem através dele mesmo. Sua técnica rápida e leve prefere a aquarela e a tempera ao óleo, fundindo com formas gráficas que lhe permitem criar um universo poético próprio. Não se pode definir seu trabalho pictórico como ilustração, riscos, ideogramas ou alfabeto, é inacabado e inacessível como a sua literatura, outra forma de explorar o mundo interior. Há uma espécie de tremor que habita suas manchas, um despojamento, fragilidade e sobriedade. São como curtos-circuitos, manchas de colorido intenso, caligrafia nervosa que avança e retrocede, impulsos que buscam inutilmente uma saída. “Eu queria desenhar a consciência de existir e o fluir do tempo”, confessou.

Foi colaborador assíduo da importante Sur, uma revista literária argentina que difundiu a arte inovadora, além de divulgar as atividades da Resistência francesa. Tornou-se conhecido em França a partir dos anos 40, quando André Gide escreveu um texto sobre ele. Com a trágica morte de sua esposa, falecida em conseqüência das graves queimaduras de um incêndio acidental em 1948, escreve em sete páginas o emocionante poema Noux Deux, Encore, depois recolhido pelo próprio autor e transformado numa obra clandestina, maldita. Entediado, levando o seu cotidiano para qualquer viagem, interrogou-se em Passages (1937-1950): “Para que viajar quando uma rima faz nivelar uma montanha, quando um adjetivo povoa um país, quando uma assonância faz oscilar a Terra inteira?”.

Descobriu os alucinógenos em 1956, e sob controle médico prova o ópio, o ácido e a mescalina, o principal alcalóide do peyote, produzindo através delas várias obras pictóricas e textos experimentais, vibrantes e minuciosos: L’Infini Turbulent (1957), Paix dans les Brisementes (1959), Connaissance par les Gouffres (1961) e Les Grandes Épreuves de l’Esprit (1969), Misérable Miracle (1972). Como Baudelaire, Quincey, Artaud, Cocteau, Huxley, Castañeda, Burroughs e tantos outros, buscou nas drogas a sensibilidade fora dos limites da mente humana, descrevendo minuciosamente suas sensações, pensamentos e os movimentos que sentiu com suas experiências. Carlos Castañeda foi quem celebrizou o famoso cactos quando contou suas experiências com Don Juan, que dizia que a mescalina ensinava a “maneira mais correta de viver”. Artaud acreditava que com o peyote sabe-se até “aonde chegará o seu ser e até onde ainda não conseguiu chegar”. A droga na obra destes autores desvenda o real invisível como o verdadeiro real. Pelo peyote, os índios huichol libertavam-se dos seus pensamentos, dos seus atos (bons ou maus), desnudando-se de todo o seu eu para alcançar a pura liberdade do pensar. Logo que achou que concluiu suas experiências, Michaux deixou as drogas por achar que “não estava feito para a dependência”.

A literatura híbrida de Henri Michaux é pura entrega, êxtase, estertor interior. Tudo para dizer simplesmente que a vida está onde nós queremos, assim como no erro e na dúvida de cada entrega. Um jogo permanente entre a presença e a ausência, a ascensão e a queda, o circunstancial e o eu. Clássico das vanguardas, sua obra é uma das mais originais do século XX. Esse estranho poeta dizia que a poesia não é o verso, que está em toda a parte, e que o poema matava a poesia. Sem pertencer a qualquer escola literária, seus inesperados textos usaram o simbolismo, o dadaísmo, o surrealismo, o existencialismo, o absurdo e fantasias irônicas e oníricas. Nem todos os lugares e povos que retratava em seus livros são reais, muitos surgiram da sua imaginação com a precisão de um antropólogo, como os seres de Au Pays de la Magie (1941). Nele contou os costumes, os rituais e festas, o que pensam e como vivem os magos, os omobules, os ecoravetias, os nonais, os oliabares, os hivinizkis, os hacs, os emanglones e os meidosems, só para citar uns poucos. Com um certo humor negro, o poeta satiriza à maneira de Jonathan Swift a realidade da sociedade em que viveu. Uma veia fantástica muito poderosa, concentrando universos inteiros em pequenos fragmentos, imitando a realidade a partir de um mundo paralelo.

Reservado, esquivo, discreto, tranqüilo e elegante, com vida social nula e poucos conhecidos, o poeta não dava entrevista nem permitia ser fotografado, e sua biografia, sem muitos dados concretos, só pôde ser feita através de extratos de sua correspondência privada. Nunca se considerou um literato e recusou receber o Grande Prêmio Nacional de Letras, em 1965. Acreditava que a maioria das pessoas representava um papel, e geralmente ele conseguia muito rapidamente arrancar essa máscara, provocando um desinteresse por elas. Franzino, de saúde frágil, naturalizou-se francês em 1955, e foi um homem sem limites geográficos, mentais ou lingüísticos. Um extraordinário caso de um escritor indefinido. A sua literatura combina narração, prosa, descrição etnológica, poesia nada lírica e um certo humor surreal. Seus textos são resultados de anotações, diários, cadernos, notas de viagem, redação de explorações, de descobrimentos, em que introduz sua impressão pessoal, muitas vezes abstrata e simbólica. Um explorador de uma nova visão do mundo e dos seus seres. Morreu em Paris em 1984, sempre apoiado num certo desespero.

(*) Escritor, Poeta, Jornalista e Aventureiro. Autor de “ArtePalavra – Conversas no Velho Mundo”, que será lançado em janeiro de 2003.

PRINCIPAIS OBRAS PUBLICADAS DE HENRI MICHAUX
Qui je Fus (1927)
Ecuador (1929)
Une Barbare en Asie (1933)
Voyage en Grande Carabagne (1936)
Plume / Lointain Intérieur (1938)
Au Pays de la Magie (1941)
Arbres des Tropiques (1942)
L’Éspace du Dedans – Pages Choisies (1944)
Épreuves, Exorcismes (1940-1944)
Ailleurs (1948)
Noux Deux, Encore (1948)
La Vie dans les Plis (1949)
Passages (1937-1950)
Mouvements (1951)
Face aux Verrous (1954)
L’Infinit Turbulent (1957)
Paix dans les Brisements (1959)
Connaissance par les Gouffres (1961)
Vents et Poussières (1962)
Les Grandes Épreuves de l’Esprit et les Innombrables Petites (1969)
Façons d’Endormi, Façons d’Éveillé (1969)
Misérable Miracle (1972)
Émergences, Résurgences (1972)
Moments,Traversées du Temps (1973)
Face à ce qui se Dérobe (1976)
Choix de Poèmes (1976)
Poteaux d’Angle (1981)
Chemins Cherchés, Chemins Perdus, Transgressions (1982)


EU REMO
por Henri Michaux

Eu maldisse tua fronte teu ventre tua vida / Eu maldisse as ruas que teu andar desfia / Os objetos que tua mão segura / Eu maldisse o interior dos teus sonhos
Pus uma poça no teu olho que não vê mais /  Um inseto em teu ouvido que não ouve mais / Uma esponja em teu cérebro que não entende mais
Eu te esfriei na alma do teu corpo / Eu te gelei na tua vida profunda / O ar que tu respiras te sufoca / O ar que tu respiras tem um ar de adega / É um ar que já foi antes expirado / que já foi rejeitado por hienas
O esterco desse ar já ninguém pode respirar
Tua pele está toda úmida / Tua pele sua a água do grande medo / Tuas axilas desprendem longe um cheiro de cripta / Os animais estacam à tua passagem / Os cães, à noite, uivam, cabeça erguida para a tua casa / Tu não podes fugir / Não te vem uma força de formiga na ponta do pé / Tua fadiga é um touro de chumbo no teu corpo / Tua fadiga é uma longa caravana / Tua fadiga vai até o país de Nan / Tua fadiga é inexprimível / Tua boca te morde / Tuas unhas te arranham / Não mais é tua a tua mulher / Não mais é teu o teu irmão / A planta de seu pé é mordida por serpente furiosa
Babaram sobre tua progenitura / Babaram sobre o riso da tua filhinha / Passaram a babar diante da face da tua moradia / O mundo afasta-se de ti
Eu remo / Eu remo / Eu remo contra a tua vida / Eu remo / Eu me multiplico em remadores inumeráveis / Para remar mais fortemente contra ti
Descambas para o vago / Estás sem fôlego / Tu te cansas antes mesmo do menor esforço
Eu remo / Eu remo / Eu remo / Tu te vais, ébrio, amarrado o rabo de um jumento / A embriaguez como imenso guarda-sol / a escurecer o céu
E a reunir as moscas / A embriaguez vertiginosa dos canais semicirculares / Começo mal ouvido da hemiplegia / A embriaguez não mais te deixa / Te deita à esquerda / Te deita à direita / Te deita no chão pedrento do caminho
Eu remo / Eu remo / Eu remo contra teus dias / Na moradia do sofrer tu entras
Eu remo / Eu remo / Numa fita preta as tuas ações se inscrevem / No grande olho branco de um cavalo caolho / rola o teu futuro
Eu remo

(Tradução de Mário Lanranjeira)

BIBLIOGRAFIA

En Otros Lugares, tradução de Julia Escobar, Madrid, Alianza Editorial, 1983;
Um Bárbaro en Asia, tradução de Jorge Luis Borges, Barcelona, Tusquets, 1984;
Las Grandes Pruebas del Espíritu, tradução de Francesc Parcerisas, Barcelona, Tusquets, 1985;
La Escritura del Rostro, de José Antonio Millán (El País, 20 de fevereiro de 1992);
Poetas de França Hoje / 1945-1995, de Mário Laranjeira, São Paulo, Edusp, 1996;
Henri Michaux, en el Abismo, de J. A. R. (El País, Babélia, 18 de abril de 1998);
Magazine Littéraire nº 364, Abril de 1998;
Mágicos Poderes, de J.H. B. (Expresso, Cartaz, 13 de março de 1999);
Geografia Insurrecta, de Antonio Cabrita (Expresso, cartaz, 13 de março de 1999);
Los Mundos de la Grafía Viajera de Michaux, de Adolfo García Ortega (El País, Babélia, 25 de março de 2000);
Plume – Bulletin de la Société des Lecteurs d’Henri Michaux;


(05 de abril/2003)
CooJornal no 309


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm