25/04/2003
Número - 312


Antonio Júnior




ROSAS DE SANGUE
Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano

para Vera Rabelo
“Não sabia o que mais lhe fazia mal: se o silêncio, se o perfume das rosas,
se o seu próprio coração”
(Lúcio Cardoso, O Viajante, 1951-62)


Sempre que a lua cheia surge, e o céu inteiro ilumina-se de um azul metálico, tiro a roupa e caminho nua pelo jardim de muros altos. E sei porque isto se dá: lembrança dele, tantos anos depois, ainda deixa-me atônita, em fogo, e no meio do roseiral,ra sgando as coxas nos espinhos, recordo-o enquanto lanço um olhar inquieto para a noite cheia de promessas. Deixe-me, siga seus descaminhos. Foi um aviso frígido, dito assim, num tom cortante, e ali fiquei, parada, gigantesca árvore sem folhas e sem frutos. Árida e reluzente, desde então passo as noites colando pétalas de rosas em papéis de seda. O perfume febril da flor penetra nas ausências, a umidade das matas mais distantes uiva por um amor que já não me pertence. A memória ao longo das cidades provincianas, mamárias, deslizando no calorento janeiro. Poderia ter dito, ajoelhada, aos pés do patíbulo, como quem escreve uma canção desesperada: “Os mortos não ouvem, mas perturbam-se com frases de amor não ditas”. Descobri, através das cartas do tarô, a infidelidade do homem que jurei dedicar-me toda a vida. Não apelei, nem mesmo chorei, apertando as rosas vermelhas entre os braços e repetindo: “Deixe-me, siga seus descaminhos”. Ele partiu sem olhar para trás, arrebatado pelas glândulas dos lupanares, night-clubs e tavernas sórdidas, e depois pelas praias vampíreas, pelos arredores, pelas chácaras alucinógenas. As pétalas das rosas vermelhas se espalharam na calçada transformando-se em insetos melados de sangue, devoradores de corações, nervosos e esfomeados. Não procurei impedir sua partida, deixando-o completamente senhor de sua vilania e traição. Nada de palavras doces como pudins. Seca, recebi um longo abraço viril de despedida, a unha aguda do silêncio, o beijo de Judas. Lembro quando recebeu de um amigo, que nunca fez questão que eu conhecesse, um curioso presente de casamento: a reprodução de uma pintura onde duas sereias com forma humana e uma terceira com rabo de peixe, tentam seduzir marinheiros. “Segundo o meu amigo, esse é o herói Ulisses, que foi prevenido para tomar cuidado com as sereias, cuja voz tinha o poder de encantar os homens e matá-los. Ele fez seus marujos amarrá-lo firmemente no mastro do navio e vedarem os ouvidos com cera, para que só ele pudesse ouvi-las cantar em segurança. Meu parceiro diz que eu sou Ulisses e você uma perigosa Sereia. Eu não acredito”, disse na nossa lua-de-mel. “Não sei como ele adivinhou, já que nunca fomos apresentados. Sou uma sereia”, confirmei. Os anos passaram, e eu destruí a vida dele e da amante com feitiços, magias do fundo d’alma, chás de mandrágora. O meu homem perdeu o bom emprego no banco onde trabalhava há onze anos, destruiu o carro numa batida absurda e passou a beber mesmo quando não podia pagar. Ficou meses na prisão ao tentar roubar um maricón que já havia pagado pelos seus serviços sexuais. A danada da bactéria, da cabra, da fulaninha, da rapariga, da piranha, sofreu uma queda ao saltar de um ônibus, dois meses depois de levar o meu marido, e nunca mais se levantou da cama. Tem hoje mais de cem quilos e borda para sobreviver. Fui visitá-la muitíssima bem vestida, e ela que não me conhecia ficou toda contente com a possibilidade de uma cliente rica. Enquanto mostrava as rosas vermelhas e pedia lençóis bordados com elas como tema, tive vontade de cuspi-la. Eles nunca souberam do encantamento terrível, e certa vez o encontrei, magro e abatido, na praça de concreto perto da nossa antiga moradia. Meio cabisbaixo e fedendo, sorriu arrependido mostrando um dente partido e sussurrou: “Como você está linda, nega...Perdoa o seu homem, deixa que eu volte”. Já não era o belo garanhão de sangue árabe, e mesmo se fisicamente não tivesse mudado, tampouco trocaria palavras com ele. Eu fitei-o, má e calada. Mas vendo-o tão em ruínas, e tão dilacerado por um arrependimento sincero, encaminhou-se para dentro de mim uma angústia, um insuportável mal-estar; sim, não o perdoei, virei o rosto e continuei a caminhada, esforçando-me para controlar a desorientação. Na noite a seguir ao nosso reencontro, preenchi dezenas de folhas de papel de seda com pétalas de rosas vermelhas. Parecia um mar oriental, artificial e lúdico de sangue. Um vermelho cor do fogo do inferno, da paixão incontrolável, da luxúria, do perigo e da guerra. Escrevi o nome amado em cada pétala carmim, contabilizado dezenas de folhas com dezenas de pétalas e dezenas de nomes do amor perdido. Queimei-as sem piedade, pedindo o seu fim, o seu fim, o seu fim. O seu fim, infeliz! Do lado de fora, os ventos causavam tempestades e redemoinhos, e as harpias voavam histéricas. Quando o conheci, ainda não tinha dezoito anos, e senti-me percorrer por um forte e inexplicável desejo. Entreguei-me inteira ao movimento de minha paixão, tudo em mim explodia, exalava, desaguava – e assim pura recebi dele o botão fresco de rosa semelhante aos seus lábios. Ao chegar em casa, corri pelas escadarias, tranquei-me no quarto, devorando as pétalas jovens para evitar um grito de prazer. Ninguém compreende porque nunca casei novamente, recusando um segundo encontro com os candidatos ao meu amor. Encontrados entre parques e jardins suspensos, eles brilham os olhos ao enxergarem a minha elegância, sensualidade e beleza perpétua, nunca verificando que estou na idade tabelada como “não-mais-se-diz”. “Oh, Rosa, menina Rosa”, dizem, cegos. Durante todos esses anos de abandono, trouxe uma dúzia deles para o meu jardim secreto, um jardim perfumado por centenas de rosas e com entrada privada no beco sem saída. Convido os mais graúdos e excitantes, os galãs de cinema de bairro classe média, e depois da grande virada, quando salto de viúva jovem e séria – sim, tantos anos passaram que me tornei viúva! - para uma depravada que poria Carmem de Bizet no chinelo, rasgando-me selvagem num sexo entre as flores, enveneno os meus Marcello Mastroianni com um licor de frutos fatais. Enterro os corpos másculos e de paus de bom tamanho aos pés das roseiras, enrolados em lençóis esplendidamente bordados pela víbora. À medida que o amante conversa, romântico e lúbrico, na meia-luz do jardim, examina-o, oferecendo o elixir das sementes do diabo. Vejo-o propriamente não como moço, nem o meu ato como crime, mas como uma cerimônia em homenagem ao meu corpo intato e jovial, apesar da inesquecível punhalada do mais importante dos machos. Muitas rosas tenho entre os dedos, todas de um vermelho roxo que parece sangue. A rosa vermelha das gotas do sangue de Cristo, da consagração a Vênus, a deusa do amor e da beleza. Tampouco exalto as arestas fúnebres, apenas glorifico um romance favorável, gotículas de pressentimento, conversas e alegrias na luz, costumes degustados, círculo de identificações, sentimentos em órbita e símbolos fornicados etcétera. Diante de mim, o destino violado e brevíssimo, extenso e fatigante, adúltero. Diante de mim nenhuma esperança, somente o jardim de rosas de sangue. Sei perfeitamente que não há felicidade na fúria de uma rosa lógica, mas seguirei colando pétalas em papel de seda todas as noites até o meu fim e o fim de todas as noites.



(25 de abril/2003)
CooJornal no 312


Antonio Júnior, 
escritor, poeta,  jornalista e fotógrafo. 
Autor de ARTEPALAVRA – CONVERSAS NO VELHO MUNDO (A S Editores, 2003).
antonio_junior2@yahoo.com 
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-12.htm